Entrevistas
20 novembro 2005
Resgate de valores
Lembo: A solução dá Justiça está no sistema processual
Cláudio Lembo é um político brasileiro. Mas ao contrário da maioria dos políticos brasileiros ele é — e tem coragem de dizer que é — conservador. Num país em que ser liberal é visto como defeito, Lembo se assume como conservador e liberal. “Se conservar valores como o respeito às tradições históricas e à dignidade humana é ser conservador, então eu sou conservador”, afirma ao clamar por uma recuperação dos verdadeiros valores da civilização.
Professor de Direito Constitucional e de Direito Processual Civil na Universidade Mackenzie de São Paulo, de onde também foi reitor, Cláudio Lembo não leva muita fé na reforma constitucional do Judiciário e espera pela reforma processual, para ele a única capaz de resolver os problemas da Justiça brasileira: “Nosso Código de Processo Civil foi feito por intelectuais que importaram modelos da Europa e complicaram tudo”, afirma.
Inimigo da Súmula Vinculante, Lembo revela ter pavor do que considera a pior das ditaduras: a do Judiciário. “A ditadura da toga é a mais perigosa, porque é difícil de ser combatida”, afirma ele. O vice-governador, que já chefiou o departamento jurídico do Banco Itaú, afirma que a solução para os problemas do Judiciário não está no poder Executivo, mas no próprio Judiciário. O grande desafio da justiça brasileira, diz, está na simplificação do sistema processual.
Aos 71 anos, Cláudio Lembo tem uma longa história ligada à política. Como presidente da Arena, o partido do regime militar de 64, tornou-se um interlocutor do general Golbery do Couto e Silva no processo de abertura. Voltaria a freqüentar o Planalto Central em momentos mais favoráveis à democracia, primeiro como um dos articuladores da frente que tirou a presidência da República das mãos do candidato do regime, Paulo Maluf, depois como assessor do vice-presidente dos governos FHC, Marco Maciel.
Elegeu-se vice-governador de São Paulo em 2002, o que deverá levá-lo ao governo do mais importante estado da federação em abril do ano que vem, quando o titular Geraldo Alckmin se afastar do cargo para disputar as eleições.
Participaram da entrevista os jornalistas Márcio Chaer, Maurício Cardoso, Adriana Aguiar e Maria Fernanda Erdelyi.
Leia a entrevista
ConJur — Ser conservador no Brasil costuma ser visto como defeito. É defeito ser conservador?
Cláudio Lembo — Não. Eu me considero um liberal conservador. Considero importante conservar valores, respeitar tradições históricas, respeitar as pessoas. Quem ia para a fogueira na Idade Média eram os conservadores quando diziam que a dignidade humana é o que vale, é o que importa. Então eu sou um conservador e me orgulho disso.
ConJur — O Brasil tem uma história de conservadorismo que vem do período colonial, do império, da primeira república. De repente, nas décadas recentes, entramos em um período de saltos liberalizantes. O senhor diria que está faltando uma onda conservadora para o Brasil se reposicionar?
Cláudio Lembo — Não é que está faltando, ela é inevitável. A história ocorre por um processo de ciclos. O Brasil precisava conhecer um ciclo de total democratização, liberalização dos costumes. Temos o passado de um país escravocrata, de um país de carga autoritária pesada. Então era preciso que houvesse uma plena liberalização das estruturas nacionais. O que felizmente aconteceu. Agora é tempo, dentro da liberdade, da democracia, voltar a ter relacionamentos onde há valores: valor de dignidade, valor de respeito humano, valor de respeito à inteligência e à cultura.
ConJur — O senhor diria que os anti-valores estão mais em evidência do que os valores?
Cláudio Lembo — Houve uma crise que nos levou ao anti-valor, ou seja, ao niilismo, à destruição dos valores médios brasileiros. Agora é preciso reconstruí-los, porque eles ficaram no inconsciente. A sociedade vai poder pedir pela volta dos valores com as eleições. Por isso é bem provável que os partidos tidos como conservadores tenham resultados nas urnas muito melhores do que o passado recente. Nas eleições passadas o Brasil estava lamentavelmente dividido entre os que eram classificados como os bons e os maus, aqueles que tinham estrelinhas e aqueles que eram capetinhas, e isso não é verdade. Os seres humanos são razoavelmente iguais.
ConJur — A coisa é mais complexa do que dividir os que são de esquerda como bons e os de direita como maus.
Cláudio Lembo — É muito mais complexa. Em 64 a democracia que era muito incipiente, mas que avançava com seus partidos políticos, foi rompida. Primeiro tivemos uma onda de direita na ditadura e depois passamos por uma visão de esquerda, e foi nesse momento que tudo se perdeu. Agora estamos em um período de reequilíbrio social. Esses episódios todos de corrupção em Brasília assistidos pela sociedade, que examina, analisa e reflete, faz com que possamos voltar a ter equilíbrio de forças políticas, onde os partidos possam conflitar dentro de um processo pacífico. Assim, um precisa sempre fiscalizar o outro para manter o país em ordem.
Adriana Aguiar é repórter do jornal DCI.
Revista Consultor Jurídico, 20 de novembro de 2005
Comentários
Comentários de leitores: 8 comentários
Prezado Ottoni (Advogado Sócio de Escritório .....
Carlos Alberto Dias da Silva , OAB/MG nº 29.227...
Contudo, “ Do saco, a embira ” Eis que o ju...
Ver todos comentários
A seção de comentários deste texto foi encerrada em 28/11/2005.