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O mau uso

No Brasil, escândalos têm sido reiteradamente desperdiçados

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*Escândalos, tragédias, catarses, costumam ter papel pedagógico. Criam momentos em que podem se romper a inércia, o imobilismo, e abrir caminho para soluções, aprimoramentos institucionais.

Mas no Brasil os escândalos têm sido reiteradamente desperdiçados. Surge um fato espetacular, há um tiroteio da mídia, muitas vezes abusando de ilações e de falsas acusações, que contribuem para desmoralizar as acusações pertinentes. E o objetivo final, qual é? Na maioria absoluta das vezes liquidar com a bola da vez. E só.

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Tome-se o caso Renan Calheiros. Parte das acusações feitas a ele são de práticas comuns a grande parte de políticos e senadores. A questão das outorgas de concessões de rádios é uma delas. Muito provavelmente, se for investigar quando recebeu o presente, se irá cair na gestão Pimenta da Veiga, ou mesmo Hélio Costa. O ex-Ministro das Comunicações Sérgio Motta considerava a despolitização do sistema de concessões um dos grandes desafios da democracia brasileira. Morreu, entrou Pimenta e as práticas continuaram.

Em vez de aproveitar a questão dos supostos “laranjas” de Renan, para uma cruzada em favor da moralização das concessões, a campanha de mídia visou apenas Renan. Lá em Maceió, mesmo, uma das concessões de televisão é do deputado Tomaz Nonô, do DEM. Mas nada se fala porque não interesse no momento.

Quando algum interesse for contrariado, quando as circunstâncias políticas exigirem, sacam-se os escândalos da algibeira e os colocam para provocar a indignação popular — e atender a propósitos nem sempre muito claros.

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A questão de lobistas representando fornecedores ou concorrentes de licitação pública existe em quase todos os países. No Brasil, é exagerado. A questão é que, após tantos escândalos, há um mapeamento completo dos focos de vazamento dos recursos públicos.

Existem as compras de remédios, de equipamentos de informáticas, os prestadores de serviços (vigilância, limpeza), que substituíram os empreiteiros como os grandes investidores em campanhas políticas.

Os nomes desses fornecedores são conhecidos. Tem a Confederal, no governo federal, do ex-Minstro de Lula Eunício Oliveira; tem a Tejofran em São Paulo, um quase monopólio no atendimento dos contratos públicos. Em cada estado existem as empresas que controlam esses contratos, que bancam campanhas políticas.

Se poderia aproveitar o escândalo para reduzir a margem de manobra desse pessoal, ou o subjetivismo nas contratações. Mas não interessa, porque o objetivo das campanhas midiáticas não é melhorar o país, mas mirar alvos específicos.

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Grande parte da corrupção pública decorre do fisiologismo — de entregar cargos a aliados políticos para garantir a governabilidade. Nenhum governo escapa desse jogo. Apenas alguns são mais hábeis.

Se poderia aproveitar o escândalo para discutir o modelo político, a profissionalização das empresas públicas. Mas não interessa. O que vale é apenas o show da semana seguinte. A análise de problemas é complexa, exige estudo, suor e paciência. Mirar uma pessoa e atirar é simples, traz resultados mais imediatos.

É essa a tragédia brasileira.

Artigo publicado no blog de Luis Nassif, nesta sexta-feira (14/9).

 é colunista do jornal Folha de S. Paulo, comentarista da TV Cultura e editor do blog Luís Nassif Online.

Revista Consultor Jurídico, 14 de setembro de 2007, 12h02

Comentários de leitores

4 comentários

Pois é, o que interessava realmente à mídia cap...

Armando do Prado (Professor)

Pois é, o que interessava realmente à mídia capitaneada pela Veja era atingir Lula via derrubada do "bovinocultor" Renan. Outro objetivo, era colocar o senador Jarbas Vasconcellos no lugar do "bovinocultor", para facilitar o vampiro governador de SP em 2010. Deu errado. Portanto, o grande derrotado, mais uma vez, foi a mídia pautada pela "Central Única de Editorialização" (CUE). Acompanhemos os próximos passos.

MAIS UM CRIME DA IMPRENSA Nossos govern...

