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30 junho 2006

Advogado não é bandido

Só Estado opressor se interessa pela deterioração da advocacia

Por Antonio Ruiz Filho

A nossa República, que já foi dos bacharéis num tempo em que aquela elite luminar dominava a cena política, hoje ressente-se pela conduta de indivíduos que se valem da condição de advogado para praticar toda sorte de crimes e imoralidades. Embora portando a insígnia de advogado, não o são, absolutamente. Não merecem o honroso título.

Ser bacharel em direito e inscrito nos quadros da Ordem dos Advogados do Brasil não é suficiente. O preenchimento desses dois requisitos da lei de forma alguma os capacita para serem advogados na acepção da palavra, que traduz conteúdo bem mais exigente. Temos de reconhecer: é preciso muito mais. Ética, bom nível intelectual e domínio do conhecimento jurídico são atributos inseparáveis do advogado, entre outras tantas qualidades que dele se pode esperar.

Contribuiu para o atual desgaste da profissão perante a opinião pública a indiscriminada abertura de faculdades de direito, que "despejam" bacharéis despreparados em um mercado de trabalho já saturado. Empresários do ensino transformaram cursos de direito em negócio altamente rentável, relegando a plano inferior o desenvolvimento dos estudantes.

A OAB, por seu turno, negligenciou na admissão de novos advogados, concedendo inscrição para quem não detinha condições de exercício condigno da profissão. A seccional paulista, todavia, vem praticando severa redução de aprovações. Ao mesmo tempo, a sociedade brasileira sofreu sensível empobrecimento ético e cultural, fenômeno, aliás, que colaborou para o decréscimo qualitativo do exercício de todas as profissões.

Esse conjunto de anormalidades gerou a má formação de um certo número, embora limitado, de profissionais da advocacia. É com eles que temos nos defrontado atualmente; pseudo-profissionais portando carteira de advogado e servindo-se dela para condutas nada compatíveis com o seu mister. Devemos repisar enfaticamente que esse não é o verdadeiro advogado, mas apenas alguém que se infiltrou na profissão para servir-se dela como álibi.

A imprensa diuturnamente alardeia essa indigência ética, expondo condutas estranhas à profissão ao escárnio popular. Aqui é preciso dizer que a mídia, por vezes, ao analisar condutas de advogados, também erra muito, ora por absoluto desconhecimento das questões jurídicas, ora por deliberada intenção de criar o sensacionalismo.

Nesse lastimável cenário, a advocacia inteira está sendo arrastada injustamente para uma situação de descrédito, passando a valer como regra o que jamais deixou de ser exceção. Em contraposição a tudo isso, existe um enorme contingente de homens e mulheres honrados, preparados, lutando, dia após dia, para demandar o direito do nosso povo.

Há nesse respeitável grupo, que representa a expressiva maioria dos advogados brasileiros, excelentes profissionais, de todos os matizes. Nenhum deles se verga ao autoritarismo nem compactua com o embuste. Impressiona ver como tantos e tão bons podem existir ainda agora. Atuam em toda parte, dos juizados especiais às cortes superiores, defendendo o que é justo, retirando o Direito dos livros para transformá-lo em uma experiência viva.

Antes de enxovalhar a totalidade da classe composta por profissionais corretos e dedicados, é preciso alertar a sociedade sobre o perigo que representa o enfraquecimento da advocacia para o Estado democrático de Direito. O advogado é quem necessariamente estabelece o elo entre o cidadão e o seu direito. Aquele que seja detentor de algum direito quase sempre necessitará da assistência de um advogado para guiá-lo diante do complexo conjunto de normas que asseguram o convívio social.

Apenas os Estados opressores têm interesse na deterioração da advocacia, porque, sem ela, quem haverá para reclamar direitos e exigir Justiça? Em períodos de ocaso democrático, a advocacia e suas organizações não retrocedem e sempre pontificam a luta por dias melhores, com paz social e garantias fundamentais. Ainda carece temer a retirada ou o desrespeito a suas prerrogativas, que servem ao livre e eficaz exercício da profissão, não a benesses pessoais.

As prerrogativas garantem a efetividade da advocacia, para que cada advogado possa ser útil aos legítimos interesses do cliente. Seria preciso mais espaço para o quanto ainda há de ser dito sobre o tema. Mas, por ora, o essencial é afirmar: advogados não são bandidos; bandidos não são advogados — nunca o serão!

* Artigo originalmente publicado no jornal Folha de S. Paulo.

Antonio Ruiz Filho é advogado criminalista e presidente da Aasp — Associação dos Advogados de São Paulo.

