Entrevistas
18 setembro 2005
Saída para a crise
É preciso um pacto de convivência, diz José Eduardo Cardozo
Em entrevista à Consultor Jurídico, o deputado José Eduardo Martins Cardozo (PT-SP) afirma que a melhor saída para a crise política é a punição de todos os culpados de transgressões éticas e um pacto de convivência mínima entre todos os partidos. “Se não houver um entendimento para uma eventual eleição de um novo presidente da Câmara, o resultado será um novo desastre”, diz.
Mesmo sem disfarçar a imensa frustração com a débâcle do seu próprio partido, Cardozo acredita que soluções permanentes para a crise dependem de uma ampla reforma política na qual esteja contemplada a valorização dos partidos. Para isso, ele acha imprescindível a exigência da fidelidade partidária e de um sistema eleitoral menos volátil. Embora considere difícil, diz que o ideal seria a adoção do voto distrital misto.
Cardozo é um caso raro de petista que tem passado pelas CPIs que assolam o país sem fazer feio. Primeiro porque ele está na banca de investigadores e não de investigados. Sem manchas em sua reputação ética, Cardozo é o sub-relator de contratos da CPMI dos Correios, que investiga o mensalão e outras supostas falcatruas de seus companheiros de partido. Em segundo lugar, porque, com sua atuação isenta e seus conhecimentos de advogado, ele tem contribuído muito para que a CPI avance.
Esta postura, da qual ele poderia se orgulhar, só lhe rende problemas dentro de seu próprio partido. A maior resistência a que ele seja o candidato de consenso numa cada vez mais provável substituição de Severino Cavalcanti (PP-PE) parte justamente dos setores do PT mais comprometidos com o mensalão. A rejeição é recíproca: Cardozo não admite concessões para aqueles que, segundo ele, traíram os princípios éticos do partido.
Participaram da entrevista o diretor de redação Márcio Chaer, o editor-executivo Mauricio Cardoso, e os repórteres Leonardo Fuhrmann, Aline Pinheiro e Adriana Aguiar.
Leia a entrevista
ConJur —Tem pizza no forno das CPIs?
José Eduardo Cardozo — Todos os órgãos em geral são corporativos. O Parlamento tem uma dose de corporativismo impressionante. Se a sociedade relaxar, eu acho que não demora muito para sair a pizza. E o forno fica permanentemente quente. Hoje eu acho que ninguém ousa propor um acordo, mas o resultado vai depender muito da energia que a sociedade passar.
ConJur — E se não for pizza, o que vai sair de todo esse processo?
José Eduardo Cardozo — É difícil prever. Uma possibilidade é que haja uma grande desagregação que pode deixar o Legislativo paralisado por um ano e meio. Outra possibilidade é os partidos se conscientizarem da gravidade da situação, aplicarem as punições que têm que ser feitas e buscarem um pacto de convivência mínima. Se os partidos não se conscientizarem de que é hora de buscar consensos para eleger o sucessor do Severino na Presidência da Câmara, essa eleição vai ser um desastre. No entanto, sinto que hoje há um clima de busca de consenso, há um clima de construção de uma identidade: “gente, vamos fazer a casa funcionar”. Não dá para colocar a disputa partidária à frente da instituição nesse momento. Se nós conseguirmos um processo desse tipo, podemos ter um final bom, com a utilização da energia gerada pela crise para promover mudanças.
ConJur — Em nome de fazer a limpeza na política, não está se perdendo uma oportunidade para mudar o sistema?
José Eduardo Cardozo — Pois é. Quando você cinge a discussão a dezoito, vinte deputados, a este ou aquele ministro, se o presidente sabia ou não sabia, você está deixando de potencializar a crise para buscar soluções mais definitivas. As causas disso tudo são muito mais profundas. É questão de tempo para outros escândalos se repetirem em maior ou menor intensidade. Vamos lembrar do Fernando Henrique Cardoso. O governo conseguiu evitar a CPI mas a questão da compra de votos para a reeleição foi evidente naquela época. Se o problema fosse enfrentado, talvez não tivesse acontecido de novo agora. A questão é: ou enfrentamos os problemas do ponto de vista estrutural, sem prejuízo de cortar as cabeças que têm que ser cortadas, ou vamos repetir as crises ciclicamente a cada cinco, dez anos. É inevitável.
ConJur — Na CPI, quando o senhor fala isso, dizem que quer defender o governo.
José Eduardo Cardozo — São duas discussões que correm paralelas: punição dos que erraram e correção dos erros para que esses erros não se repitam futuramente.
ConJur — Como é ser governo em uma CPI?
José Eduardo Cardozo — O que mexe um pouco mais com a gente é o lado emocional. Uma coisa é você estar investigando pessoas com quem você nunca conviveu, e outra é você colocar no banquinho pessoas que estavam ao seu lado e você não desconfiava que faziam certas coisas. É emocionalmente pesado.
Maurício Cardoso é diretor de redação da revista Consultor Jurídico
Revista Consultor Jurídico, 18 de setembro de 2005
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Em relação ao último Comentário o problema não ...
É excesso de ingenuidade crer que o PT tenha ac...
Honestamente , conheço muito pouco...
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