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Resgate de valores

Lembo: A solução dá Justiça está no sistema processual

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ConJur — Por mais que os poderes respeitem seus limites, nós estamos em uma situação em que é preciso adotar medidas para melhorar o funcionamento do Judiciário. O que o estado tem feito nesse sentido?

Cláudio Lembo — Está em curso um projeto de conciliação e mediação na Assembléia Legislativa de São Paulo, apresentado pelo PFL, pelo PT e mais outros partidos. O procedimento está previsto na Constituição Federal e nenhum estado até agora, que eu saiba, tomou providências para permitir que esse meio de solucionar conflitos seja usado. Com a aprovação desse projeto, o Judiciário poderá fazer muito mais. Outra providência tomada em São Paulo é a consolidação das leis do estado. Os poderes Judiciário, Legislativo e Executivo e o Ministério Público estão trabalhando para isso. A última vez que houve uma tentativa dessa foi no governo do João Goulart.

ConJur — O governo Fernando Henrique Cardoso fez um projeto muito interessante de consolidação da legislação federal.

Cláudio Lembo — Mas não terminou porque não houve pressão da sociedade.

ConJur — No governo Lula, foi devidamente engavetado.

Cláudio Lembo — No governo Lula o ministro da Justiça preocupa-se mais com a Polícia Federal em situações específicas do que com uma reestruturação do Poder Judiciário. Quando pensa em reestruturação, já cria uma coisa complexa, como o caso do Conselho Nacional de Justiça. O Poder Judiciário já tinha uma cúpula que era o Supremo e ele poderia ter uma corregedoria.

ConJur — O senhor criticou a importação de modelos. É verdade que na área criminal nós contribuímos para solucionar uma crise espanhola?

Cláudio Lembo — A Espanha teve como Código Penal durante muitos e muitos anos o Código Criminal do Império Brasileiro. Uma vez eu fiz um elogio aos espanhóis porque nos deram as Ordenações Filipinas, que estiveram em vigor no Brasil desde Filipe II até 1919. Eles me retribuíram falando sobre o Código Penal. Mas o que eu critiquei na importação dos modelos é que eles foram buscar o Código de Processo Civil austríaco, alemão e italiano, do fascismo e do nazismo. Os institutos que eles trouxeram não são institutos que têm uma raiz profunda brasileira. A Faculdade de Direito São Francisco é obliterada pela visão européia ou americana, e isso é um erro.

ConJur — O que o senhor acha do quinto constitucional?

Cláudio Lembo — O quinto constitucional tem uma motivação doutrinária, que é o arejamento dos tribunais com a chegada daqueles que militam no fórum como advogados ou no Ministério Público. É preciso que a OAB tenha sempre muito cuidado na escolha das pessoas que integram a lista para que o tribunal e o Poder Executivo se sintam à vontade para fazer a escolha. É uma escalada que passa pela OAB, pelo Poder Judiciário e pelo Poder Executivo. Mesmo assim, as seções estaduais da Ordem devem se preocupar sempre na escolha de bons elementos para o quinto.

ConJur — O processo de escolha dos nomes é adequado?

Cláudio Lembo — Hoje é muito mais adequado do que foi no passado. Antes era uma escolha dos grupos dirigentes da OAB e hoje há uma audiência pública com indagação e exigência intelectual do candidato. Portanto, o quinto já está mais elaborado e sofre censuras da sociedade civil. Ainda assim pode apresentar alguns problemas e isso é o que tem que ser evitado.

ConJur — Problemas como o enfrentado em São Paulo recentemente, em que o TJ ignorou uma das listas apresentadas pela OAB?

Cláudio Lembo — A situação é complexa, já que o Tribunal de Justiça de São Paulo decidiu que uma das listas seria desconsiderada e das outras quatro listas seriam aproveitados os nomes restantes para formar uma nova. Esse não é o procedimento previsto na Constituição do Estado e da República, nem no regimento do Tribunal de Justiça.

ConJur — Na sua opinião, o Tribunal agiu corretamente?

Cláudio Lembo — O Tribunal rompeu padrões de natureza legal, e, por isso, é necessário uma analise do próprio Poder Judiciário sobre a matéria. Agora cabe ao Supremo Tribunal Federal decidir sobre o mérito da questão.

ConJur — A reforma do Judiciário já trouxe algum beneficio?

