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28 janeiro 2007
Jornalistas investigados
Qual é o seu medo, senhor Luiz Gushiken?
Há dezessete anos, resolvi optar pelo jornalismo. Não foi, propriamente, uma opção econômica. Era um ideal. Não fazia planos de enriquecer, nem de ganhar nada imerecidamente.
Não sei há quantos anos o senhor Luiz Gushiken optou pela política. Imagino que faça muito tempo.
Do meu lado, sempre atuei na iniciativa privada, onde o mérito é aferido pelo esforço e pelo talento. Trabalhei nos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas, bem como nas revistas Veja, Exame, Istoé Dinheiro e Dinheiro Rural. Dediquei-me a relatar fatos. Apurar, investigar, entrevistar, escrever.
Gushiken dedicou sua vida à luta pelo poder. Sindicalista profissional, sempre atuou na órbita do dinheiro público, estando na oposição ou no governo.
Nossos destinos se cruzaram quando Gushiken, na posse de um cargo público, envolveu-se numa disputa privada. E, a meu ver, decidiu agir contra um grupo econômico, o Opportunity, de forma arbitrária e alheia às suas atribuições governamentais. A partir de então, passei a contar com a sua antipatia.
De volta da Itália, nesta semana, fui surpreendido com uma carta do ex-ministro ao delegado Paulo Lacerda, pedindo que a Polícia Federal investigue jornalistas que escrevem notícias que não lhe agradam – e ele cita meu nome, de forma nada lisonjeira. Gushiken se imagina vítima de uma conspiração contra a sua honra. E age preventivamente.
Minha viagem à Europa, de fato, foi produtiva. Acompanhei o andamento das investigações que se desenrolam na Procuradoria de Milão sobre uma quadrilha formada por vários espiões ligados à Telecom Italia, com ramificações no Brasil.
Mais de 20 pessoas já foram presas por lá. E essa quadrilha italiana, batizada de “tiger team”, atuou intensamente no Brasil durante os anos de 2004 e 2005. A partir da confissão de um dos espiões, Marco Bernardini, os procuradores descobriram que a quadrilha fez pagamentos ilegais a políticos, a policiais e até mesmo a jornalistas brasileiros. Coisa de US$ 2 milhões. É isso que relato num artigo publicado nesta semana na Istoé.
O dinheiro passava pela empresa Business Security Agency, com conta no Barclay´s Bank. Isso, no contexto da disputa pelo comando da Brasil Telecom, um litígio empresarial que sempre despertou grande interesse do ministro Luiz Gushiken e envolve as empresas Telecom Italia, Opportunity e Citibank, além dos fundos de pensão.
O ex-ministro, que no governo respondeu pelas tortuosas áreas de publicidade oficial e de fundos de pensão, pediu a Lacerda que investigue os jornalistas “subornados” pelo empresário Daniel Dantas, do Opportunity, sem que jamais tenha exibido qualquer evidência ou mesmo indício de “suborno”. Mas Gushiken enxerga um ardil. E dessa trama sinistra nasceriam ataques à honra do ex-ministro.
Gushiken, hoje fora do governo, solicitou essa investigação preventiva quando ainda estava no Núcleo de Assuntos Estratégicos, um órgão que faz parte da estrutura da Presidência da República. Ou seja: ele pediu a ação do braço armado do governo contra um jornalista quando ainda estava em pleno exercício do poder. E o fez, coincidentemente, uma semana após as primeiras prisões na Itália. Tão grave quanto o pedido esdrúxulo é o fato de Paulo Lacerda acatá-lo. Ao que parece, já está em andamento uma investigação sobre os jornalistas que incomodam Gushiken.
O ex-ministro fala em suborno. Cita jornalistas e as revistas Veja e Carta Capital. Confunde fatos e inverte os papéis de vítima e agressor.
É ele quem deve explicações à Justiça. É ele quem foi um dos 40 denunciados no processo do mensalão pelo procurador-geral da República. Segundo Henrique Pizzolato, ex-diretor de marketing do Banco do Brasil, algumas contratações milionárias das agências publicitárias de Marcos Valério aconteceram por ordem direta de Gushiken. E houve ainda o caso das misteriosas cartilhas.
Mas não foi Gushiken a pessoa acossada pela Polícia Federal petista nesses últimos anos. Fui eu. Em 2004, no calor da Operação Chacal contra as empresas Kroll e Opportunity, ousei dizer que não se tratava de uma mera ação policial. Escrevi que estávamos diante de um takeover empresarial com participação ativa e pesada do governo brasileiro – e isso, os fatos confirmaram. Além do mais, as notícias que vêm da Itália revelam farta distribuição de dinheiro sujo.
É espantoso que um ministro de Estado – afinal foi nessa condição que Gushiken escreveu ao diretor da PF – tenha a ousadia fazer uma denunciação caluniosa para intimidar jornalistas. Para desgosto de alguns, não vivemos na China comunista nem na Cuba castrista.
Mas afinal de contas: de que Gushiken tem medo? Por que procura já a Polícia Federal e não a Justiça, quando vier – e se vier – a ser difamado? Aliás, difamá-lo jamais foi meu propósito.
Que intenção eu teria de ofender uma pessoa tão enredada em investigações? Nenhuma. É claro que gostaria de contribuir para que os fatos relativos ao “caso Brasil Telecom” e todos os subornos – exatamente todos – sejam esclarecidos. E gostaria até de debater esse tema, publicamente, com Gushiken.
É triste ver alguém tão bem sucedido na luta pelo poder, com tanta experiência na vida pública, querer criminalizar um profissional. Isso não é tolerável no Brasil contemporâneo. E é também ineficaz. Há vários outros jornalistas, corretos e ainda mais competentes, em busca da verdade. Talvez já estejam até em Milão.
Leonardo Attuch Leonardo Attuch é jornalista e autor do livro A CPI que abalou o Brasil
Revista Consultor Jurídico, 28 de janeiro de 2007
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Os depoimentos de Gushiken durante as CPIs fora...
Perfeito o comentário que transcrevo abaixo e q...
Apenas uma pergunta: Estaria o Sr. Luis Gush...
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