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13 março 2006
Libertação feminina
Só haverá igualdade se acabar tripla jornada da mulher
Em 8 de março, comemora-se o Dia Internacional da Mulher. São tantos os eventos, palestras, homenagens e reivindicações que, nos últimos anos, o dia passou a ser semana. Diante disso, é pertinente falarmos da mulher também hoje.
Com os avanços já conquistados e com o arrefecimento do movimento feminista, muitas pessoas perguntam qual o espaço que falta às mulheres conquistar. Está claro que, embora várias medidas tenham sido tomadas para promover a cidadania feminina, inclusive com importantes e definitivas alterações legais, a verdadeira igualdade ainda parece distante.
Se, por um lado, as mulheres assumiram funções importantes na esfera profissional e alcançaram posições sociais de respeito, por outro lado, na vida familiar, quase tudo continua como antes. As tarefas domésticas ainda recaem exclusivamente sobre as costas da esposa-mãe que, além de trabalhar fora para pagar as despesas da casa, tem de arcar com a responsabilidade de cuidar dos filhos, preparar a comida, lavar, passar, limpar.
Interessante observar que a disposição para a luta e a coragem de enfrentar os obstáculos que guiaram as revolucionárias desde o começo do século passado parecem não existir quando o embate tem de ser travado em casa. Sim, porque muitos poucos serão os homens dispostos a dividir o serviço doméstico e a atenção com os filhos espontaneamente. A grande maioria precisará ser instada a isso e de maneira enérgica.
Enquanto não houver igualdade de direitos e deveres no âmbito familiar, as mulheres continuarão sendo exploradas e oprimidas. Terão chances menores na competição profissional pelo simples fato de que não poderão dispor do mesmo tempo para o trabalho fora do lar que seu concorrente homem. A dupla ou tripla jornada de trabalho da mulher precisa acabar para que a igualdade de gênero se instale sem distorções.
Outro passo que precisa ser dado é no sentido da libertação dos padrões de beleza inalcançáveis que vêm sendo impostos como valor primordial para que as mulheres sejam aceitas e respeitadas.
É importante lembrar que a sociedade patriarcal estabeleceu que as mulheres não têm nenhum outro valor que não seja a beleza. Precisam ser bonitas e nada mais para agradar aos homens e gerar seus filhos. Depois dos filhos, o corpo se modifica, a idade chega, a rotina do casamento deixa as mulheres desanimadas e tristes. Feias. Por essa razão, a partir da meia-idade, as mulheres perdem poder e respeitabilidade. Além disso, a repressão patriarcal envelhece as mulheres antes do tempo.
Desde que o mundo ocidental mudou e a cidadania feminina passou a ser reconhecida, seria razoável supor que a beleza iria adquirir uma posição secundária na escala de prioridades. Não foi o que aconteceu.
Há quem interprete a supervalorização da estética corporal como uma reação patriarcal à emancipação feminina. A americana Susan Faludi escreveu um livro — Backlash — defendendo essa tese. De outra parte, há quem credite o fato à indústria da beleza, que fatura milhões com a paranóia de perfeição e juventude.
Seja qual for a causa, a verdade é que urge fazer alguma coisa para colocar a beleza no seu devido lugar. Caso contrário, as mulheres continuarão enfraquecidas, porque magras demais, ou doentes, porque anoréxicas, preocupadas com dietas e plásticas. É evidente que essa situação é obstáculo à emancipação. Se só o que conta são seios e nádegas, a sexualidade está prejudicada, pois não depende de peitos grandes nem de traseiros proeminentes. Acresce que ninguém consegue continuar jovem quando a idade chega. As exigências de beleza são uma forma de agressão física e psicológica bastante grave.
Algumas manifestações sutis de violência podem ser mais devastadoras do que os ataques físicos diretos. Combatê-las é o que nos falta para que se complete o processo de libertação feminina.
Luiza Nagib Eluf é procuradora de Justiça do Ministério Público de São Paulo, autora de vários livros, dentre os quais “A paixão no banco dos réus” e “Matar ou morrer — o caso Euclides da Cunha”, ambos da editora Saraiva. Foi Secretária Nacional dos Direitos da Cidadania do Ministério da Justiça no governo FHC.
Revista Consultor Jurídico, 13 de março de 2006
Comentários
Comentários de leitores: 3 comentários
Interessante o artigo da procuradora Luiza, mas...
O texto é realmente de extrema relevância. Esqu...
Dra. Luiza N. Eluf, Está de parabéns pelo ar...
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