Artigos
21 maio 2007
Escutas no Judiciário
PF se transforma em instrumento de propaganda oficial
O Superior Tribunal de Justiça foi criado pela Constituição Federal de 1988. Sua instituição precedeu a longa discussão nos meios jurídicos do país — notadamente na então Comissão Afonso Arinos — e, a seguir, como não poderia deixar de ser, na própria Assembléia Nacional Constituinte. Veio substituir o antigo Tribunal Federal de Recursos, que teve parte de suas competências distribuídas entre os atuais tribunais regionais federais e o próprio STJ.
Entre tais competências, destaca-se a reservada ao julgamento das questões que envolvem interpretação de normas infraconstitucionais. Buscou-se, com isso, aliviar o Supremo Tribunal Federal do exame de matérias não constitucionais, passando ao STJ algumas de suas competências originárias e instituindo-se o recurso especial.
Apesar da excelência dos propósitos, nem o STF ficou livre do excesso de processos, que já à época crescia progressivamente, nem o STJ conseguiu se livrar do estrondoso volume de feitos que, a cada dia, abarrotam seus escaninhos. De qualquer sorte, a criação do STJ foi uma das maiores conquistas do Poder Judiciário nos últimos tempos. Se seus 33 ministros se afogam num mar interminável de processos, nem por isso se pode dizer que não correspondeu às expectativas de sua criação. Superou-as até. Com o que não se contava é que chegasse tão cedo ao esgotamento de sua capacidade.
Os advogados brasileiros são prodigamente criativos. Se normas processuais e a jurisprudência fecham as portas ao seu trabalho, tratam logo de encontrar meios para reabri-las. Além dessa engenhosidade de que são possuidores, é de se acrescentar ao fenômeno o crescimento populacional do país, o nível de melhor conscientização da cidadania e a multiplicação das relações econômicas de onde provêm os conflitos.
É desumana a tarefa dos ministros do STJ. Além disso, ainda são, por força de lei, obrigados a abrir a agenda para conceder audiências a advogados. A maioria vai falar sobre suas causas e pedir-lhes preferência para julgá-las. Como é fácil verificar, é o STJ a corte que mais concentra as atenções das partes. É ela que decide as enxurradas de pleitos originários de todo o país.
Enquanto o STF cuida mais de questões constitucionais, o STJ tem a incumbência de decidir dezenas de milhares de demandas que versam sobre matéria infraconstitucional. Os interesses variam de pequenos litígios até gigantescas disputas que encerram milhões de reais, sem contabilizar milhares de procedimentos criminais oriundos dos tribunais federais e dos estados.
Não bastassem as pesadas responsabilidades que recaem sobre cada um dos juízes da corte, ficaram eles agora reféns de atrabiliárias e freqüentes interceptações telefônicas. Violações tais que, como mal dos dias em que vivemos, se estendem, como praga, a todo o Judiciário nacional. Durante os expurgos do regime stalinista na antiga União Soviética, suas vítimas eram, aos borbotões, submetidas a fuzilamentos sumários. Stalin foi advertido de que, entre elas, poderia haver inocentes. Teria respondido que a supremacia do bem do Estado justificava a matança.
Ora, no Estado de Direito Democrático, erigido sob o pálio da Constituição Federal, é o Judiciário a maior garantia do cidadão contra a truculência de transgressores da lei. No festival de operações desencadeadas pela Polícia Federal, com violências perpetradas sob ordens de incautos juízes, agride-se o único poder capaz de refrear os abusos contra os direitos das pessoas. Simples e corriqueiros telefonemas de servidores de tribunais em que ao léu fazem comentários sobre processos, servem de pretexto para lançar na lama de suspeitos juízes de ilibada e honrada conduta.
A Polícia Federal, cuja função é de importância indiscutível na vida federativa, tem se transformado, lamentavelmente, em instrumento de promoção e propaganda oficial. Reiteradas vezes o presidente da República tem vindo a público para jactar-se das proezas dela, pouco se importando com o enxovalhamento da honra de inocentes.
Os picarescos nomes dados às dezenas de operações por ela desencadeadas, de cujas ações têm resultado prisões arbitrárias, não resistem à atuação do Judiciário, que desfaz o arbítrio. A PF precisa abster-se de fazer o jogo de publicidade do governo, para ser, na forma da Constituição, órgão de segurança e verdadeira polícia judiciária da União. Teria ela se desincumbido a contento dos escândalos do governo federal no mandato passado? Investigou, por exemplo, o maior responsável por todos eles? Claro que não, omitiu-se.
