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9 setembro 2006
Despertar do cidadão
Onde está a consciência do povo sobre o que ocorre no país?
O dicionário nos diz que consciência é a faculdade de estabelecer julgamentos morais dos atos realizados. No universo social, é a noção ou idéia sobre certos acontecimentos importantes à vida do povo.
Falemos do óbvio. Estamos no Brasil, país onde se tem assistido ao espetáculo de verdadeiros atentados à consciência moral (faculdade de distinguir o bem do mal) de seus indivíduos, em razão da corrupção desenfreada de governantes.
Mas, apesar de tantas evidências, o que se esboça e prenuncia no horizonte próximo das eleições? Aparentemente, pelas seguidas pesquisas de opinião, o continuísmo daqueles que se têm servido do poder, em prejuízo do povo e visando objetivos particulares, a desserviço da nação.
Então se indaga: que população é esta, que, tapando os olhos e fechando os ouvidos, se nega a reagir, a pensar, a refletir e, discernindo, tomar consciência daquilo que moralmente lhe convém?
Então se questiona: onde está a consciência individual e coletiva sobre tudo quanto tem acontecido neste país? Onde a noção do bem e do mal; mais que isto, de que este não se pode sobrepor àquele, sem ferir princípios ético-morais insuperáveis?
Triste constatar, na quadra de vida nacional presente, da ausência dos indispensáveis julgamentos morais dos “atos dos gerentes-regentes do Brasil”. Ao que se vê, por piores sejam, invariavelmente absolvidos, numa sensação de impunidade inconcebível, a esmagar o senso médio dos homens de bem.
Parafraseando o grande Rui Barbosa, infelizmente, os tempos são chegados; aqueles, do comprometimento do caráter, dos gritantes desvios de conduta e da insensatez da notória falta de vergonha. Tudo, sob o manto protetor de uma sociedade, em grande parte, inda incapaz de discernir, porque despreparada a tanto.
Do que se entrevê, reina a inconsciência coletiva de indivíduos inaptos a verificar o que é bom e mau e fazer escolhas apropriadas à prevalência do que melhor lhes convém e à sociedade brasileira.
Do que se apercebe, o horizonte das coisas honestas — referência duma sociedade melhor — é algo fugaz, condizente a honrosas consciências esclarecidas e a se perder na imensidão da inconsciência quase geral de criaturas escravizadas pela ignorância.
São estes os tempos vividos e por viver, em que tudo, praticamente, pode acontecer, ao largo da triste realidade de um povo retalhado e cativo da falta de senso crítico, a estimular sua manipulação pelos abutres de plantão.
Estes são os tempos, chegados, em que se tem vivido por viver, na aceitação de qualquer coisa, ao atropelo de julgamentos irreais e fictícios, que mais nos farão sofrer, à distância da ética da verdade que nos deveria nortear os destinos.
Existe um ditado popular, antigo, que diz que cada povo tem o governo que merece. Parece-nos ser este o caso, de um povo sofrido e inconsciente que, nutrindo-se do sofrimento, o faz prevalecer e perpetuar, num ciclo vicioso de terríveis proporções.
Mas, como se sabe, a natureza não dá saltos, fazendo-se preciso a ação do tempo para o amadurecimento de consciências que dormem, ao talante de tempos futuros de renovação.
Não nos custa, pois, em que pese tudo isso, renovar a esperança no dia de amanhã, certos de que, em meio à escuridão da inconsciência presente, se fará refletir o clarão luzidio da consciência nascente.
Edison Vicentini Barroso é juiz de Direito
Revista Consultor Jurídico, 9 de setembro de 2006
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