Sem norte

Entrevista: David Kennedy, professor de Direito de Harvard

“Não há mais um consenso que faça uma relação entre o sistema de legislação com desenvolvimento econômico.” A afirmação é do professor David Kennedy, da Cátedra Manley O. Hudson da Faculdade de Direito da Universidade de Harvard. Na opinião do professor, o problema é que as realidades econômicas dos países são específicas, o que não permite a existência de uma lei geral que pode ser aplicada em qualquer lugar.

“Como estudioso de direito, vejo que muitas das idéias sobre leis rotineiramente propostas pelos operadores políticos e econômicos não correspondem com a realidade de como a lei funciona”, explicou Kennedy em entrevista à revista Consultor Jurídico, que aconteceu no Hotel InterContinental, em São Paulo.

Ele veio ao Brasil para discutir as experiências locais bem sucedidas que poderiam servir de exemplo para outras nações em desenvolvimento. “Elas se focam em reduzir as desigualdades sociais e em quebrar o poder da concentração de renda”, disse o professor. Ele ressaltou casos como o programa de distribuição de renda do governo federal.

Kennedy faz parte do David Rockefeller Center For Latin American Studies, um instituto vinculado a Harvard que discute diversos aspectos dos países da América Latina. Quatorze especialistas do grupo reuniram-se, no final de maio e começo do junho, para debater a crise do Estado de Direito. O primeiro encontro aconteceu na Faculdade do Largo São Francisco (USP) e o segundo, na Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro.

“É muito excitante estar no Brasil para trocar idéias, compartilhar os conhecimentos com os colegas daqui e aprender com a sua experiência”, afirmou o professor antes da palestra A Lei e o Desenvolvimento na América Latina: inovação legal e institucional.

Anos atrás, Kennedy foi muito criticado por sua teoria de que uma causa nobre, como os Direitos Humanos, pode ser desvirtuada quando os ideais substituem o pensamento. Sua reviravolta aconteceu durante a Guerra do Iraque quando o governo americano usou argumentos humanitários para invadir o país. “A promoção de Direitos Humanos universalista, às vezes, cria dificuldades e dissabores com custos inesperados”, explicou o professor.

ConJur — Como o senhor enxerga o Estado de Direito na atualidade?

David Kennedy — O fato mais interessante do momento atual é que a discussão no nível global entre os políticos e os economistas do desenvolvimento se deslocou da economia para o campo das leis. Por isso, os advogados e professores de Direito têm uma participação mais importante neste debate. Como estudioso de direito, vejo que muitas das idéias sobre leis rotineiramente propostas pelos operadores políticos e econômicos não correspondem com a realidade de como a lei funciona. O interesse da minha pesquisa é construir uma aproximação mais realista e útil do jeito como a lei influencia na democracia política e na lei da economia. A idéia de que o Banco Mundial e a comunidade econômica global colocam em prática não é realista por ser formal e universalista. Muitos pensam que o ideal é um sistema legal mais parecido com o americano ou europeu. Por causa desta visão, dizem que esta lei pode simplesmente ser exportada para lugares como o Brasil.

ConJur — Como Brasil pode então ser visto dentro do debate?

David Kennedy — Uma das razões pelas quais desloco a minha pesquisa para aqui é para tentar encontrar o que há de único na experiência brasileira. Pensar como a democracia criada trouxe as políticas de desenvolvimento e as reações que delas derivaram. Como não existe um só tipo de modelo de lei, em todos os lugares existe uma boa experiência. Diversas experiências brasileiras podem ser divididas com outros países em desenvolvimento.

ConJur — E qual é o cerne desta discussão?

David Kennedy — A idéia que está em pauta das discussões de nível global sobre lei, nos últimos 10 anos, trata na maioria sobre os Direitos Humanos. O senso comum tem em mente uma concepção que existe uma série de direitos universais que podem se aplicados com bons efeitos em qualquer lugar. No entanto, as sociedades definem Justiça de diversos modos. A promoção de Direitos Humanos universalista, às vezes, cria dificuldades e dissabores com custos inesperados. Uma das tendências que percebi foi que recentemente especialistas, ativistas e membros de ONGs reconheceram que os Direitos Humanos não são uma solução que pode ser aplicada em qualquer lugar. Da mesma forma que alguns formuladores de políticas do desenvolvimento admitiram que não existe um tipo só de lei.

ConJur — Mas por que o interesse do grupo de Harvard pelo Brasil neste diálogo?

David Kennedy — O time de pesquisadores, que se encontram em São Paulo e no Rio Janeiro, estão de olho no Brasil porque ele é um bom exemplo de um país em desenvolvimento que é extremamente desigual na divisão das riquezas. Existe um grupo de países que também estão nesta situação. E talvez o Brasil tenha algumas boas idéias para uma situação como esta que pode ser dividida com os outros. Pensando o Brasil sob este contexto, identificamos uma série de políticas que foram promovidas recentemente que têm grandes qualidades em comum. Em primeiro lugar, elas são bem específicas para a situação e a cultura dos países em desenvolvimento. Em segundo, elas se focam em reduzir as desigualdades sociais e em quebrar o poder da concentração de renda. São mudanças feitas em um nível local alterando as estruturas familiares e de poder das comunidades. Como acontece quando se faz transferência de renda dando dinheiro aos pais que obrigam os filhos a freqüentarem a escola. Ou também mudanças no nível nacional minimizando a concentração o poder de atuação do próprio governo central em suas ações ou abrindo novas oportunidades de mercado. Portanto, estes projetos e políticas de grande e pequena escala contra a concentração é o que estamos investigando como um modelo que pode, talvez, ser exportado.

