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2 setembro 2006
Pedras no caminho
Jornais discutem enigma do seu futuro em Congresso
A imprensa, que se mete na vida de todo mundo, dedicou três dias desta semana para se olhar no espelho e examinar seus próprios dramas. Representantes dos principais jornais impressos do país foram escalados pelo seu sindicato — a Associação Nacional dos Jornais — para discutir a relação das empresas com seus patrocinadores, leitores, com a justiça e com seu futuro.
No principal painel, os comandantes de cinco dos principais jornais brasileiros — Estadão, Folha, Zero Hora, Correio Braziliense e Estado de Minas — com a mediação do antropólogo Roberto DaMatta tentaram responder à proposição do debate: “Para onde vai o Brasil? Qual é o papel dos jornais nessa trajetória”. O palco foi o 6º Congresso Brasileiro de Jornais, em São Paulo.
Otavio Frias Filho, da Folha, começou por destacar as proezas do Brasil que vive o mais consistente período democrático de sua história e que, finalmente, conseguiu estabilizar sua moeda — mas que enfrenta problemas gigantescos no campo da igualdade: “Somos um dos países mais desiguais do mundo e não há indícios de que vá melhorar”. Citando os índices de crescimento dos últimos governos, Otavio concluiu que o mérito do jornais, nesse quadro “é o de sobreviver”.
Sandro Vaia, do Estadão, elegeu a degradação moral como o grande drama do país — moléstia que antecede todas as demais de ordem prática, no campo político e econômico. A tentativa de justificar crimes de estado em nome de circunstâncias injustificáveis irritam o diretor do jornal: “Nas últimas semanas ouviram-se e debateram-se incríveis conceitos, expressos publicamente por membros de uma suposta elite intelectual, tentando relativizar alguns princípios sobre os quais não deveria caber nenhum tipo de discussão”. E condenou o que batizou de 'wagnertização' ou a 'paulobettização' da ética (Leia a palestra completa de Sandro ao final deste texto).
Liberdade sim, igualdade não.
O cientista social DaMatta explorou o desconforto de quem tem de fazer a ponte entre as “duas comunidades” — a virtual e a real — que coabitam o país; e a complexidade de unificá-las em uma só. “Queremos ao mesmo tempo um Brasil igualitário, mas queremos também manter os privilégios de elite”, afirmou, para arrematar que “a liberdade sempre interessou à elite, mas a igualdade não”. Mais adiante, contudo, o próprio concedeu que “a igualdade é um mito”.
Aliviando um pouco o cientificismo da análise, o sociólogo fez um paralelo da situação do jornalismo com o filme americano “O homem que matou o facínora”, onde o principal protagonista, em momento de megalomania afirma ser “a consciência de Deus”. O jornalista, disse, “como todo bom jornalista, vive embriagado”, esclarecendo: “embriagado com a liberdade, com a notícia, com o prazer da revelação”.
O diretor dos jornais Correio Braziliense e O Estado de Minas, Josemar Gimenez analisou o abismo da “assimetria informacional”, obstáculo para a imprensa e para a democracia, que é a má distribuição da informação. Esse drama, que Hélio Jaguaribe tangenciou ao cunhar a expressão “contemporaneidade dos coetâneos, é o que impede a imprensa de falar, ao mesmo tempo, com quem vive na idade da pedra e com quem vive na era do silício. “O papel crucial dos jornais, na democracia, é reduzir essa assimetria”, disse o jornalista.
Exibindo o resultado de pesquisa feita em Brasília, Josemar revelou que 72% do universo consultado acha “muito importante” o papel da imprensa para o futuro do país. Outros 17% acham “mais ou menos importante”. Um contingente de 70% acredita que a imprensa ajuda no combate à corrupção.
Outros números, úteis para análise do quadro, foram trazidos pelo diretor da Zero Hora, Marcelo Rech. Segundo ele, enquanto no Japão, a relação entre a tiragem de jornais e a população é de 633 exemplares por mil habitantes. No Brasil é de apenas 45,3 jornais por mil habitantes.
Na visão de Rech, a chave para abrir, simultaneamente, as portas do futuro da sociedade e do mercado para a imprensa está no aumento da circulação dos jornais. Para isso, diz, é preciso reorientar a agenda editorial dos veículos de comunicação. Na expressão adjetiva do diretor, a imprensa noticia muito crimes, mas oferece pouca informação na área da segurança — no campo do diagnóstico e de mecanismos operacionais, práticos, para sua preservação. “Não temos comentaristas de segurança em nossas páginas”, reclamou. No mesmo caminho, Rech propõe que se dê mais espaço para o acompanhamento e análise das denúncias; mais contexto para os desvios e menos espaço para os desvios em si; mais espaço para valores do que para anti-valores. Em linhas gerais, defendeu a despolitização de acusações quando o combustível das denúncias como objeto de interesses específicos.
Márcio Chaer é diretor da revista Consultor Jurídico
Revista Consultor Jurídico, 2 de setembro de 2006
Comentários
Comentários de leitores: 7 comentários
A midia deve ficar alerta por conta de um possi...
Muito bem colocada a questão pelo Otavio Frias....
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