A tragédia da Piedade

Livro resgata autos do assassinato de Euclides da Cunha

Sobre Euclides da Cunha parecia já se ter dito, escrito e encenado tudo. O autor de Os Sertões é daqueles personagens cuja vida — e morte — foi esmiuçada à exaustão. Mas há sempre algumas lacunas. E uma delas acaba de ser preenchida com o lançamento de Crônica de uma Tragédia Inesquecível — Autos do processo de Dilermando de Assis, que matou Euclides da Cunha.

Na manhã de 15 de agosto de 1909, Euclides da Cunha invadiu armado a casa de Dilermando de Assis, amante de sua mulher, e acertou dois tiros no rival, que reagiu também a tiros e matou o escritor. O livro traz a transcrição dos primeiros depoimentos colhidos logo após o tiroteio entre o amante e o marido de Anna Emília Solon da Cunha até a segunda sentença de absolvição de Dilermando, em 31 de outubro de 1914.

Quando matou Euclides da Cunha, Dilermando tinha 21 anos e há quatro mantinha um caso amoroso com Anna. O relacionamento extraconjugal trouxe à luz dois filhos, ambos registrados por Euclides. Os depoimentos dos autos revelam que o escritor tinha conhecimento desse fato. O processo mostra também que as razões do surgimento do triângulo amoroso que deu causa à “Tragédia da Piedade” — como ficou conhecido o crime, em alusão ao bairro carioca onde ocorreu — são usadas tanto pela defesa quanto pela acusação para tonificar a musculatura de suas teses.

De um lado, a acusação carrega as tintas na tese de o réu ter cometido o crime impelido por “motivo reprovado”. De outro, os advogados de Dilermando tentam mostrar, de forma acessória à alegação de legítima defesa, que os atos e a personalidade de Euclides da Cunha teriam impulsionado sua mulher à traição.

Um dos documentos juntados ao processo em que fica claro esse objetivo é o artigo do jornalista Júlio Bueno, companheiro de gamão de Euclides, publicado no jornal O Muzambinho uma semana depois do crime. Em um trecho, o jornalista descreve a relação do escritor com Anna.

“Mas aquele de grande espírito tinha uma falha; aquele de imenso coração tinha um ponto negro; aquela alma Adamantina, como novo Gulinan, tinha uma jaça; aquele Himalaia de patriotismo, de dedicação para os fracos, para os oprimidos, para os pequeninos, para os infortunados, tinha uma caverna escura; como Achiles, o herói de Homero, tinha um ponto vulnerável; aquele cultor apaixonado do dever tinha um senão — essa falha, esse ponto negro, essa jaça, essa caverna escura, esse ponto vulnerável, esse senão, era o abandono moral da companheira, daquela que de carinho, de zelo, de dedicação, o aconselhava, o advertia, o arredava dos perigos, procurando cercá-lo de uma atmosfera de calma e repouso. Porém o grande homem, por uma fatalidade idiossincrásica, correspondia mal a essas disposições da esposa.”

Prisão moral

O depoimento sobre Euclides da Cunha publicado no jornal por seu parceiro de gamão é apenas uma entre as diversas preciosidades que constam do processo e são resgatadas pelo livro. O relatório do delegado Joaquim Pedro de Oliveira Alcântara, que presidiu o inquérito policial sobre o crime, é revelador da comoção social provocada com a morte do escritor. Comoção que faria Dilermando, mesmo absolvido por duas vezes, ser sempre tido como o algoz do autor de Os Sertões.

Em um trecho do relatório, o delegado atribui a “desordem no lar do extinto e glorioso homem de letras” às “relações adulterinas” mantidas entre Dilermando e Anna. Sustenta que o assassinato foi premeditado e contou com a ajuda de Dinorah, irmão de Dilermando, que também foi alvejado com dois tiros por Euclides e sobreviveu.

“[Dilermando] ordena a Dinorah que o faça [Euclides] entrar para a sala de visitas e vai vestir uma túnica; vede este traço característico: — Dilermando está com D. Anna à mesa — íntimo, sem túnica, em mangas de camisa, mas para receber o marido desta, vai vestir-se... é que ele sabia que a cena seguinte seria solene”, escreve o delegado.

A fundamentação para o pedido de prisão preventiva, corroborado pelo promotor e aceito pelo juiz (Dilermando de Assis passou quase dois anos preso), provavelmente não passaria pelo crivo do Supremo Tribunal Federal hoje: “apesar de serem os indiciados aspirantes militares, revelam em todo esse crime tal ausência de senso moral, que é de se presumir se furtem à ação da Justiça”.

Para atestar a “insensibilidade moral, a ausência dos elementos que disciplinam os homens normais e lhes moram a ação”, o delegado afirma que “basta lembrar que Dilermando, ao dar as suas primeiras declarações, procurou construir a hipótese de que o Dr. Euclides Cunha, homem próximo à genialidade, era um quase demente, impulsivo e insano”.

Fatos e versões

O delegado faz ainda referência à contradição nos depoimentos dos envolvidos na tragédia. A alegação ganha peso com a leitura dos primeiros depoimentos prestados logo após o crime, à Polícia, e os que se seguiram, à Justiça.

Rodrigo Haidar é chefe de redação da revista Consultor Jurídico.

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21/11/2007 17:52Ana Flávia (Outros)Prezado Armando, Que fatos Dirce pode ter co...
Prezado Armando, Que fatos Dirce pode ter conhecido menos que você próprio? Em seu livro, ela é profundamente honesta. O que faz é apenas mostrar a humanidade do próprio pai, que sofria muito com sua própria história. Dilermando matou Euclides em legítima defesa. Mais tarde, foi obrigado a matar o filho do escritor com Ana, também em legítima defesa. Ele assumiu todas as conseqüências do amor que começou a viver quando era pouco mais que uma criança, com aquela mulher tão mais velha. Mas tudo indica que depois da segunda morte, a relação tenha se deteriorado. O fato de Euclides ter sido um grande escritor não torna Dilermando mais culpado de suas ações. Ao contrário, ter sido absolvido por um crime cometido contra um homem tão notável é bastante elucidativo de sua inocência. Se o mundo coubesse nas suas reduções maniqueístas, Armando, talvez fosse mais simples. Bem mais simples...Mas não seria esse mundo, nem o ser humano, com sua complexidade existencial, encontraria seu lugar nele.
21/11/2007 11:24Diego (Estudante de Direito)Quer dizer que só o fato de alguem ser escritor...
Quer dizer que só o fato de alguem ser escritor o redime de qualquer outro comportamento que possa ter? É notório que grandes intelectuais possuem personalidade conturbada. Acatar que um é o cruel algoz pelo fato de ter matado uma personalidade é um para mim um sentimento de inferioridade. Um complexo que muitos tem em sustentar a perfeição dos ídolos. Há quem diga que o Michel Jacson não é pedófilo...
21/11/2007 09:51Armando do Prado (Professor)Prezada Ana, no sentido de descobrir "humanidad...
Prezada Ana, no sentido de descobrir "humanidade por trás dessa tragédia sem heróis ou vilões". O livro escrito por uma pessoa que não esteve perto dos acontecimentos, pois filha de outra mulher de Dilermando, muito depois deste ter abandonado Saninha. Nessa história tem heróis e vilões, basta acompanhá-la desde os tempos de Canudos, quando o exército massacrou sertanejos. Euclides relatou o crime conduzido, principalmente, por militares gaúchos. Daí para se defender o gaúcho e militar Dilermando foi um passo bem rápido. No mais, basta verificar qual a importância de um e de outro.