Notícias
28 maio 2006
Desconstrução policial
Entrevista: Luiza Nagib Eluf
“A elite no Brasil quer a Polícia corrupta porque não quer cumprir as leis.” A afirmação é da procuradora de Justiça em São Paulo Luiza Nagib Eluf. Para ela, a desconstrução da Polícia pelo Estado é, em grande parte, responsável pelos atos de violência assistidos na capital paulista há quase duas semanas.
Para a procuradora, a reestruturação da Polícia — e das demais instituições — passa necessariamente pelo investimento em material humano. “Isso pressupõe um salário melhor. Eu realmente acredito que quem ganha um pouco mais é menos suscetível à corrupção. Isso vale para o agente penitenciário, para o diretor do presídio, para os policiais que estão na rua se arriscando”, afirmou nesta entrevista à revista Consultor Jurídico.
Luiza Nagib Eluf é reconhecida como uma das principais militantes na defesa dos direitos da mulher. Sua principal missão, durante boa parte da carreira, foi lutar por condições de igualdade entre homens e mulheres. Parte da missão foi cumprida. Se hoje a mulher avançou na vida profissional e está numa situação muito mais confortável que há algum tempo, Luiza tem grande participação nisso.
Membro da Procuradoria Criminal do MP paulista, Luiza tem também uma história de atuação no combate à criminalidade e na construção de políticas públicas para a segurança. Trabalhou na Secretaria de Segurança Pública nos governos paulistas de Franco Montoro (1983 a 1987), de Orestes Quércia (1987 a 1991) e de Luiz Antonio Fleury Filho (1991 a 1995). Foi também integrante da Secretaria Nacional dos Direitos da Cidadania do Ministério da Justiça no governo Fernando Henrique.
É do alto dessa experiência que a procuradora afirma: “não é abrindo presídio que vamos resolver o problema da superpopulação carcerária”. Para ela, a solução para a superpopulação carcerária está na privatização do sistema prisional.
Participaram da entrevista também os jornalistas Adriana Aguiar, Márcio Chaer, Maurício Cardoso e Rodrigo Haidar.
Leia a entrevista
ConJur — São Paulo deveria receber mais dinheiro do governo federal para cuidar do sistema prisional?
Luiza Nagib Eluf — Acho que sim. Temos uma população carcerária muito maior do que a de qualquer outro estado. É uma imensidão de gastos e investimentos para acomodar a população carcerária. Quando estamos em Brasília, vemos que os números de São Paulo — ou simplesmente da capital paulista — são astronomicamente maiores do que o restante do país. O governo acha que São Paulo anda sozinho, mas é uma visão equivocada. O dinheiro que temos aqui, em boa parte, é remetido ao governo federal na forma de impostos. Depois, esse dinheiro é redistribuído para os demais estados.
ConJur — Qual foi a última vez que a senhora foi a um presídio?
Luiza Nagib Eluf — Faz um mês, mais ou menos. Fui para fazer uma audiência e fiquei na sala do diretor.
ConJur — Mas a senhora conhece o interior dos presídios?
Luiza Nagib Eluf — Conheço e posso dizer que é o pior dos mundos. E mesmo que se tratasse de um hotel cinco estrelas, só o fato de você não poder sair dali já torna o ambiente horrível.
ConJur — A pena é a privação de liberdade. Mas parte da sociedade defende que o preso sofra outras privações...
Luiza Nagib Eluf — Acho um absurdo não querer que o preso tome sol, com o argumento de que o trabalhador raramente tem tempo para isso, por exemplo. Pode até ser, mas o trabalhador é livre. O preso não tem nada. É muito melhor que ele tome sol, do que faça uma rebelião. É claro que tem de existir uma limitação, mas sou a favor de que a gente dê o máximo de conforto possível. Qual o problema de o preso pedir, por exemplo, um hambúrguer de picanha? Não é o Estado quem vai pagar. É a visita quem vai levar para ele. É muito melhor para o equilíbrio das forças e para a sociedade brasileira que o preso tenha conforto.
ConJur — Preso tem de ter direito a visita íntima?
Luiza Nagib Eluf — Claro. Se você fizer esse tipo de restrição, o sujeito vai ficar louco. Nós não precisamos enlouquecer os detentos, porque quando eles saírem vão acreditar que o crime é a única solução. Tenho ouvido tantas críticas e respondo: pelo amor de Deus, o homem está preso. Você sabe o que é isso? Você fica em um cubículo com um monte de gente que você não conhece, de quem você não gosta e que não gosta de você, correndo risco de morte.
ConJur — Para que serve a prisão?
Luiza Nagib Eluf — Teoricamente, serve para desestimular a conduta criminal e preservar a sociedade da presença de pessoas perigosas. Ele deveria sair melhor do que entrou. Mas, para que isso aconteça, temos de ter presídios com menos gente, educação e, principalmente, trabalho de acompanhamento depois da liberdade, porque na maioria das vezes ele sai da prisão completamente abandonado. Por isso, há grandes chances de tornar a delinqüir.
Priscyla Costa é repórter da revista Consultor Jurídico
Revista Consultor Jurídico, 28 de maio de 2006
Comentários
Comentários de leitores: 29 comentários
À Luiza Nagib Eluf Em carta enviada ao...
O jornal "Washington Post" publicou no dia 8 d...
Na maioria dos comentários houve uma genereliza...
Ver todos comentários
A seção de comentários deste texto foi encerrada em 05/06/2006.