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4 novembro 2006
Triste do anel
Vamos deixar cada profissão para quem de fato é capacitado
“Tirei o meu anel de doutor para não dar o que falar.” Bons tempos estes em que um anel de formatura era um grande símbolo de status e respeitabilidade. Hoje, não só o anel saiu de moda como também o orgulho de se ter um curso superior.
Nosso escritório recebe um volume considerável de currículos de bacharéis, a maioria se propondo a funções não ligadas diretamente ao Direito, por não terem conseguido passar no Exame da OAB. Da mesma maneira, os que já garantiram suas inscrições na entidade aceitam trabalhar independentemente do salário que venham a receber. Esses jovens — e alguns nem tão jovens assim — perseguiram o sonho de um dia terem uma carreira que já foi idealizada por várias gerações. Temos uma profissão que era o desejo de todos os pais, que orgulhosos afirmavam: “Meu filho vai ser engenheiro, médico ou advogado. Quero o melhor para ele”. A atual realidade, porém, mostra-nos como eles estavam enganados.
O mercado de trabalho jurídico está saturado. A concorrência está cada vez mais predatória. De um lado, profissionais seniores vêm abandonando as grandes bancas em busca de oportunidades nos pequenos e médios escritórios. De outro, há uma leva de advogados que saem para mudar de área, abrir seu próprio negócio, e tornam-se vendedores, taxistas e etc.. Não se encontra mais espaço na profissão e, além disso, o leilão de honorários já é uma prática corrente. Nossas qualidades e respeitabilidade são, freqüentemente, postas em cheque.
As faculdades de Direito jogam no mercado, todos os anos, uma média de 60 mil recém-formados. Faculdades que, em sua grande maioria, fingem que ensinam e os alunos fingem que aprendem. Basta ver os resultados dos exames de admissão na OAB dos últimos anos. Uma única agência de seleção e recrutamento de profissionais chega a entrevistar, semanalmente, 140 pessoas para a área jurídica. O que fazer diante desta realidade?
A meu ver, a solução mais óbvia é de se pensar, em primeiro lugar, na aptidão profissional, em um teste vocacional. Em seguida, fazer uma análise aprofundada da qualidade da instituição de ensino que se pretende cursar, e não optar pela mais fácil de se entrar. Em terceiro lugar, verificar se a sua formação básica lhe permitirá concorrer em igualdade com os demais e, por fim, certificar-se de que terá paciência o suficiente para enfrentar a morosidade da nossa Justiça, a qual leva muitos clientes a pensarem que somos incompetentes em razão do tempo despendido para se resolver até a mais prosaica questão.
Há de se pensar e repensar o futuro dessa nova geração que pretende ingressar na área. Atualmente, temos setores da economia muito promissores e rentáveis. Vamos deixar algumas profissões para os realmente capacitados, pois o país está carente de bons técnicos. Vamos valorizar profissões que ainda não tem a sua devida importância reconhecida. Assim, quem sabe, brevemente voltemos a ter — para a alegria dos joalheiros — a necessidade da criação de vários modelos de anéis, que identificarão essas novas funções.
Sylvia Romano é advogada trabalhista e sócia da Sylvia Romano Advocacia, em São Paulo.
Revista Consultor Jurídico, 4 de novembro de 2006
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