Entrevista: Eduardo Felipe Matias
A nacionalização dos produtos petrolíferos pela Bolívia levantou uma questão real do mundo globalizado: a soberania dos Estados está cada vez mais limitada. Evo Morales exerceu com plenitude seus poderes nacionais ao romper um contrato e frustrar expectativas de investidores estrangeiros. Seu gesto, aparentemente bem sucedido, certamente terá um impacto econômico estrondoso na economia do país. Afinal, a falta de segurança jurídica afasta qualquer investimento estrangeiro.
No mundo globalizado, portanto, os interesses supranacionais são o limite da soberania dos países. “O país não pode se dar ao luxo de não fazer parte do comércio internacional, que é comprovadamente fonte de riqueza”, afirma em entrevista à Consultor Jurídico o advogado Eduardo Felipe Matias, especialista em Direito Internacional. “Participar do comércio global deixou de ser uma opção.”
O poder dos Estados, hoje, é limitado por uma realidade criada por eles e para benefício deles. “O Estado celebra uma série de tratados internacionais que acabam por restringir a sua própria soberania”, diz Matias. Para ele, a arbitragem é a grande arma de proteção de investidores estrangeiros. Com 33 anos e sócio do L.O. Baptista Advogados, Matias já acumula mais de 10 anos como um estudioso e atuante no Direito Internacional. No ano passado, publicou o livro A Humanidade e suas Fronteiras — Do Estado Soberano à Sociedade Global, resultado de sua tese de doutorado e de anos de pesquisa em Paris, onde concluiu seu mestrado, e em Nova York, onde passou um período como visiting scholar na Columbia University.
Matias, nesta entrevista, trata também do fenômeno da integração regional, que ocorre paralelamente à globalização. Nessa questão, o exemplo é a União Européia. “Quando a integração regional chega ao nível que chegou a União Européia, os países que fazem parte da organização têm a sua autonomia muito limitada.” Para Matias, o Mercosul ainda não atingiu seu objetivo de ser um mercado comum por questões políticas. “Cada país defende o seu interesse e não progride na integração.”
O advogado também discorreu sobre o papel da evolução tecnológica no enfraquecimento do Estado. “A internet foge à jurisprudência do Estado”, disse. “Como se proíbe alguém de acessar um servidor nos Estados Unidos, por exemplo?” Para isso, explicou, é fundamental a cooperação entre os países. Participaram também da entrevista os jornalistas Lilian Matsuura e Rodrigo Haidar.
Leia a entrevista
ConJur — Como o Estado soberano se encaixa numa sociedade cada vez mais globalizada?
Eduardo Felipe Matias —O Estado é um ator muito importante na sociedade global porque ele produz o Direito Internacional. E é também um pouco responsável pela globalização e por todos os fenômenos ligados a ela — revolução tecnológica, proliferação de tratados, entre outros. No processo de globalização, o Estado é ativo, e não passivo. No entanto, com a globalização, o Estado tem um papel menos central do que tinha antes dela. Ele celebra uma série de tratados internacionais que acabam por restringir a sua própria soberania. Isso porque quem mais se beneficia com a globalização são as empresas multinacionais.
ConJur — Como as empresas que investem em outros países podem se proteger?
Eduardo Felipe Matias — O investidor estrangeiro procura se proteger por meios de cláusulas de arbitragem. Por exemplo, no caso da Petrobras. Quando me procuraram para falar sobre isso, não sabia quais as formas de proteção que a Petrobras poderia ter, mas a primeira coisa que me veio à cabeça foi a arbitragem.
ConJur — E onde pode ser feita essa arbitragem?
Eduardo Felipe Matias — Existem dois tipos de arbitragem: aquela em que os árbitros são nomeados para decidir aquela questão específica (cada parte nomeia um e os escolhidos nomeiam outro) ou a arbitragem em uma câmara arbitral, por exemplo, a American Arbitration Association, em Nova York.
ConJur — Quais são as vantagens da arbitragem em relação ao Judiciário?
Eduardo Felipe Matias — Existem uma série de vantagens: a resolução do conflito é mais rápida, os árbitros são especializados naquele determinado assunto. Além disso, é um órgão imparcial. No caso da Petrobras, por exemplo, o investidor não fica dependendo do Judiciário da Bolívia, que tende a ser parcial.
ConJur — Em um contrato entre dois países, como Bolívia e Brasil, o que garante que os dois respeitarão a decisão arbitral?
Eduardo Felipe Matias — A decisão do tribunal de arbitragem é um título executivo. O Judiciário executa a decisão, mas não pode mais questionar o mérito.




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Por Aline Pinheiro
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