Entrevistas
22 janeiro 2006
Farra do Estado
Entrevista: Clóvis Panzarini
A Receita Federal anunciou com fanfarras e fogos de artifício o recorde histórico de arrecadação tributária alcançado em 2005: R$ 364,1 bilhões foi o total de dinheiro que os contribuintes depositaram nos cofres do governo.
Para os especialistas a marca histórica é motivo mais de preocupação do que de orgulho. “O Estado precisa arrecadar muito porque gasta demais”, lamentou em entrevista à Consultor Jurídico o economista e ex-coordenador da Administração Tributária de São Paulo, Clovis Panzarini.
Para o economista também não é motivo de festa a carga tributária de 38% do PIB que faz do Brasil um dos campeões na matéria. “Na realidade, o Estado brasileiro custa apenas 33%”, afirma Panzarini. Os outros 5% a são arrecadados para pagar a farra de gastos do Estado no passado”.
O economista sabe bem do que fala. Durante 35 anos, trabalhou na Fazenda do Estado de São Paulo. Clóvis Panzarini é formado em Economia pela Universidade de São Paulo. Se especializou em Finanças Públicas e Tributação na Japan International Cooperation Agency, em Tókio. No final da década de 80, trabalhou como assessor especial da Comissão de Tributação, Orçamento e Finanças da Assembléia Nacional Constituinte. Hoje, aos 60 anos, é sócio da CP Consultores Associados.
Panzarini foi entrevistado, na sede da ConJur, em São Paulo, pelos jornalistas Adriana Aguiar, Aline Pinheiro e Maurício Cardoso. A entrevista teve ainda a participação especial do jornalista e advogado tributarista Raul Haidar.
Leia a entrevista
ConJur — Brasileiro paga muito imposto?
Clovis Panzarini — A carga tributária no Brasil é uma das mais altas do mundo. Mas o problema não está no tamanho da carga tributária, que é apenas uma conseqüência do tamanho do governo. Eu costumo comparar essa carga tributária com a taxa de condomínio. Não existe taxa de condomínio alta nem baixa. Existem custos a serem honrados altos ou baixos. Se os custos são altos, não adianta reduzir a taxa que, no mês seguinte, terá chamada extra. O mesmo vale para a carga tributária.
ConJur — Quanto do PIB brasileiro representa essa carga tributária?
Clovis Panzarini — Nossa carga tributária é de 38% do PIB. Na realidade, o Estado brasileiro custa 33% do PIB. Os 5% adicionais são a chamada extra, o superávit primário. Na prática, esses 5% representam aquilo que nós temos de contribuir a mais para pagar a farra fiscal do passado, quando os governantes se orgulhavam de gastar mais e arrecadar menos. O déficit de hoje é a dívida de amanhã.
ConJur — O Estado está conseguindo pagar sua dívida arrecadando esses 5% a mais?
Clovis Panzarini — Nós não estamos pagando nem os juros. O país custa 33% do PIB e o governo arrecada 5% a mais para pagar a dívida pública de R$ 1 trilhão. Só que os juros anuais são de 8%. Então, para a dívida parar de crescer, o superávit primário teria de ser de 8% do PIB. Com o superávit de apenas 5%, ficamos devendo 3%. Essa história de superávit primário é um discurso muito bonito, mas é mentiroso. Quando conseguirmos fazer a dívida parar de crescer, a relação dívida e PIB começará a cair, já que o PIB é crescente. Assim, poderemos baixar os juros e, consequentemente, o custo da dívida cairá. A taxa de juros é o chamado tiro no pé. O governo aumenta os juros para segurar a inflação, mas o grande devedor desse país é o próprio governo. Com isso, a carga tributária tem de ser aumentada para pagar essa dívida crescente por causa dos juros altos. No fim, quem paga essa conta sempre é o contribuinte.
ConJur — Qual é o peso da sonegação fiscal na carga tributária?
Clovis Panzarini — Essa é uma pergunta que é respondida de acordo com o humor do entrevistado. Já se falou que a sonegação representa 20%, 30%, 40%, 50% da arrecadação. Na realidade, sonegação é o submundo, não é registrada, e, por isso, cada analista tem a sua taxa. A sonegação também varia de estado para estado, de região para região, de setor para setor. Há setores em que a sonegação é de 70% a 80%. Em outros, é próxima de zero. Por isso, os estados estão concentrando sua massa de arrecadação em setores de mais fácil controle, como comunicação, energia elétrica e combustíveis. Esse três setores hoje respondem por 40% da arrecadação do país. A minha opinião é de que a arrecadação poderia aumentar em até 40% se não houvesse nem sonegação nem inadimplência.
ConJur — A taxa de sonegação de Imposto de Renda é alta?
Clovis Panzarini — Tanto o Fisco federal quanto o estadual estão se instrumentalizando de tal forma que está ficando cada vez mais difícil sonegar. Eu cito um exemplo de que forma o uso da informática está reduzindo a sonegação. Até o ano de 1995, a sonegação de IPVA no estado de São Paulo representava 80% da arrecadação. Isso porque, até 1994, o IPVA era pago da seguinte forma: o contribuinte ia até uma papelaria, comprava um formulário e contratava um despachante para preencher. Era o contribuinte quem dizia quanto devia ao Fisco, qual carro ele tinha. Além disso, ele dava o dinheiro para o despachante que, nem sempre, entregava para o governo. Isso era possível porque a base de dados da Secretaria da Fazenda não conversava com a base de dados do Detran. Hoje, com o cruzamento de dados entre a Fazenda e o Detran, a sonegação é quase igual a zero. Aquele que não paga não consegue licenciar o veículo. Até 1995, a arrecadação de IPVA era de R$ 500 milhões. Hoje, chega a R$ 4 bilhões. Claro que teve um aumento da frota de veículos, mas que representa apenas 30%.
Aline Pinheiro é repórter da revista Consultor Jurídico.
Revista Consultor Jurídico, 22 de janeiro de 2006
Arquivo
Leia também: Textos relacionados
- 13/01/2006 A cada norma editada, Brasil cria nova fronteira fiscal
- 15/12/2005 Ações do fisco desrespeitam direitos do contribuinte
- 12/12/2005 Descontar e não recolher INSS é apropriação indébita?
- 06/10/2005 Governo de São Paulo não vai conceder benefício fiscal
- 05/10/2005 Entidades empresariais cobram devolução do ICMS
- 29/09/2005 Carga tributária atinge 39,34% do PIB no 1º semestre
- 19/09/2005 Empresários respondem ação por alterar notas fiscais
- 02/08/2005 Combate à sonegação só terá êxito com mudança do modelo
- 26/07/2005 Lei oferece benefícios para sonegador que colabora
- 15/06/2005 Reforma tributária surge como anti-herói do contribuinte
- 01/06/2005 Carga tributária do Brasil atinge 41,6% do PIB
- 01/05/2005 Estado está tornando a vida do contribuinte um inferno
Comentários
Comentários de leitores: 3 comentários
Uma retificação em meu comentário anterior: Ond...
Não sei até quando continuaremos sendo uma naçã...
A Revolução Francesa foi uma explosão de indign...
A seção de comentários deste texto foi encerrada em 30/01/2006.