Cláudio Lembo —Tenho muito medo quando projetos internacionais são aplicados abruptamente. O mundo todo está adotando essa idéia do Conselho Nacional de Justiça, como a Espanha e a Itália. Agora a moda pegou no Brasil e eu fico muito preocupado que se viole a autonomia do Poder Judiciário ou que se use politicamente o Conselho para qualquer sensibilização do Poder Judiciário. Este é o ponto alto da reforma, que por enquanto não tem nada de notável. Por exemplo, o princípio da celeridade processual, existe na Constituição americana desde 1680. A celeridade é mais uma declaração de vontade do que uma realidade efetiva.

 é repórter do jornal DCI.

Revista Consultor Jurídico, 20 de novembro de 2005, 13h01

Comentários de leitores

8 comentários

Prezado Ottoni (Advogado Sócio de Escritório .....

Carlos Alberto Dias da Silva (Advogado Autônomo - Civil)

Prezado Ottoni (Advogado Sócio de Escritório ...), Agradeço ao colega pelo trabalho que se deu em ler e, sobretudo, de comentar a nossa modesta opinião(Do saco, a embira e Desnudando a ...), onde, como cidadão imbuído das melhores das intenções e vontade de contribuir, procuro expor teses e observações que consubstanciam a minha experiência profissional e até mesmo de vida sexagenária a respeito de tema tão relevante. Gostaria ainda de dizer ao caro colega, mais uma vez agradecendo e pedindo vênia pelo que lhe tenha desagradado, que não obstante meu objetivo foi alcançado; qual seja, o de suscitar a polêmica sempre saudável e necessária rumo ao aperfeiçoamento das nossas instituições. Entretanto, a despeito do meu convencimento a favor da “democratização do judiciário”, da “súmula vinculante” e do “controle externo” através do CNJ, tudo em razão daquilo que acredito e procuro demonstrar no texto, jamais deixarei de respeitar a sua opinião, posto que, como já disse Voltair : "Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até à morte o direito de dizê-las." No mais, o colega há de convir, que prevaleça o entendimento e a vontade da maioria em homenagem ao princípio democrático que deve sempre nortear a nossa querida pátria. Ao colega, pois, minhas cordiais e democráticas saudações. Carlos Alberto Dias da Silva, advogado/MG

Carlos Alberto Dias da Silva , OAB/MG nº 29.227...

Ottoni (Advogado Sócio de Escritório)

Carlos Alberto Dias da Silva , OAB/MG nº 29.227. E-mail: caitodias@hotmail.com Tenho lido seu artigo "Desnudando..." em várias "publicações" e sempre vi nele um protesto genérico contra as deficiências da distribuição de Justiça em nossa terra. Agora, colocado como comentário objetivo de alguém que conhece profundamente o problema e que aponta, com precisão e lógica, a razão inconstetável que determina a morosidade processual, a invocação do referido artigo soa impertinente, pois, as considerações ali feitas são genéricas e subjetivas, faltando a referência expressa de nomes e datas que pudessem transformar simples alegações em argumentos materiais para combater, ou abalar as objetivas considerações do prof. Lembo. A revista VEJA entrevistou o mais conceituado dos advogados norte americanos que reprovou a eleição de juízes, classificando-a como o maior defeito de alguns sistemas estaduais de seu país e foco maior de corrupção. Quem controlaria a força de um cabo eleitoral do juiz de um comarca do interior de Minas Gerais, ou de qualquer outro Estado? Quem financaiaria a campanha eleitoral do magistrado? A introdução de um ente eminentemente político no seio de outra instituição, eminentemente técnica, precisa ser justificada, pois, o CNJ é uma aberração democrática que outorga poderes sem fixar responsabilidades. É a hipótese da pergunta: quem fiscaliza o fiscal? A OAB, entidade que nos representa, e muito bem na quase totalidade das unidades da Federação, certamente teria dados concretos, com nomes e datas para ilustrar tão graves acusações, se, e quando, ocorrentes. A generalização é mãe da injustiça. Na sua matéria o TJ de São Paulo não é referido como pioneiro na erradicação do nepotismo, ali vedado desde a decada de 90. Os demais pecados imaginados na matéria, quando confirmados, têm sido prontamente repelidos e punidos. Nossa luta, dos operadores do Direito, exige, por dever da própria concepção profissional, que as acusações sejam precisas, determinadas, identificadas, enfim, cercadas das cautelas necessárias para uma investigação rigorosa, sem desmoralização da instituição enfocada, aqui a magistratura, outras vezes o ministério público e, mais amiudemente, a própria advocacia, pois, todas apresentam o mesmo risco decorrente da falibilidade humana. No meu Estado o cargo de magistrado ainda é uma honraria.