Criou-se o Conselho Nacional de Justiça com o escopo precípuo de aferroar juízes. Aí está como um sorvedouro inútil do dinheiro do povo. Altos custos com diárias e passagens de conselheiros e servidores são despendidos semanalmente. Agora, são as violentas escutas telefônicas que misturam gente de bem com quem não vale nada. O Judiciário, como poder, tem que assumir a defesa de seus membros. A omissão é inexplicável e clamorosa. Que não se faça com a magistratura do país o que Stalin fez com suas vítimas.
Maurício Corrêa é advogado, ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal e ex-ministro da Justiça.
Revista Consultor Jurídico, 21 de maio de 2007
Arquivo
Leia também: Textos relacionados
- 21/05/2007 Presos durante a Operação Navalha começam a depor
- 21/05/2007 Desembargador volta atrás e cassa própria decisão
- 21/05/2007 Leia liminares que libertaram mais dois na Navalha
- 21/05/2007 STF manda soltar ex-governador e presidente do BRB
- 21/05/2007 Polícia Federal marca paralisação para terça-feira
- 20/05/2007 Para AMB, Judiciário fará a sua parte
- 20/05/2007 Ministro nega pedido de liberdade a cinco acusados
- 20/05/2007 Juízes devem ser punidos por abusos em ações da PF
- 19/05/2007 Gilmar Mendes analisa nesta tarde HC de doze presos
- 19/05/2007 Advogados da Navalha entram na PF depois de pedido da OAB
- 18/05/2007 STF julgará HC de deputado preso na Operação Navalha
- 18/05/2007 Presos da Operação Hurricane ficarão no Rio de Janeiro
- 18/05/2007 STF recebe novos pedidos de HC de presos em operação
- 18/05/2007 Leia o voto que deu liberdade a ex-procurador preso
- 18/05/2007 Contas de presos na Operação Navalha são bloqueadas
- 18/05/2007 Supremo dá liberdade a investigado na operação
- 17/05/2007 PGR pede prisão de Jackson Lago, mas STJ não permite
- 17/05/2007 Polícia Federal fica em greve por tempo indeterminado
- 17/05/2007 Ministro Paulo Medina não quer ser julgado pelo CNJ
- 17/05/2007 Transferência de presos na Hurricane revela atrito
- 17/05/2007 Polícia Federal prende assessor de ministro e ex-governador
- 14/05/2007 Prisões por corrupção provam vitalidade das instituições
- 10/05/2007 STJ define na terça comissão que julgará Paulo Medina
- 07/05/2007 Imprensa tem acesso a processos que nem advogados têm
- 06/05/2007 Acusados por compra de sentenças não conseguem HC
- 06/05/2007 Juiz manda bens de bingos para entidades filantrópicas
- 03/05/2007 Ataques generalizados ao Judiciário não têm fundamento
- 02/05/2007 Judiciário corta na própria carne ao mandar prender juízes
- 29/04/2007 Polícia Federal prende sete juízes em cinco anos
- 29/04/2007 Reforma penal não fere direitos fundamentais de réu
- 27/04/2007 Amatra também defende tratamento especial para juízes
- 26/04/2007 AMB apóia decisão de ministro na Operação Hurricane
- 26/04/2007 Ajufer apóia pedido de tratamento especial a juízes
- 25/04/2007 Ajufe é contra tratamento especial a juízes em batidas
- 24/04/2007 OAB paulista pede regras para ação policial em tribunais
- 24/04/2007 Juízes querem regras para batidas da PF em tribunais
- 23/04/2007 Juiz nega que tenha dado decisões favoráveis a bingos
- 21/04/2007 Supremo liberta juízes presos pela Polícia Federal
- 21/04/2007 PF vai cruzar informações das operações Hurricane e Têmis
- 21/04/2007 OAB-SP pede respeito a prerrogativas em operação da PF
- 20/04/2007 Juízes cobravam até R$ 150 mil por liminar, afirma PF
- 20/04/2007 Ajufesp pede respeito a prerrogativas de advogados
- 20/04/2007 PF deflagra operação contra juízes e policiais em SP
- 31/07/2005 Operações da PF não são monopólio desse governo
Comentários
Comentários de leitores: 41 comentários
Quando se começa a combater a corrupção no país...
Inocentes? Se são inocentes, Dr. Maurício Corre...
Infelizmente o próprio Ministro é adepto da mes...
Ver todos comentários
A seção de comentários deste texto foi encerrada em 29/05/2007.