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22 setembro 2006
Apatia da sociedade
Luta de bandidos sobre caos penitenciário deve ser nossa
Passada a perplexidade — mas nunca a indignação — de termos tido jornalistas seqüestrados para, por meio desse gesto, pôr mais lenha nessa fogueira, ora de violência, ora de vaidade, ora de responsabilidades formais e por vezes de total irresponsabilidade, fica como resíduo disso tudo parar e procurar entender o quanto de nós há nas entidades criminosas e o quanto elas herdaram de nós, sociedade civil supostamente organizada.
Mais do que surpreendente, a ousada estratégia de garantir diante de nós alguma atenção demonstrou para todos — e isso me parece que resta como sendo o mais absolutamente indiscutível — que eles, os criminosos, também estão indignados conosco tanto quanto estamos supostamente indignados com eles. Ocorre que a nossa indignçaõa é quieta, inerte, transitória. Já a deles é ousada, inquietante e diz a que veio.
Criamos leis de todas as formas e conteúdos, para todos os assuntos, e nelas encaixotamos todas as nossas mazelas numa tentativa inútil — e por que não dizer perversa — de, ao fazê-lo, estarmos criando um Estado de Direito, como se Estado de Direito fosse estruturado tão-somente com a criação dessas normas criadas em abstrato para dirimir as nossas vidas, a minha, a sua e a deles. Sim, porque criminosos também têm vidas e estão, queiramos ou não, subordinados (ou deveriam estar) às leis que criamos para todos, indistintamente, ao menos em tese.
Levamos um soco na cara quando eles denunciaram, mais uma vez e aproveitando a ocasião de estarem em rede nacional, a corrupção dentro dos organismos prisionais e tivemos de engolir em seco que eles também não gostam dessa falsa moralidade. Eis o ponto em comum entre nós. Fingimos que criamos mecanismos de defesa e punição, enquanto os encarceramos, feliz ou infelizmente, sob à tutela não do Estado, mas de gente que se vale dele para ser mais um corpo criminoso diante de todos e pagos por nós para nos servir, dando a eles, aos nossos inimigos sociais, formas e mecanismos de se oporem às nossas tentativas de controle e punição.
Não, não foi novidade o que se viu. Novidade é o bandido querer pôr fim à ditadura prisional, inclusive expondo a corrupção que tanto os beneficia e falar em rede nacional sobre a Lei de Execuções Penais, o direito ao trabalho e outras questões que nós deveríamos lutar para executar já que as criamos, ao invés de nos encarcerarmos num luto abusivamente conformista e estranhamente menos ousado que a luta que travam conosco diariamente.
Sabe de uma coisa? Aprendemos nesse episódio que, enquanto nos lamuriamos de falta de força e excesso de descrédito, eles exacerbam força e poder. Infelizmente.
Enquanto não tivermos a competência mínima de pôr em prática aquilo que nos propusemos em realizar, aprenderemos com a sociedade bandida organizada. E isso, sim, é um luto sem precedentes porque a luta, ah, a luta parece ser somente deles.
Cláudia Dornelles é advogada no Rio de Janeiro.
Revista Consultor Jurídico, 22 de setembro de 2006
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Comentários
Comentários de leitores: 1 comentário
Ja se faz por comprovado na sociedade brasileir...
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