Entrevistas
21 janeiro 2007
Bloco em pedaços
Entrevista: professor João Grandino Rodas
A língua falada entre os presidentes dos países que integram o Mercosul, de fato, não é a mesma. O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, defende a diversidade para que haja unidade no bloco. A Venezuela, recém-chegada ao cone sul, aposta no fortalecimento do finado socialismo para fortalecer o Mercosul. Já a Bolívia, aspirante a integrante do bloco, bate o pé na defesa de seus interesses particulares como pressuposto da integração continental. Enquanto isso o Uruguai ameaça bater em retirada e a Argentina acha melhor aguardar mais um pouco.
“O Mercosul está no pior momento de sua caminhada”, conclui o advogado João Grandino Rodas, um dos mais conceituados especialista em Direito Internacional do país. Para Rodas, umas das explicações é a diversidade política e econômica dos países. Apesar da crise do momento, e a exemplo do que diz o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, Rodas reconhece que não há chances de o Mercosul ir a pique. “O cenário internacional é de países se unindo em organismos regionais e econômicos. Não seremos nós a exceção,” diz o professor desprezando a capacidade latino-americana de surpreender.
João Grandino Rodas tem conhecimento de causa para fazer sua aposta. Depois de passar pelo comando jurídico do Itamaraty, nos governos de Itamar Franco e Fernando Henrique, ocupa agora o posto de juiz titular do Tribunal Permanente de Revisão do Mercosul. Fica na função até 2008. O Tribunal inaugura suas atividades em 1º de fevereiro próximo com uma questão primordial. Irá responder se leis internas dos países-membros têm prevalência sobre os tratados internacionais. A questão irá a julgamento no Paraguai, que acaba de assumir a Presidência do bloco.
A discussão sobre a hierarquia entre tratados e leis também foi aberta no Supremo Tribunal Federal, pelo ministro Gilmar Mendes. Ao analisar a prisão de devedor em alienação fiduciária, o ministro questionou a possibilidade de prisão para o depositário infiel, prevista na Constituição brasileira mas não prevista no Pacto de San José da Costa Ria, do qual o Brasil é signatário.
Em entrevista à Consultor Jurídico, João Grandino Rodas também falou do sistema de concorrência, no qual esteve bastante envolvido durante sua presidência no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), de 2000 a 2004. No comando do Conselho, foi o único a votar a favor da compra da Garoto pela Nestlé. Derrotado, teve de ver desfeita, depois de dois anos, a compra fechada em R$ 570 milhões. Hoje, ainda aposta na boa concorrência presente no Brasil e em mudanças para melhorar o sistema e facilitar a vida do mercado.
A terceira parte da entrevista é dedicada à questão do ensino jurídico. Em junho do ano passado, foi nomeado diretor da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, a mais tradicional faculdade do país. Na direção da escola, pretende reformular a grade curricular e reduzir o número de alunos por sala de aula. Para ele, aluno tem de sair da faculdade com conhecimento suficiente para passar no Exame de Ordem, que exige o mínimo dos bacharéis. Ou, pelo menos, tem de sair da escola sabendo estudar. Nada de curso preparatório, diz ele. Sobre o aumento exorbitante do número de faculdades de Direito no país — já são mais de mil — Rodas acredita que o próprio mercado vai selecionar os melhores.
Participaram da entrevista os jornalistas Lilian Matsuura e Rodrigo Haidar.
Leia a entrevista
ConJur — O Mercosul tem futuro?
João Grandino Rodas — O Mercosul está no pior momento de sua caminhada. Há divergências entre os países que fazem parte do bloco e outros países com políticas diferentes querendo entrar. É realmente um momento difícil. Mas, dificilmente os países do cone sul poderão voltar, por si só, a ser o que eram antes do Mercosul. Como dizem: ruim com o Mercosul, pior sem ele. O cenário internacional é de países se unindo em organismos regionais e econômicos. Não seremos nós a exceção. Por isso, é impossível que o Mercosul acabe. Mas é preciso prestar atenção na confiabilidade dos países que vão entrar para o bloco, porque isso também vai marcar a confiabilidade do Mercosul.
ConJur — Há chances de o Mercosul funcionar como a União Européia?
João Grandino Rodas — A comparação entre os dois blocos é inevitável, mas é preciso lembrar que os dois tiveram uma gênese muito diferente. A Europa se uniu depois de tantas guerras, de muitos desentendimentos. Foi a alternativa encontrada pelos países para resolver o caos no continente. Já, nas Américas, nunca houve guerras como na Europa. Embora ibéricas, as colonizações foram diferentes, com maneiras de pensar diversas. O principal é que, apesar de todas as misérias da América Latina, nunca houve uma necessidade absoluta de união. Outro fator que pesa para o Mercosul é a diferença de poder econômico entre os países: o Brasil representa 70% da economia do bloco; a Argentina, 20%; Paraguai e Uruguai, 5% cada um. Se o poder de voto fosse ponderado, o Brasil poderia resolver tudo sozinho. Mas o voto de cada um vale um. Esse é um dos problemas do Mercosul: a diversidade econômica de seus parceiros. É por isso que não existem órgãos poderosos no Mercosul. Se existissem, sem levar em conta o valor econômico de cada um, teríamos países pequenos decidindo questões internas do Brasil. Outro problema é a tendência de resolver os conflitos politicamente, quando a saída jurídica é sempre melhor. Quando a perda é política, é perda. Quando a perda é jurídica, é diferença de interpretação — dói menos.
Aline Pinheiro é repórter da revista Consultor Jurídico.
Revista Consultor Jurídico, 21 de janeiro de 2007
Comentários
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Agradecendo muito aos comentários, tomo a lib...
IMPOSSIVEL não concordar com o d.d Richard Smit...
As observações e críticas do Richard Smith são ...
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