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Ação contínua

Operações da PF não são monopólio desse governo

Por 

O secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, Marcelo Itagiba, 49 anos, é um homem culto e refinado. Bacharel em ciências jurídicas e sociais pela Faculdade de Direito da UFRJ — Universidade Federal do Rio de Janeiro e pós-graduado em ciências políticas pelas Université René Descartes, de Paris, ele transita pelas altas rodas cariocas com desenvoltura. O perfil sofisticado de Itagiba destoa do estereótipo da profissão que, segundo ele, escolheu por vocação. Delegado de carreira da Polícia Federal há 22 anos, ele tem verdadeira paixão pelo que faz.

Há dois anos, no entanto, deixou o cargo de superintendente da PF no Rio de Janeiro para aceitar o desafio de cuidar da segurança pública do estado. Nem por isso perdeu de vista o trabalho que seus colegas têm feito nas recentes e controversas operações desencadeadas pela Polícia Federal em todo o país. “Esse tipo de ação não é um monopólio desse governo”, afirma. “O governo atual descobriu, talvez mais do que os outros, que esse tipo de ação tem uma visibilidade e tem um impacto positivo na mídia, e tem explorado essa faceta”, completa. Ele, no entanto, aponta alguns exageros cometidos durante as ações como o uso de roupas inadequadas e o porte desnecessário de armamento pesado.

A visibilidade na secretaria de Segurança Pública pode pavimentar uma candidatura ao Congresso Nacional ou, quem sabe, ao governo do estado. Mesmo dizendo que faz polícia e não política, Itagiba se antecipou à legislação eleitoral, que prevê o prazo máximo de filiação até setembro, e já se filiou a um partido político. Ao contrário do que previam os analistas políticos que o identificam com o PSDB por ter trabalhado com o tucano José Serra no Ministério da Saúde, escolheu o PMDB, partido de sua atual superiora, a governadora Rosinha Garotinho.

Em meio ao fogo cruzado entre traficantes que dominam os morros cariocas e a população da cidade que clama por paz, o secretário pretende concluir em dois meses um livro onde propõe a criação de estágios antecedentes à aplicação da lei penal. Nessa entrevista concedida à revista Consultor Jurídico em seu gabinete, no 4º andar do prédio da Central do Brasil na capital fluminense, ele dá mais detalhes da proposta.

Leia a entrevista

Conjur — O senhor é um policial federal de carreira, delegado e foi superintendente da PF no Rio de Janeiro. Portanto, deve acompanhar as recentes operações que a Polícia Federal tem feito e seus polêmicos desdobramentos. Como o senhor analisa essas atuações?

Marcelo Itagiba — A Polícia Federal sempre atuou nos grandes crimes onde existe bens e serviços de interesse da União. Porque essa é uma das atribuições constitucionais da Polícia Federal. E o que ela vem fazendo nesse tipo de operação, sempre foi feito. Ela sempre teve a responsabilidade pela apuração dos grandes casos. Essa Polícia Federal que está aí, fazendo esse tipo de ação, não é um monopólio desse governo. A Polícia Federal é composta por policiais de carreira, uma carreira de estado, que trabalha dentro dos ditames legais. Não trabalha e nem deve trabalhar a serviço de um governo nem de outro. E eu acho que essa é a tradução da Polícia Federal. Quanto às operações, eu acho que o que o governo atual descobriu, talvez mais do que os outros, é que esse tipo de operação que a Polícia Federal sempre fez tem uma visibilidade e tem um impacto positivo no que diz respeito à mídia e explorou essa faceta.

Conjur — Com que objetivo?

Itagiba — Objetivo de dar visibilidade de que esse governo faz aquilo que todos os governos deveriam fazer.

Conjur — Seria também uma forma de desviar a atenção dos recentes escândalos de corrupção envolvendo o PT?

Itagiba — Não sei se o objetivo é desviar a atenção. O objetivo da Polícia Federal é fazer as suas ações, agora o porquê do marketing das ações da Polícia Federal pelo governo federal tem que ser perguntando para o pessoal do governo federal. Mas com certeza a PF tem cumprido o seu papel, porque ela não é uma polícia a serviço de governos. Ela tem que ser uma polícia a serviço do país. Quanto à questão das prisões e dos mandados de busca e apreensão pode ser feito um reparo aqui outro ali na questão da atuação. Em primeiro lugar você solicita um mandado de busca e apreensão e solicita uma medida de prisão ao Judiciário. Então, o Judiciário aferiu aquele pedido e concedeu aquele mandado. Agora o que você pode às vezes pontualmente criticar é a forma de fazer determinados tipos de operação em determinados locais que não necessitam de um determinado tipo de aparato.

Conjur — Como o quê, por exemplo?

Itagiba — Como ir para a Avenida Paulista fazer uma busca e apreensão num escritório de advocacia com pessoas vestidas de roupas operacionais e portando fuzis. A Polícia Federal tem como indumentária de trabalho paletó e gravata, terno, e pode fazer o mesmo tipo de ação sem a necessidade desse tipo de equipamento. Para outras atividades, necessita desse tipo de equipamento, necessita desse tipo de ação, esses outros teatros devem e podem ser utilizados.

 é editora especial da revista Consultor Jurídico no Rio de Janeiro.

Revista Consultor Jurídico, 31 de julho de 2005, 12h08

Comentários de leitores

2 comentários

A questão mesmo, está na distribuição de bens e...

Daniel (Estudante de Direito)

A questão mesmo, está na distribuição de bens e serviços fundamentais como educação e saúde, e permitir assim, melhor organização familiar, para que posteriormente tenham todos, condições, em igualdade, aos meios de acesso aos poderes. Quanto aos valores. É conseqüência da falta de consciência. Tanto o pobre quanto o rico, se deixam levar por meros anseios de consumo, numa sociedade que empurra a moda. Os pobres aprenderam que devem tirar vantagem à qualquer custo com os ricos (quem suborna e quem é subornado?; quem faz escolinha de tráfico de influências? diz conhecer fulano, mostra carteira etc; quem tem poder?). Logo quando aqueles conseguem "melhorar" um pouco de vida, alcançando cargos dentro da Administração vão querer uma fatia do bolo. É tudo o jeitinho. Começa furando fila, pagando aqui, pedindo ali. É tudo culpa da banda podre brasileira. Estão lá no alto, e de lá não querem descer. Preferem deixar como está. Num caos social. 52 mil presos em dois anos. 99% estão em que classe? Concordo quanto a necessidade de um modelo (não sei se nos moldes do proposto quanto as figuras contravencionais) de tirar do judiciário, num primeiro momento, algumas figuras (já existe em alguns países). Mas o combate correto deve ser por outros canais, de uma maior eficácia.

Muito boa entrevista! Apenas acrescento minha ...

ANTONIO RAYOL (Delegado de Polícia Federal)

Muito boa entrevista! Apenas acrescento minha modesta opinião pessoal, de que às causas da criminalidade apontadas pelo Dr.ITAGIBA, deve somar-se a deterioração dos valores morais da sociedade, a disseminação da idéia deturpada de que é preciso levar vantagem à qualquer custo, e de que tudo é, ou deve ser permitido. Parabéns ao colega delegado ITAGIBA! Definitivamente há vida inteligente na polícia! a

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