Revista Consultor Jurídico, 30 de junho de 2006

Comentários

Comentários de leitores: 12 comentários

2/07/2006 13:12 Bira (Industrial)
Estado opressor?. Vemos armas e celulares entra...
Estado opressor?. Vemos armas e celulares entrarem nos presidios e o problema é o estado?. Acho que tudo se limita a uma mala.
2/07/2006 10:35 Comentarista (Outros)
Dado estatístico (governamental): A OAB é a ...
Dado estatístico (governamental): A OAB é a entidade de classe que mais pune seus pares, seja em números absolutos ou mesmo proporcionalmente. Perguntar não ofende (1): Será que ainda existe alguma criança tão ingênua a ponto de acreditar que o nível de corrupção existente na advocacia seja maior ou diferente que o nível de corrupção existente entre os juízes, promotores ou delegados? Se alguma criança realmente acredita nisso, certamente também acredita em papai noel, mula sem cabeça, saci pererê, etc. Perguntar não ofende (2): Considerando que o nível de corrupção do judiciário deva ser bem parecido com o nível de corrupção da advocacia e dos demais poderes da república (afinal de contas, os poderes são formados pela mesma matéria-prima, ou seja, brasileiros), alguém sabe dizer qual o número de juízes, promotores e delegados punidos nos últimos 10 anos? Se alguém souber, que diga logo, pois simplesmente não existem dados a esse respeito. Perguntar não ofende (3): Por que a advocacia, via de regra, é uma das profissões mais respeitadas em países de primeiro mundo e, curiosamente, é normalmente tão criticada e atacada em países de terceiro mundo (como a nossa republiqueta das bananas, por exemplo)? Responder não ofende: Os países de primeiro mundo são habitados também por cidadãos de primeiro mundo, normalmente cultos e comprometidos com o respeito às leis e à dignidade humana. Já em republiquetas como a nossa, muitos dos ditos "formadores de opinião" (auto-intitulados "cultos" e intelectuais) apoiaram, por exemplo, a invasão do Carandirú e o respectivo assassinato de 111 presos. Também apoiaram a recente "reação" da polícia paulista aos "ataques" do PCC, que assassinou, em poucos dias, número recorde de pessoas (a maioria com sinais de execução e sem nenhuma passagem pela polícia, muitas das quais com carteira de trabalho assinada, etc). Muitos também não se importam com as nossas tão famosas chacinas, pois acreditam que não passam de "acertos de contas entre criminosos". Também não se envergonham de sermos roteiro turístico sexual de países de primeiro mundo, de sermos campeões em casos de prostituição infantial e tráfico de mulheres e órgãos, de termos a segunda pior distribuição de renda do mundo, de vermos diariamente nossas crianças e velhos abandonados na ruas, etc, etc e tal. Mas o mais engraçado disso tudo é ver essas pessoas, normalmente quando em suas primeiras viagens ao exterior, se sentirem INDIGNADAS pelo tratamento que recebemos lá fora, pelo simples fato de sermos "brasileiros". Descobrem, pela via mais "dolorosa", que o que nos orgulha (sermos chamados de "brasileiros"), lá fora é motivo de discriminação, escárnio e verdadeiro desprezo, por sermos um povo apático, inculto, ignorante e complacente com as próprias mazelas e miséria humana e cultural que reinam no país. Por essas e outras é que, não espantosamente, somos tratados piores que os animais de estimação dos cidadãos do primeiro mundo, sendo desrespeitados até mesmo por nossos irmãos latino-americanos. E ainda tem gente que, embora ache que os advogados são os culpados pelos problemas nacionais, sente orgulho de ser chamado de "brasileiro", acredita que somos o "país do futuro", o "paraíso tropical", etc, etc e tal. Esse é o nosso país! Essa é a nossa gente! Felizmente! E essa é, data vênia, a minha opinião. Um grande abraço a todos!
2/07/2006 00:27 Helena Fausta (Bacharel - Civil)
Vejo pessoas todos os dias sendo enganadas e ex...
Vejo pessoas todos os dias sendo enganadas e extorquidas por seus representantes(advogados), e eles continuam impunes... vejo inventários que poderiam ser concluídos em 5 ou 6 meses se arrastarem por 5 ou 6 anos, vejo advogados receberem bens de seus clientes, não devolverem, ameaçam, e estão impunes, as pessoas mais simples não sabem o que fazer, se sentem humilhadas e notadamente indignadas, como tirar uma conclusão favorável para a classe?

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