Contudo, “ Do saco, a embira ” Eis que o ju...

Carlos Alberto Dias da Silva (Advogado Autônomo - Civil)

Contudo, “ Do saco, a embira ” Eis que o judiciário não tem representação popular. Como todo poder emana do povo, o judiciário somente se efetivará como poder soberano e independente quando seus membros forem eleitos pelo povo tal como previsto e fixado na nossa Carta Política - art.1º, parágrafo único, c/c o art.60, §4º, II, da CF. Diante das evidências, restou provado, a ineficiência e o descrédito acabaram por aflorar essa utopia de auto controle exercido pelas corregedorias, alertando a sociedade da premência de um controle externo, no caso, o CNJ. Mesmo porque, diversamente do que ocorre nos outros dois poderes, ainda é negado ao povo seu direito constitucional de eleger os membros do judiciário que, assim, impõe-se temerariamente absoluto e apartado do contexto democrático da nação. No caso do nepotismo, por exemplo, universalmente combatido e execrado pelas nações democráticas, qualquer argumento para justificar sua prática se torna pífio, até por razões óbvias, diante da premissa básica e inquestionável de que sua prática encerra conceito de imoralidade implícita. Portanto, assistimos perplexos quando alguns Tribunais se insurgem contra medidas que visam coibir sua nefasta prática, mormente se tal insurgência parte, justamente, de representantes da instituição constituída para ser a guardiã dos princípios morais e éticos da nação e a responsável pela promoção da JUSTIÇA, da paz social. – Aliás, tal incoerência traz a lume outro triste alerta: o povo não pode continuar compromissado em mimar com benesses e títulos vitalícios os servidores que se mostram inadequados para a função pública. Por óbvio, além da imoralidade implícita, isso contraria os propósitos democráticos. Isso sim (atentar impunemente contra a moral e a ética) é desaforo à lógica jurídica! Agora, com as esperanças renovadas, a sociedade aguarda ansiosamente por outra imprescindível e impostergável resolução do nosso bem-vindo CNJ, qual seja: A regulamentação para “punição severa aos magistrados e servidores do judiciário que excedem os prazos previstos na lei processual”, primeiro passo decisivo rumo à efetiva viabilização do dispositivo constitucional: CF, art. 5º, LXXVIII: “A todos, no âmbito judicial e administrativo, são assegurados a razoável duração do processo e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação." Parabéns, pois, aos membros do CNJ que assim começam a se despontar como os grandes e verdadeiros defensores dos direitos constitucionais deste nosso injustiçado e espoliado povo. Carlos Alberto Dias da Silva, advogado/MG.* "Desnudando a Nossa Justiça" Autor(a): Carlos Aberto Dias da Silva* Eis que o atual sistema judiciário pátrio gerou e consolidou uma nova casta acomodada na "conveniente" morosidade da justiça, no poder “discricionário” exacerbado do magistrado, na impunidade advinda do inevitável corporativismo, e, desta forma, um poder que termina se mostrando altamente inconveniente para a sociedade, já que a despeito da sua suprema relevância, encontra-se absoluto, ilhado e acéfalo (as instâncias do Poder Judiciário não têm condutas padronizadas e assim a Justiça não é aplicada por critérios uniformes), desaguando nessa manifesta ineficiência operacional, hoje francamente reconhecida por todos. - E porque não dizer, data vênia, poder constituído de forma anti-democrática; vez que os magistrados não são eleitos pelo povo, tal como previsto e fixado na nossa Carta Política - art.1º, parágrafo único, c/c o art.60, §4º, II, da CF. Com o controle democrático implementado, via eleições, pondo fim a essa arcaica peça de museu que é a vitaliciedade - herdada da monarquia - sem prejuízo, obviamente, da carreira e do concurso público de provas e títulos, o judiciário sairá verdadeiramente fortalecido e independente, porquanto respaldado na representação popular e assim livre de interferências diretas, como hoje ocorre. Duvidar disso é duvidar da força da democracia, inequívoca, apesar de todas as suas contradições. Afinal, os poderes existem para servir ao país e não simplesmente para auferir privilégios e pompa aos seus integrantes, tal como nas monarquias do passado. O povo não pode continuar compromissado em mimar com benesses e títulos vitalícios aqueles servidores que se mostram inadequados para a função pública. Por óbvio, além da