Sobe, desce

Crise na bolsa deve provocar mudança na realidade de investimentos

O preço das ações é decorrente da expectativa dos lucros futuros das empresas, descontados pelo custo de oportunidade, que pode ser traduzido como a taxa média de juros dos mercados. Assim, a capacidade de geração de riqueza pelas empresas, aliada a uma política macroeconômica apropriada determinam o preço das ações. Baseados nessa premissa bastante estudada por teóricos da administração financeira, são formados os preços das ações das mais diversas empresas.

As bolsas de valores refletem o somatório das expectativas sobre o conjunto das empresas e em função disto elas sobem e descem. Todavia a direção que tomam as bolsas de valores, tanto para alta como para baixa, não reflete apenas aspectos fundamentais, mas também aspectos comportamentais. Avaliar o preço das ações tem um componente econômico financeiro e um componente psicológico. O componente fundamental é a evolução do lucro das empresas, que decorre de fatores endógenos às empresas e também do ambiente econômico.

Uma empresa precisa ser bem administrada para dar resultado, porém recebe influências da situação econômica, como o crescimento do produto interno, evolução do comércio e dos níveis da taxa de juros e ainda das políticas e diretrizes formuladas pelos governos com relação à economia da nação. Apesar das dificuldades de se prever esse conjunto de variáveis complexas, existem mecanismos bastante desenvolvidos para estudá-lo. Não existirá certeza, mesmo para aqueles que dominam as técnicas, mas probabilidades.

A junção de um conjunto de variáveis forma uma resultante que indica a direção das bolsas. Aqueles que desconhecem esse emaranhado opinam que a bolsa é um cassino freqüentado por especuladores financeiros, prontos para dar o tombo em alguém e no conjunto dos investidores. Quem pensa assim deseduca e não tem uma visão coerente do mercado. Tal visão, para aqueles que conhecem o assunto, não se sustenta. A especulação pode realmente afetar o comportamento das bolsas, mas não é o fator fundamental. Esse fator fundamental se baseia no entendimento dos resultados econômicos apresentados e projetados, embora sejam de difícil avaliação.

O lado comportamental da evolução das bolsas precisa ser compreendido. Os modelos para sua análise são totalmente diferentes dos anteriores. A análise fundamentalista se baseia em fatos reais e sua complexidade se dá em decorrência da enormidade das variáveis a serem analisadas. A análise comportamental se baseia nos aspectos psicológicos da formação de opiniões sobre o futuro e podem estar ou não em sintonia com a realidade. Assim, independente da realidade observada, a emoção é peça fundamental para uma análise completa. Considerados os dois fatores básicos, um real e o outro psicológico, podemos prescrever as linhas básicas para o comportamento favorável por parte dos investidores e mesmo de governos.

Apesar da complexidade é possível que uma pessoa, mesmo sem deter um conhecimento profundo sobre o assunto, possa aplicar dinheiro na bolsa sem correr riscos exagerados. Tudo isso dependerá da observação de algumas variáveis fundamentais básicas e de equilíbrio emocional. A variável básica é: aplicar sempre a longo prazo e de maneira diversificada. Pode parecer pouco para enfrentar situação tão complexa, mas é suficiente para se evitar dissabores maiores. O equilíbrio emocional visa impedir que nosso comportamento se assemelhe ao de ratos em laboratório, fugindo apavorados de momentos de tensão e realizando prejuízos irrecuperáveis. Os que especulam estão correndo risco muito maior.

Um aspecto que devemos nos lembrar para aplicar em bolsa é que empresários, sobretudo de empresas sólidas negociadas em bolsa, sempre estarão lucrando. Empresas normalmente dão lucro, pois agregam valor à economia. Elas geram riqueza e conseqüentemente beneficiam os proprietários dessa riqueza e por conseqüência, toda a nação, pela maior utilização dos fatores de produção incluindo a criação de empregos.

Todavia as empresas são empreendimentos de risco e as expectativas sobre sua evolução se alteram no tempo. Assim os empresários arriscam, porém o somatório dos resultados é positivo, sobretudo quando se trata de proprietários de empresas bem administradas, como é a maioria daquelas que são negociadas em bolsa. Isso é fácil de observar e se aplicarmos nossos recursos financeiros dentro das regras de diversificação e longo prazo, a probabilidade de sair ganhando é alta, mesmo que eventualmente tenhamos que enfrentar tempestades.

É bom que se compreenda os aspectos comportamentais que influenciam a bolsa, independente dos fatores reais, pois eles guardam entre si não mais que uma pequena correlação em determinados períodos, ou mesmo correlações invertidas. Em outras palavras cada uma das análises utilizadas tem uma finalidade diferente que tentaremos explicar.

Luiz Roberto Kallas é consultor e professor de Planejamento e Finanças há 33 anos.