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5 setembro 2007

Sessão de análise

Ives Gandra critica liberdade total para jovens procuradores

Por Lilian Matsuura

O Ministério Público conquistou independência e autonomia para atuar e passou a ser um órgão de grande relevância para o país, com a promulgação da Constituição Federal de 1988. No entanto, parece ter perdido a medida, uma vez que cada um dos seus membros parece ser uma entidade autônoma e representa o próprio MP. A análise foi feita pelo advogado Ives Gandra Martins, que encerrou o congresso organizado pela Academia Internacional de Direito e Economia, em que especialistas colocaram o MP no divã e analisaram a sua atuação, qualidades e defeitos.

Para Ives Gandra, a liberdade de atuação concedida pelo texto constitucional trouxe benefícios para toda a população. Ele conta que, até então, o procurador-geral representava os brasileiros e ao mesmo tempo o presidente da República. E recorda que as Ações Direitas de Inconstitucionalidade contra leis estaduais corriam aos montes no Judiciário. Enquanto isso, as normas federais não eram questionadas. Isto é, o procurador não estava integralmente a favor da população.

Por outro lado, a independência e a autonomia entre os próprios membros do Ministério Público proporcionam insegurança jurídica e podem ter efeitos nefastos para o próprio país. Para Ives Gandra, a “liberdade total e absoluta” a jovens procuradores sem visão macropolítica, macroeconômica e macrojurídica não pode trazer bons resultados. Ele ressalta que os jovens possuem conhecimento técnico e estão habilitados para atuar no âmbito do Direito formal. O problema é que não têm experiência de vida.

O advogado cita um caso que aconteceu em Ubatuba, litoral norte de São Paulo. Como as ruas não eram asfaltadas, a associação dos moradores se reuniu e propôs que cada um dos cidadãos contribuísse com uma quantia para que a prefeitura concretizasse a pavimentação. A idéia foi aceita e as obras começaram. Até que um procurador entrou com uma Ação Civil Pública e conseguiu suspender a obra porque a proposta não seguia à risca o Código Tributário Brasileiro.

Ives Gandra apresentou um parecer, que depois foi acolhido para dar seguimento à obra, em que defendeu que o MP não tem direito de entrar com Ação Civil Pública quando se trata de direitos individuais disponíveis. O procurador, para seguir a letra da lei, foi contra o que toda a comunidade de Ubatuba queria.

Diante de casos como esse, ele sugere que os integrantes mais experientes do Ministério Público reflitam sobre a autonomia de atuação e que proponham uma forma de hierarquia dentro do órgão. E o mais importante, para ele, é que essa discussão seja feita dentro do próprio MP, de dentro para fora.

Interesse público

A proposta de orçamento do governo federal para 2008 é de R$ 682 bilhões, o que vai representar um aumento de 12% na carga tributária brasileira. Ives Gandra diz que é preciso separar o que é de interesse público e o que é de interesse dos detentores de poder.

Ele conta que R$ 12 a R$ 15 bilhões desse valor serão destinados ao programa Bolsa Família, “de grande importância para o eleitorado do presidente Lula”. Outra grande parte do orçamento será destinada para o aumento dos quadros funcionais, o que chamou de trem da alegria. Nele, 500 mil celetistas poderão ser transformados em servidores. Para o advogado, o Ministério Público deveria agir nesses casos em defesa da sociedade.

Lilian Matsuura é repórter da revista Consultor Jurídico

Revista Consultor Jurídico, 5 de setembro de 2007

Comentários

Comentários de leitores: 33 comentários

10/09/2007 10:16 Sandro Lira (Estagiário)
Da mesma forma em que há uma idade mínima para ...
Da mesma forma em que há uma idade mínima para a candidatura à cargos de grande relevância política como Governadores, Deputados, Senadores e Presidente da República e outros, cujo a indicação devem passar por uma "sabatina" do Congresso, o mesmo deveria se dar nos casos de Juízes e Promotores. Em todos os cargos citados, além de outras atribuições, ao estabelecer uma idade mínima para o pleito, há de se imaginar uma certa experiência de vida, pois de certo, terão que tomar decisões maduras, sábias e rápidas, tais atitudes advém com a experiência e o exercício da cidadania, onde só uma única faculdade ensina, a "faculdade da vida". Isto se aplica também aos cargos de juízes e promotores, pois tem eles funções cruciais para o desenvolvimento de nossa sociedade.
9/09/2007 14:39 Freire (Advogado Autônomo)
O que o Sr. Diaz esqueceu, é que existem verdad...
O que o Sr. Diaz esqueceu, é que existem verdades imutáveis, princípios irrevogáveis, conceitos perenes, cuja aplicação não pode variar conforme a inversão de valores que pululam nesta sociedade dita pós-moderna. Se pós-modernidade é o desrespeito, a falta de honestidade, a ausência de moral e bons costumes e a relativização do caráter, então abaixo a pós-modernidade. Agora, se pós-modernidade for avanço tecnológico, troca de idéias, exposição de posturas dentro dos limites da respeitabilidade, então, que venha com força e vigor, lembrando sempre aos cúmplices da modernidade irresponsável, que desde os tempos imemoriais, a idade e a experiência devem ser respeitadas, e que o seu espaço é perene, pois leva os bem intencionados a um progresso saudável e dinâmico, revestido de reverência, cumplicidade com as boas idéias, e, principalmente, a manutenção de posturas que somam de geração à geração. Deus lhe abençoe Dr. Ives Gandra, e perdoe os arroubos dos inexperientes. Eduardo Freire.
9/09/2007 10:08 Diaz (Contabilista)
Com todo o respeito ao Dr. Yves Gandra Martins,...
Com todo o respeito ao Dr. Yves Gandra Martins, este seu texto está me cheirando a "Parecer" encomendado, daqueles de R$100.000,00 a lauda. O País está avançando e para isto conta com uma nova geração de servidores públicos descompromissados com o "status quo" existente, de saganagens, velhacarias, impunidades, corrupção e outras vigarices. O Procurador Público que for irresponsavel será chamado pela legislação a responder por esta irresponsabilidade. O Dr. Yves G. Martins entende que a lei tem que ser aplicada mas, "depende". O seu discurso é do século passado, anacronico e a sua fundamentação teórica chega a ser ridícula. Por favor, está na hora de mudar, o País está mudando e lamentavelmente o poder economico e os trapaceiros bem sucedidos, ainda ainda tentam manter muitas "figuras" com o prazo de validade vencidos, tentando influir nos destinos desta nação.

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