imoralidade implícita, isso contraria os propósitos democráticos. Ademais, um judiciário unificado e eleito, eclodiria com força incomensurável e nunca vista na história republicana. - Os outros dois poderes, com tudo aquilo que possa haver de condenável e corrupto, então, "tremeriam nas bases". Entrementes, no atual sistema judiciário, o advogado e seu constituinte não passam mesmo de meros pedintes dos favores do juiz do feito. E o direito? - bem, este acaba sendo um detalhe de somenos importância no contexto. Tanto que já se firmou, entre nós advogados militantes, o conceito pragmático de direito: “direito é aquilo que se requer e o juiz defere”. Isso porque se o pedido é indeferido, mesmo contra a lei, o direito, em tese, somente será alcançado após anos e anos de renitente perseguição, e, não raro, somente quando já não tenha mais qualquer utilidade prática para o seu titular. Donde a constatação da triste realidade: a morosidade da justiça já se tornou “moeda de troca” entre as partes litigantes. Neste sentido, o resultado útil e efetivo do direito é, pois, determinado pelo fator tempo, vez que é ele quem regula a existência dos seres vivos sobre este mundo. Sendo assim, o tempo é fator determinante para a eficácia do direito dos jurisdicionados. - Destarte, ou se exige "também" do julgador e demais serventuários da justiça o cumprimento dos prazos legais, ou jamais o judiciário passará de mero "vendedor de ilusões", conforme é hoje notoriamente rotulado pela sociedade. Assim, no comando do processo, o juiz comanda também o tempo, e, via sua nem sempre "iluminada" discricionariedade, vai encaminhando o desfecho e duração da lide na direção que melhor lhe aprouver. Posto que correntes doutrinárias e jurisprudenciais antagônicas não lhe faltam para amparar o entendimento e assim substituir a Lei pelo seu critério de conveniência e simpatia. Destarte, não raras vezes, utilizando-se do direito como fachada e do subserviente advogado como instrumento da sua legalidade, vão ditando o destino aos seus semelhantes, arvorando-se, de fato, em legisladores sem mandato. A figura do judge made law é incompatível com a nossa tripartição do Poder, pois gera o arbítrio do Judiciário, a par de invadir a esfera legiferante, atribuição de outro poder. - Onde irá a certeza do direito se cada juiz se arvorar em legislador ? Não nos iludamos. A magistratura não é um sacerdócio. Tanto que o juiz não faz voto de pobreza e castidade. Eles, como qualquer ser humano, são suscetíveis às tentações mundanas. E a toga, por mais reverenciada que seja, infelizmente não tem o condão de conferir a infalibilidade e imunidade desejáveis a seus usuários. Sem dúvida que tal conceito é utópico. A discricionariedade, certamente, seria bem usada por um juiz que, individualmente, possuísse uma boa formação da estrutura superegóica, a qual se traduz por um grande senso ético em suas ações. Entretanto, é sabido, nem todo ser humano é dotado destes privilégios da natureza. O conhecimento da matéria legal não lhe confere o dom. Daí, esse instrumento em mãos inadequadas é temerário. – A discricionariedade necessita de melhor regulamentação legal, com delimitação rígida e clara quanto às hipóteses que justifiquem sua aplicação. Ou servirá de instrumento de favorecimento com cunho legal, como não raro presenciamos nas lides forenses. De tal sorte que o binômio, discricionariedade + morosidade da justiça, na prática, acaba equivalendo a uma sentença final. Isto porque reverter uma decisão da 1ª instancia implica em verdadeira "via crucis". Qualquer advogado militante sabe perfeitamente da força perversa desse binômio. Só não pode admitir publicamente, sob pena de ser considerado "persona non grata" e assim fadado ao desastre profissional. Por isso a Súmula Vinculante se faz necessária. Advogados e a sociedade já estão cansados dessa insegurança jurídica (à guisa de evoluir o Direito), e cansados de ter de impetrar recursos simplesmente para ver o óbvio triunfar. Com a súmula, a par da celeridade, as demandas ficarão mais transparentes e as decisões, por certo, mais previsíveis e imparciais. - e, também por certo, sua evolução acompanhará a realidade social alicerçada na ciência do direito, gerando as mudanças quando necessárias. A bem da verdade, a súmula vinculante não engessa o direito, mas sim, engessa o julgador no cumprimento da Lei que traduz o direito. O que, mister