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25 maio 2005
O nome das coisas
Descubra se você é politicamente correto aos olhos do governo
Você é politicamente correto? Não, se costuma chamar maus motoristas de barbeiros, pessoas pouco sérias de palhaças, quem cresceu menos de um metro e meio de anão e um bêbado de... bêbado. Todas as expressões são condenadas pela malnascida cartilha “Politicamente Correto & Direitos Humanos”, quase lançada pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva e que a Consultor Jurídico agora publica na íntegra.
De acordo com o manual de bom comportamento vocabular do petismo dominante, classificar um mau-condutor como barbeiro, por exemplo, é insultar os profissionais especializados em fazer barba e cabelo. Usar o adjetivo só não pode denegrir a imagem do barbeiro porque o verbo denegrir também é considerado um atentado à dignidade dos negros pelo seu sentido de “aviltar, diminuir a pureza e conspurcar”. Deve assim, ensina a cartilha, ser evitado. Da mesma forma que chamar alguém de palhaço ofende o profissional que “vive de fazer pessoas rirem”.
A cartilha, anunciada pouco depois do episódio em que o jogador são-paulino Grafite foi ofendido pelo argentino Desabato com expressões ditas racistas, coloca na lista negra — ou seria afro-descendente? — mais de cem expressões da língua portuguesa. Entre elas estão beata para mulheres que vão com “freqüência a missas e ofícios da igreja católica”, branquelo, que é insulto racista, afirma, contra pessoas brancas, e burro para quem tem pouca inteligência. “Conferir às pessoas supostas características de animais é um dos recursos mais comuns para desqualificá-las”, pontifica o tratado.
E não ouse dizer que a cartilha é obra de políticos e que eles são todos farinha do mesmo saco. A expressão, prega o texto, não passa de “preconceito de gente mal informada” e “ilustra a falsidade e leviandade das generalizações apressadas, base de quase todos os preconceitos”.
Veja a íntegra da cartilha
Politicamente Correto & Direitos Humanos
Presidente da República
Luiz Inácio Lula da Silva
Secretário Especial dos Direitos Humanos
Nilmário Miranda
Direitos Humanos
Perly Cipriano
Presidente da Fundação Universitária de Brasília
Edeijavá Rodrigues Lira
PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA
Secretaria Especial dos Direitos Humanos
Antônio Carlos Queiroz
Brasília, 2004
A ________________________________________________________
A coisa ficou preta – A frase é utilizada para expressar o aumento das dificuldades de determinada situação, traindo forte conotação racista contra os negros.
Africano – Termo relativo à África, aos seus naturais e habitantes. Sua utilização genérica muitas vezes serve para negar a diversidade de países e povos daquele continente ou para discriminá-los, em geral, inferiorizando-os.
Aidético – Termo discriminador dos portadores do vírus da Aids, ou Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (HIV). O correto é chamar a pessoa nessa condição de “HIV positiva” ou “soropositiva”, quando não apresenta os sintomas associados à doença, e “pessoa com Aids” ou “doente de Aids”, quando ela já tem aqueles sintomas.
Aleijado – Termo ofensivo, que estigmatiza as pessoas com deficiência física ou mental. Não é correto chamá-las de “pessoas deficientes” ou “excepcionais”, atribuindo-lhes incapacidade absoluta. Nem é pertinente chamá-las de “portadoras de habilidades especiais”, eufemismo que não ajuda a preservar sua dignidade. Em geral, as pessoas nessas condições preferem ser tratadas como “portadoras de deficiência” ou simplesmente “pessoas com deficiência”.
Analfabeto – Condição de quem não sabe ler nem escrever, alvo de grande preconceito e discriminação social no País, o que é sintetizado, por exemplo, na frase “Vá estudar para ser alguém na vida!” Em geral, quem agride os analfabetos costuma responsabilizar a pessoa que não teve a oportunidade de ir à escola e não à sociedade que lhe negou tal oportunidade. Segundo o Censo 2000 do IBGE, 16,7% da população brasileira acima de cinco anos, ou quase 26 milhões de pessoas, são incapazes de ler e de escrever um bilhete simples. Formam um contingente especial de excluídos da cidadania, com menos direitos políticos (não podem ser eleitos a cargos públicos) e menos acesso a empregos e benefícios sociais.
Anão – As pessoas afetadas pelo nanismo são vítimas de um preconceito peculiar: o de sempre serem consideradas engraçadas. Não há nada de especialmente engraçado ter baixa estatura, fato que não torna ninguém inválido nem diminui sua dignidade.
Apenado – A expressão é utilizada, de maneira incorreta, para designar qualquer pessoa detida pela polícia, mesmo sem ter sido julgada e sentenciada. É preciso reafirmar o princípio da presunção da inocência, definido no inciso LVII do artigo 5º da Constituição Federal, segundo o qual “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”.
Luciana Nanci é repórter da revista Consultor Jurídico.
Revista Consultor Jurídico, 25 de maio de 2005
Comentários
Comentários de leitores: 2 comentários
Cartilhazinha maneira. Agora sim, meu vocabulá...
É hilário o conteúdo desta cartilha. Pena que n...
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