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25 julho 2005

Triste tradição

Abuso no uso de algemas pela PF não traz efeito esperado

*O Estado de S.Paulo

Um dos pontos mais polêmicos nas operações da Polícia Federal (PF) contra suspeitos de corrupção e sonegação tem sido o uso indiscriminado de algemas e a ostensiva exposição dos detidos à mídia. A discussão é antiga e foi recolocada na ordem do dia pela Operação Cevada, quando os acionistas da Schincariol, entre eles um sexagenário, foram algemados e puxados com força, na frente das câmaras de televisão, por agentes com roupa e boina pretas, óculos escuros e armas pesadas.

Se esses empresários eram apenas suspeitos de terem cometido um delito fiscal, tinham bons antecedentes e moravam em locais certos e sabidos, por que foram presos de modo humilhante? O que justifica o uso de algemas em detenções de acusados de crime fiscal? “O uso da algema é uma tradição. As algemas podem e devem ser usadas em toda e qualquer prisão, é uma medida de segurança”, afirmou o delegado José Ivan Guimarães Lobato, superintendente da PF em São Paulo, ao site Consultor Jurídico. “É mala de dinheiro voando para todo lugar e querem vir criticar o uso de algemas? O País está podre”, endossou o agente Francisco Garisto, presidente da Federação Nacional dos Policiais Federais. “A polícia vai continuar do jeito que está (...). O que ela pode fazer ao seu bel-prazer é algemar alguém quando bem entender e achar necessário”.

Nos meios forenses e políticos, como era inevitável, essas afirmações causaram perplexidade. “É uma temeridade. Atitudes como essas só se adotam em situações extravagantes”, disse o ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, ao mesmo site. “Em alguns casos fazem-se verdadeiros espetáculos. As autoridades devem agir com bom senso, guiadas pelas circunstâncias”, completaram o criminalista Ronaldo Marzagão e o ex-secretário da Justiça de São Paulo Eduardo Muylaert, após criticar o que chamaram de “banalização das algemas”.

Seu emprego desnecessário “é um desrespeito aos direitos fundamentais”, declarou Antonio Ruiz, da Associação dos Advogados de São Paulo.

Essa opinião é endossada até mesmo dentro do próprio PT. Por diversas vezes o deputado Paulo Delgado (PT-MG) já criticou os abusos cometidos pela Polícia Federal em ações espalhafatosas, especialmente o uso de algemas em pessoas inofensivas. Recentemente, o deputado Wagner Rubinelli (PT-SP) apresentou à Câmara um projeto que regulamenta a matéria, lembrando, em sua exposição de motivos, que a Constituição proíbe ‘tratamento degradante’ e que a legislação processual penal impede que presos sejam expostos ‘a inconveniente notoriedade’. Sua proposta, que vem sofrendo forte resistência da parte da PF, dispensa o uso de algemas nos casos de réus primários, de cidadãos com bons antecedentes, dos detidos que não tentam fugir e quando não se tratar de prisão em flagrante. “Mais razoável seria não misturar a honra do governo com um assunto meramente policial”, diz ele.

Evidentemente, esses críticos do uso abusivo de algemas não estão defendendo um tratamento mais leniente ou concessivo para corruptos e sonegadores. O que eles estão afirmando é que o combate a esses tipos de delito, por meio da execração pública e da humilhação, atenta contra o Estado de Direito. Em vez de ter efeitos pedagógicos ou preventivos, transmitindo para a sociedade a idéia de que o crime não compensa, como afirmam algumas autoridades fiscais e policiais, essas prisões humilhantes podem trazer resultados diametralmente opostos. Ou seja, podem causar danos irreparáveis a cidadãos inocentes e podem prejudicar a imagem corporativa de empresas mesmo que absolvidas.

E quem perde com isso não são apenas seus executivos e seus acionistas, mas a economia brasileira como um todo. Isto porque, quando não há regras claras e objetivas disciplinando o uso de algemas em diligências realizadas por agentes e delegados federais no âmbito da iniciativa privada, a insegurança jurídica tende a inibir as decisões de investir, o que dificulta o aumento da produção e a geração de novos empregos. É por esse motivo que o Congresso não pode ceder às pressões da PF quando votar o oportuno projeto do deputado Wagner Rubinelli.

*Editorial do jornal O Estado de S.Paulo publicado nesta segunda-feira (25/7).

Revista Consultor Jurídico, 25 de julho de 2005

Comentários

Comentários de leitores: 9 comentários

7/10/2006 20:01 Papa-Figo (Funcionário público)
É muito fácil tecer um comentário contra as for...
É muito fácil tecer um comentário contra as forças policiais quando não há empatia. Muitos são os exemplos em que cidadãos comuns e sem antecedentes criminais matam o próximo, seja no trânsito, em uma festa, dentro de sua própria casa, etc. A gente nunca sabe do que o próximo é capaz. Qual a garantia que um desses pacatos cidadãos quando detido não vai ter um surto de desespero e colocar em risco toda uma guarnição dentro de uma viatura policial? E se ele resolve empreender fuga correndo pela rua e ao tentar ser parado for derrubado, machucando-se no chão (coitado do policial...). Ele tem que ser imobilizado sim, para ser impedido de qualquer ato que ponha em risco a si mesmo e ao policial que o está conduzindo. O que deve ser combatido são os excessos e não o procedimento normal. Só para lembrar, o policial também é um cidadão, pai de família, que sai de casa para trabalhar na defesa da sociedade. Fica aí uma série de coisas nas entrelinhas.
24/10/2005 17:17 Fróes (Advogado Autônomo)
De um aparato repressivo que faz desaparecer de...
De um aparato repressivo que faz desaparecer dezenas de quilos de cocaína apreendida a traficantes, assim como milhões de reais, além de ter sido muito bem utilizado pelo período ditatorial, na repressão a patriotas que lutavam contra o fascismo tupiniquim, essa questão de algema passa a ser até prosaica.E dar espaço a tipos como o policial Garisto é perda de tempo. Melhor seria a imprensa apontar o ridículo das roupas pretas e óculos escuros usados pelos nossos "camisa negras". Plínio Salgdo deve estar dando pulos de satisfação em seu túmulo! Anauê.
8/10/2005 00:48 cana (Investigador)
Comentarios hipocritas!Nao e atoa q o Brasil es...
Comentarios hipocritas!Nao e atoa q o Brasil esta deste jeito.Criminoso e criminoso,nao importa de e empresario,gerente,politico ou um simples favelado.Algema foi feita pra bandido,pra segurança dele e das forças policiais.Concordo com que a PF faz estardalhaço com suas operaçoes,nao passa de jogadas de midia,querm fazer sua propaganda.Mas criticar o uso de algemas e demais.Por isto que no Brasil vençe a impunidade.Entao quer dizer que se um empresario vai preso,nao pode algemar o "doutor",porque ele e melhor que os outros,porque tem dinheiro.Bobagem...preso e preso.Tratamento igual para qualquer um.Isto e procedimento padrao.Mas fazer oque?Se no Brasil bandido vira artista.Fica famoso.

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