convir, é indiscutivelmente salutar. – Na Alemanha, por exemplo, a súmula vinculante tem se mostrado um eficiente instrumento da celeridade e imparcialidade dos feitos e nunca foi questionada pelos juízes como empecilho à sua “liberdade” para julgar. Resta claro, portanto, que a morosidade da justiça armou o magistrado de 1ª instância do poder subjetivo de decisão isolada e definitiva do feito e, por vezes, impondo seu critério ao arrepio das normas legais. Situação deveras temerária, posto que, como qualquer ser humano, estão sujeitos a desvio de conduta e interpretações tendenciosas. E ao advogado, neste contexto, só resta o humilhante papel de lobista e bajulador, sempre de pires na mão, pisando em ovos, com receio de melindrar. Daí porque a prestação jurisdicional, dentro desta fatídica realidade, passou de obrigação do ofício para mero favor concedido pelo julgador, na medida em que o magistrado e demais serventuários da justiça não são punidos pelo descumprimento dos prazos legais. Prazos estes, como cediço, de há muito letra morta nos códigos processuais pátrio; - não obstante as conclusões abalizadas da ONU que concluiu como ótima a média de sete juizes para cada 100 mil habitantes, enquanto o número de juizes no país, 13.474, nos dá uma média de 7,62 por 100 mil habitantes. Portanto, o confronto numérico torna pífio qualquer argumento usado para justificar a desastrosa ineficiência do poder judiciário e seu descrédito perante a opinião pública. Isso sem falar no salário dos juízes de 1ª Instância que, no Brasil, é o “2º mais alto do mundo”, somente superado pelo Canadá, segundo informa pesquisas oficiais da Secretaria da Reforma do Judiciário. – Observando-se ainda no diagnóstico das despesas do judiciário, no ranking das despesas em milhões de PPPD por 100.000 habitantes, o Brasil figurou na segunda pior posição, só ultrapassado pela Itália. Esta despesa atingiu 9,84 milhões de PPPD por 100.000 habitantes, contra uma média internacional de 2,04, ou seja, 4,8 vezes esta média (tabela 26, do Diagnóstico do Poder Judiciário) !!!. Entretanto, a despeito de tais fatos, a sociedade não tem sido correspondida em termos de desempenho, de prestação jurisdicional eficiente e a altura do enorme sacrifício debitado a este povo considerado pobre no contexto das nações; eis que amarga renda per capta espúria e uma das piores distribuições de renda do ranking mundial, etc. – Mister convir, a situação é injustificável. Então, o resignado cidadão brasileiro, melhor dizendo "o súdito do Estado", submetido à esta relação ultrapassada “soberano-súdito” (ao invés de Estado-cidadão), impotente diante desta fatalidade, prefere simplificar sua vida se curvando ao brocardo: “ Manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Tanto que hoje, ser “bom advogado” é sinônimo de “ter trânsito” nas varas judiciais, condição esta que irá medir, de fato, a verdadeira "competência" do causídico. É a competência e a ética superada pela infame “arte de bajular”. Nesta pretensa Reforma do Judiciário, pergunta-se, quem sustenta a necessidade da súmula vinculante? – quem reconhece a necessidade do controle externo, vale dizer, controle da formação de castas e do corporativismo? – quem se insurge contra a cassação, sem direito a aposentadoria, dos maus juizes relapsos, prevaricadores e corruptos? – e, sobretudo, quem ousa tocar na ferida: “punição severa aos juizes e serventuários que excedem os prazos processuais e que protelam decisões? “ Mesmo as OABs, com ressalva das honrosas exceções, devido ao fato de seus diretores também exercerem a advocacia, procuram evitar estes pontos nevrálgicos que evidentemente estrangulam o sistema; certamente tementes das conseqüências desagradáveis de serem considerados “personas non gratas” pelos que decidem o destino das causas. – E aí, adeus ao "trânsito" e, em conseqüência, adeus ao sucesso profissional. Já é hora das OABs “vestirem a camisa dos advogados”, dando-lhes o efetivo respaldo que necessitam ao denunciarem as irregularidades processuais, quase sempre fruto da prepotência e arrogância de alguns juízes “desajustados na função” que, incentivados pela certeza de que as representações contra eles formuladas irão desaguar na vala comum do arquivamento. Em geral, como é sabido, acata-se a informação colhida do representado arquivando-se a representação sem oportunizar ao representante a produção de provas. Ou seja, não