Bernardo (Outros)

MAIS UM CRIME DA IMPRENSA Nossos governantes e autoridades continuam a fazer de conta que a Constituição esteja sendo cumprida, quando na realidade a aplicação da Lei resulta apenas das composições conjunturais dos interesses e aspirações em jogo. A opinião pública em acerto acha que se trata de coisa pior. De fato, o artigo em tela só serviu para reforçar essa convicção. É nesses momentos que tenho vergonha dos governantes e da imprensa do meu País (que me desculpem os que ainda lutam por um Brasil melhor). Ainda nesse particular, é bem de se ver que o emérito articulista, jornalista Luiz Nassif, no “Caso Escola Base” e no “Caso Osasco Plaza Shopping”, foi o primeiro a policiar a imprensa e a revelar as falhas nas condutas da polícia e do Ministério Público, respectivamente, a saber: “Bom, hoje eu não vou falar de economia, vou falar de um assunto que me deixa doente. Toda a imprensa está há uma semana denunciando donos de escola que presumivelmente teriam cometido abuso sexual contra crianças de quatro anos. Toda a cobertura se funda em opinião da polícia. Está havendo um massacre. Mais que isso, está havendo um linchamento. Se eles forem culpados, não é mais que merecido. E se não forem? Uma leitura exaustiva de todos os jornais mostra o seguinte: não há até agora nenhuma prova conclusiva de que a criança foi violentada por adulto. Não há nenhuma prova conclusiva contra as pessoas que estão sendo acusadas. Tem-se apenas a opinião de policiais que ganharam notoriedade com denúncias e, se eventualmente se descobrir que as denúncias são falsas, vão ter muita dificuldade de admitir. Por isso, a melhor fonte não é a polícia, neste momento. A imprensa deve às pessoas que estão sendo massacradas, no mínimo, um direito de defesa, de procurar versões fora da polícia. Repito: é possível que as pessoas sejam culpadas. Mas é possível que sejam inocentes. E se forem inocentes?” (Jornalista Luiz Nassif, Caso Escola Base - Os Abusos da Imprensa, 2ª Edição, Editora Ática, 2001, págs. 99/100.). “A primeira conclusão a que chegou é sobre o processo de formação de notícias, entre jornalistas e autoridades (delegados e promotoria) cúmplices do escândalo. (...). A posição dos delegados e promotores reforçava as suspeitas das publicações que, por sua vez, reforçam as suposições dos delegados e promotores. Montava-se uma rede infernal, auto-alimentada, que não permitia nem sequer o exercício do contraditório”. (...). Depois, laudos de dois dos maiores especialistas brasileiros em gás - José Atílio Vanin, professor - Titular do Instituto de Química da USP, e Reynaldo Gomide, doutor pelo MiT e da Escola Politécnica da USP - corroboraram ter sido a explosão instantânea devido a um vazamento abrupto, muito provavelmente causado pela trepidação do solo provocada pelo bate-estacas em operação na construção vizinha ao Shopping”. (Jornalista Luiz Nassif, Caso Osasco Plaza Shopping - Jornal “Folha de S. Paulo” - 15 de julho de 1998). De se lembrar que, o jornalista Luis Nassif, em artigo publicado em seu blog sobre a absolvição dos administradores do Osasco Plaza pelo STJ por quatro a zero (13/12/2007), em acerto resumiu em uma frase a conduta da imprensa no “Caso Osasco Plaza Shopping”: ”MAIS UM CRIME DA IMPRENSA”. Vide: http://conjur.estadao.com.br/static/text/51011,1 Bernardo Roberto da Silva bernardorobertodasilva@yahoo.com.br

É inesquecível como a justiça conseguiu prender...

Agnaldo Souza (Bacharel - Criminal)

É inesquecível como a justiça conseguiu prender Al Capone. Aqui no Brasil a única classe que consegue enriquecer facilmente, infelizmente são nossos representantes. E aí pergunta-se será que realmente não estamos merecendo uma Revolução Francesa à braslieira com direito a guilhtina, paredão e tudo o mais para acabar de vez por todas com essa Oligarquia que o glorioso Sarney é o maior representante ou teremos que esperar a mão divina para fazer justiça, assim como foi com Ulisses, Toninho Malvadeza e outros poucos que nunca foram punidos e ainda deixam a hereditaredade agindo sobre nós simples mortais que não temos capacidade de ascensão social, devido a ociosidade de 90% dos brasileiros?

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