Artigos
14 dezembro 2006
O descontrole do Judiciário
CNJ foi primeiro passo para um Judiciário mais aberto
Passados quase dois anos da instalação do Conselho Nacional de Justiça, o muito esperado órgão de controle externo do Judiciário, cabe uma reflexão a respeito do seu papel, das expectativas geradas e das eventuais frustrações ocorridas a partir do seu funcionamento.
Acontecimentos recentes envolvendo a atuação do CNJ recomendam que se faça essa reflexão para que não se dê precocemente razão aos que eram contra o conselho nem se frustrem os que lutaram mais de 20 anos por sua criação. É bom que se diga, contudo, que dois anos é prazo muito curto para que se possa fazer uma avaliação definitiva sobre a atuação de um órgão com atribuições tão importantes e complexas.
Muitos avanços ocorreram nos últimos anos em relação à forma pela qual as questões relativas ao Judiciário passaram a ser debatidas no país.
A verdade é que tínhamos uma instituição pública hermética, fechada e refratária a expor suas mazelas e dificuldades publicamente. A criação do CNJ, como órgão que compõe a estrutura do Poder Judiciário, representou o primeiro passo -como dizia o ministro Márcio Thomaz Bastos a respeito da reforma- na perspectiva de construção de um Judiciário mais aberto e democrático.
Devemos reconhecer que foi isso o que efetivamente ocorreu. Muito mais se sabe sobre o Judiciário, há dados e estatísticas que permitem estabelecer políticas e avaliações mais objetivas. Eis o grande avanço que representou a criação do CNJ, e era exatamente esse o papel que esperávamos que ele cumprisse a princípio.
Não foi o CNJ que inventou o nepotismo no Judiciário, viabilizando a contratação de parentes próximos dos juízes para exercer cargos de confiança. Também não foi o conselho que concedeu reajustes aos magistrados, atribuindo-lhes rendimentos acima do limite legal (teto). Para ficar nesses dois exemplos, foi a partir da atuação do CNJ que tanto o nepotismo como a ocorrência de remunerações ilegais no Judiciário se tornaram assuntos conhecidos da sociedade e objeto de discussões públicas.
Há quem diga que a atuação do CNJ até o momento já justifica sua criação.
Há outros que dizem que sua atuação demonstra a inutilidade de sua existência. Há ainda outros que, como eu, defendem sua instituição, mas não acreditam que o resultado do trabalho desenvolvido até aqui seja garantia de que ele atingirá os seus objetivos mais nobres ainda distantes.
É inegável a importância de alguns dos temas tratados pelo CNJ, mas é também inegável que, por diversas vezes, o conselho agiu movido por interesses corporativos menores, não condizentes com os desígnios mais nobres para os quais foi criado -o controle social e o planejamento da atividade do Judiciário e dos juízes.
Nesses momentos, coube ao Supremo Tribunal Federal exercer o seu papel de controle e estabelecer o limite de atuação do Conselho Nacional de Justiça. Isso foi o que aconteceu em relação à questão da fixação do limite de remuneração dos juízes e em relação à extinção das férias coletivas dos magistrados, prevista na emenda constitucional da reforma do Judiciário (EC nº 45/04).
A verdade é que a atuação do Supremo tem sido fundamental para o adequado funcionamento do CNJ, o que só demonstra que o modelo institucional estabelecido na Constituição Federal é adequado para o país.
Criou-se o órgão de controle do Judiciário, mas a Constituição o manteve na estrutura do próprio Poder Judiciário e subordinado ao controle do STF. Aliás, é justo reconhecer que o Supremo Tribunal Federal tem sido, no decorrer da história do Brasil, fator de estabilidade institucional, decidindo questões sensíveis que são colocadas sob o seu crivo com serenidade e altivez.
De qualquer forma, espera-se que o Conselho Nacional de Justiça não tenha que ser sempre socorrido pelo STF e se liberte das tentações corporativas que por vezes o tem movido. Não se compreende, por exemplo, que a Corregedoria Geral do Conselho não tenha dado prosseguimento a processo disciplinar contra nenhum juiz do país nesses quase dois anos de funcionamento -as centenas de denúncias a ele encaminhadas foram todas arquivadas sem que houvesse sequer investigação concluída.
Demoramos décadas para ter o órgão que possa dar maior racionalidade ao funcionamento do nosso sistema judicial. Agora, não podemos permitir que as mesmas forças que resistiram à sua criação impeçam que o conselho exerça sua competência constitucional e o país perca o controle do Judiciário.
Artigo publicado na Folha de S. Paulo em 14/12/2006
Sérgio Renault é advogado, subchefe para Assuntos Jurídicos da Casa Civil da Presidência da República, e ex-secretário da Reforma do Judiciário do Ministério da Justiça.
Revista Consultor Jurídico, 14 de dezembro de 2006
Arquivo
Leia também: Textos relacionados
- 12/12/2006 Supremo começa delinear papel de conselhos nacionais
- 07/12/2006 CNJ perde o rumo e compra briga com a Constituição
- 06/12/2006 Marco Aurélio protesta contra corte de verba do TSE
- 04/12/2006 PGR vai ao Supremo para acabar com férias coletivas
- 04/12/2006 Poderes do CNJ devem ser reduzidos pelo Supremo
- 01/12/2006 Liminar do CNJ causa confusão no TJ de São Paulo
- 30/11/2006 TRF-5 cortou super-salários em abril, defende CJF
- 29/11/2006 Resolução do CNJ deverá regulamentar remoção de juízes
- 27/11/2006 CNJ divulgará servidores que recebem super-salários
- 27/11/2006 CNJ deixará tribunais decidirem sobre aulas de juízes
- 23/11/2006 Depois de permitir férias coletivas, CNJ quer burlar teto
- 21/11/2006 Desembargador do TJ-RO questiona ato de conselheiros
- 15/11/2006 CNJ adota medidas para acelerar trabalho do Judiciário
- 30/10/2006 Resolução do CNJ pretende modificar Constituição
- 15/06/2006 Tentativas de modernização rendem desafetos ao CNJ
- 15/03/2006 Ao permitir resolução anti-nepotismo, STF definiu poderes do CNJ
- 09/03/2006 Supremo arquiva pedido contra a resolução do CNJ
- 16/02/2006 STF julga constiutucional resolução do CNJ
- 12/11/2005 Corregedores-gerais de Justiça querem resistir ao CNJ
- 18/10/2005 Leia a resolução contra o nepotismo aprovada pelo CNJ
- 27/09/2005 CNJ recebeu 144 reclamações em três meses
- 27/09/2005 CNJ baixa norma para acabar com nepotismo no Judiciário
Comentários
Comentários de leitores: 1 comentário
Ilusionismos puro + com jogo de palavras + Thom...
A seção de comentários deste texto foi encerrada em 22/12/2006.