se admite contestação à resposta do representado, retrocedendo-se à superada máxima: “The King can do no wrong", numa demonstração clara, data vênia, de corporativismo explícito. – A ocorrência de tal parcialidade, evidenciada pelo nefasto desequilíbrio entre as partes, arranha o devido processo legal e desborda no autoritarismo e na sua mais execrável conseqüência, a insegurança jurídica; não obstante, assistimos cabisbaixos e impotentes à disseminação de tais abusos. Numa democracia plena não se pode, simplesmente, varrer a sujeira para debaixo do tapete sem qualquer satisfação à sociedade. É preciso democratizar o judiciário. – Para tanto, a OAB precisa “descer do muro”, abdicar da confortável sombra do poder e se posicionar francamente ao lado do advogado, vale dizer, da cidadania, razão maior senão a única da sua existência. Afinal, “o objetivo do Direito é a paz, mas a luta é o meio de consegui-la (Ihering)”. A propósito, aqui vai uma sugestão – de cunho meramente exemplificativo - para apreciação dos colegas: toda e qualquer reclamação ou representação contra indícios de irregularidades praticadas no processo por juizes e/ou servidores das varas judiciárias, tais como desvio de conduta, favorecimento por tráfico de influência, omissão e protelação de decisões, prevaricação, parcialidade, procrastinação de atos de ofício, inobservância do devido processo legal, desrespeito às prerrogativas do advogado, desrespeito aos direitos do erário e do idoso, etc, deveriam ser impetradas com a chancela e sempre via OAB. Obviamente depois de se regulamentar mecanismos específicos para esta finalidade, com a criação, nas seccionais, de câmaras compostas de pelo menos três colegas, estes, eleitos pelos inscritos na Ordem e com mandato de dois anos. Lá seriam avaliadas, de portas abertas, as provas e indícios trazidos pelos advogados reclamantes, e, em seguida, sendo o caso, aviada enérgica e fundamentada representação ao Conselho Nacional de Justiça, notificado o Presidente do Tribunal de Justiça pertinente, com intimação do MP e das Fazendas Públicas quando interessadas, exigindo-se, de imediato, rigoroso processo administrativo contra o servidor ou magistrado os quais seriam afastados de suas funções até decisão final. O processo deverá ser sempre público e acompanhado pelo MP e por dois membros da seccional da OAB, a serem indicados pelo representante, até o final. – Por certo, a Justiça, a democracia e a sociedade como um todo seria a grande favorecida, bem como o grande número de magistrados vocacionados e competentes que cumprem com o seu dever. Cremos que “abertura e transparência” nesse sentido, conjugada com as súmulas vinculantes, ampliado o seu efeito às súmulas de todos os Tribunais Superiores, seria fator decisivo para rompermos com os grilhões dessa tradição arcaica e enraizada nos países do terceiro mundo. Eis que a influência do Poder Judiciário no crescimento econômico das nações modernas é fato incontestável, vez que a insegurança jurídica constitui entrave gravíssimo para o progresso e a paz social. Constata-se aqui, também, a reprise da fábula do "rei nu", onde todos vêem o absurdo, mas ninguém ousa dizer nada ... Este alquebrado causídico não quer ser pretensioso com este ato de absoluta franqueza. Até mesmo pela ciência da inocuidade deste desabafo, diante da rigidez estrutural do sistema; - consubstanciado, principalmente, no fato de que todo cidadão, rico ou pobre, ilustre ou socialmente desapercebido, um dia estará sujeito a uma decisão judicial. Contudo, “A sociedade civil não aceita mais instituições voltadas para si mesmas, que não prestam contas de seus atos ou que se trancam em seus gabinetes. As discussões que vêm sendo travadas sobre a Reforma do Judiciário tiveram o condão de mostrar que a Justiça é vista como um bem cujo consumo é tão vital quanto energia, água ou saúde. E o magistrado, nesse contexto, é um funcionário, que tem deveres para com a sociedade.” (AASP, bol. nº 2409) Afinal, somos ou não um Estado Democrático de Direito? – Para respondermos afirmativamente é necessário, antes, que se insira este “poder ilhado" no contexto democrático da nação, posto que, Democracia nenhuma jamais se consolidou ou se consolidará enquanto não estiver alicerçada por justiça séria e efetiva, imprescindível para o progresso e a paz social. (*) Advogado, OAB/MG

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