Daniel Roncaglia é repórter da revista Consultor Jurídico.

2 comentários




A seção de comentários deste texto foi encerrada em 17/06/2007.
9/06/2007 12:40jose antonio schitini (Advogado Autônomo - Civil)O entrevistado desvela o direito visto de forma...
O entrevistado desvela o direito visto de forma justa, fora dos cânones imbecis da jurisprudência sedimentada e pior transformadas em súmulas, pleonasticamente adjetivadas como vinculantes, como gabaritos de aço a comprimir o povo em suas atitudes, na vã tentativa de eliminar as diversidades pontuadas até de região para região, quando forçadamente aplicadas num vasto país como o Brasil com infinitas alteridades regionais, tanto em sua geografia, como culturais, sociais etc, etc.... Na verdade o país em muitos recônditos é um desconhecido. No discurso os homens do poder, sempre defendem a diferença do índio. Mas na do povo em geral se propaga o engodo com simulacro de verdade. Causa e efeito: favelização, quadrilhas que mais parecem sociedades secretas e insegurança infinita. Revela ainda o enorme descompasso que são Tribunais centralizados num país de vasto território, um gritante erro que não atende a ninguém a não ser as elites de comando, estas sim padronizadas e blindadas pela força das corporações que não passam de quadrilhas legais. Daí não há como justificar os Tribunais Superiores cujo objetivo e falsa glória é alcançar uma padronização de julgados, como se isso fosse o supra-sumo da Justiça, quando não passa da realização da tirania já que a serviço de grupelhos. Consideram um feito julgar 10.000 ou mais processos por uma única medida (receita) aplicada indistintamente, comportamento que nem Salomão ousou perpetrar no seu reino, já que julgava caso a caso. Tirania de grupos que almejam o monopólio do Poder, utilizando o direito pétreo para informar a sua aplicação de justiça padrão, petrificada e corroída pelo limo, para dizer o que cabe a cada um sem se dar conta das diferenças sócio- regionais-culturais. Soma-se a isso a forma padronizada e previsível com que são eleitos os pseudos representantes do povo, com o sistema de voto proporcional majoritário, mantido artificialmente pelo interesse dos que galgam parcelas de poder e que apenas representam os seus interesses particulares e que criam, ou união de interesses privilegiados para que o seu seja mantido, os regimentos máximos e mínimos que vão regrar a sociedade, onde o que menos importa é o bem estar do povo e sim os ganchos de estabilidade para assegurar mandatos perpétuos graças ao voto de cabresto obtidos por minguados favorecimentos pessoais, com o disfarce que estão propagando o bem estar social em geral, sem se ater as peculiaridades do povo em suas diversidades. O tipo de voto distrital, seja misto ou o mais adequado nem pensar, porque daí o quadro geral de poder vai mudar drasticamente. E, dentro dessa distorção com que se defronta, o mais importante não é o Direito Civil. O Direito Administrativo avulta com suas alamedas e labirintos. Coroando, o Direito substancial é inútil o que vale é o processual, como o velho, odiado e ultrapassado termo que o desmascara: Direito Adjetivo. O que importa não é a matéria e sim a sua forma. Analisar a matéria da trabalho e fatorando a substância caí a mascara. O direito processual é genérico, bom para as elites e enganador para as massas. Bela entrevista.
9/06/2007 11:43dijalma lacerda (Advogado Sócio de Escritório - Civil) Quando, há poucos meses , houve aquele ...
Quando, há poucos meses , houve aquele "boom" todo sobre o assunto da diminuição da maioridade penal, o que eu dizia, basicamente, é que o Brasil, sendo um país continental, possui conceitos diversos na conformidade de cada uma de suas regiões, ou difeerentes "povos" que o habitam. A nossa Lei, por sermos uma república f e d e r a t i v a, "é igual para todos" (!!!), e isto na verdade em muitas das vezes destoa da realidade de nossa gente. Em certas regiões, por exemplo, a menina fica moça mais cedo, o jovem "encara a vida" mais precocemente, enquanto que em outras (e esta é uma realidade bem atual), os filhos e filhas ainda moram com os pais após os vinte e um anos (alguns até depois dos trinta). E certas regiões, é normal o porte de armas, fazendo isto parte da tradição de seu povo, como no Rio Grande do Sul pro exemplo em que a adaga é companheira inseparável. Nas regiões amazônias ninguém se embrenha nasquelas matas sem uma boa cartucheira. Daí a necessidade de se redescutir a "lei do desarmamento". Há regiões em nosso país, e não tão poucas assim, em que jamais alguém sequer ouviu falar de televisão. Pare até mentira, mas existem rincões assim, sim. Enfim, a entrevista acima tem aplicação não só para o Globo, mas igualmente serve para análises e reavaliações internas, essencialmente nos países-continentes como o nosso Brasil.