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24 setembro 2004

‘Preta gorda, sim, e daí?’

Ninguém tem o direito de agredir outra pessoa de forma racista

Por Kathia N. Gomes

Sempre me considerei uma exceção entre os negros brasileiros. Embora seja mulata, nunca fui vítima de preconceito racial. Lógico, na infância, algumas brincadeiras sobre minha cor de vez em quando eram feitas pelos coleguinhas, mas eu não me importava. O fato da Xuxa não ter nenhuma paquita negra me aborrecia um pouco, mas não encarava como uma ofensa pessoal. Minha mãe, que é branca, sempre me ensinou que todos somos iguais e algumas pessoas simplesmente demoram um pouco mais para entender isso. Dessa forma, fui criada acreditando que com uma boa conversa tudo se resolvia. Até ontem, 22 de setembro quando fui xingada: “Sua preta gorda, saia daqui”.

Ao sair de meu trabalho, localizado numa pequena rua sem saída, logo atrás do estacionamento ZAPARK, em Pinheiros, não consegui passar pela calçada da rua Ferreira de Araújo. Estava cheia de carros, ali estacionados – e estacionar carro em cima da calçada é ilegal – pelo pessoal do Zapark.

Era quase impossível caminhar na calçada, com os carros ali. Como qualquer cidadão, pensei em voz alta “nossa que total desrespeito com o pedestre”. Uma funcionária do estacionamento ouviu, me perguntou se era cliente e quando soube que não, disse que eu estava numa propriedade privada e que não tinha o que reclamar. Fui até o gerente do estacionamento para reclamar do abuso contra os pedestres. Eram 21h30. Quem falou comigo foi o senhor Eduardo, proprietário do local.

Assim que soube que eu não era cliente do seu estacionamento, ele começou a me agredir verbalmente, isso sem que eu jamais tivesse alterado minha voz. O senhor Eduardo disse que o estacionamento era uma propriedade particular e eu não poderia entrar nele. Aqui explico: todos os pedestres usam o estacionamento como passagem para a rua de trás, onde trabalho numa editora. Eu havia atravessado essa passagem, como sempre faço, mas quando reclamei com o sr. Eduardo me referia aos carros que estavam sobre a calçada. Mesmo que eu tivesse caminhando na calçada, vindo de outra direção, seria impedida pelos carros estacionados. O senhor Eduardo não quis saber dos meus argumentos. E literalmente me enxotou dali.

Logo em seguida, zombou da minha forma física (estou 15 quilos acima do meu peso), perguntando se minha "largura” era demais para passar pelos carros na calçada. Eu respondi que sim. Aí, ele começou a me humilhar na frente de todo mundo, principalmente de seus funcionários. Novamente, o senhor Eduardo ordenou, aos berros, que eu me retirasse imediatamente, utilizando-se da frase “sai de minha propriedade, sua gorda preta, ou eu mesmo expulso você”.

Sinceramente, eu não estava acreditando naquela situação. Chamada de preta gorda por uma pessoa que nem conheço, a quem não fiz nada e que ainda por cima estava errada. Fiquei meio anestesiada e só sabia dizer que ia reclamar aos jornais. Ao me ver do lado de fora do estacionamento anotando o nome exato do local, o senhor Eduardo chamou dois policiais, dizendo que queria fazer um boletim de ocorrência porque eu havia invadido a propriedade dele e estava atrapalhando seu serviço. Era, claramente, uma tentativa de me intimidar.

Concordei na hora em ir para a delegacia fazer o BO. Ele recuou dizendo que só poderia sair do local por volta de 1 da manhã. Mas eu fui à delegacia, acompanhada de dois policiais, numa viatura. Chegando lá, na 14ª DP de Pinheiros, o delegado, dr. Cléber, me orientou a não fazer o BO e disse que era melhor eu esquecer a história, pois eu não tinha testemunhas. Todas as pessoas que viram o ocorrido eram funcionários do estacionamento. Também falou que mexer nessa história só me traria dor de cabeça e que ela provavelmente se viraria contra mim.

Eu até já tinha desistido dessa história, embora me sentisse extremamente ofendida. Mas hoje, dia 23/09, ao passar do lado de fora do estacionamento – é o meu caminho para o trabalho – alguns funcionários do ZAPARK começaram a zombar de mim, gritando em minha direção. Dessa vez, tenho três testemunhas e, assim, farei um BO. Não quero ser humilhada. Acredito que, como qualquer pessoa, tenho o direito de transitar tranqüilamente pela rua Ferreira de Araújo ou por qualquer outra rua de São Paulo sem sofrer agressões verbais. E ninguém tem o direito de agredir outra pessoa de forma racista, usando palavras como preta gorda. Isso é crime, assim como é ilegal estacionar carros em cima da calçada. E isso tem de acabar.

Kathia N. Gomes é jornalista, natural de Vitória, Espírito Santo.

Revista Consultor Jurídico, 24 de setembro de 2004

Comentários

Comentários de leitores: 9 comentários

25/09/2004 01:08 Paolillo, Sidney (Advogado Associado a Escritório)
Não há que se admitir sob nenhum pretexto a per...
Não há que se admitir sob nenhum pretexto a permanência do preconceito no meio social, posto que atitude abjeta atentatória à dignidade humana, valor que deve ser protegido por qualquer povo que se queira dizer civilizado. Somente a atitude firme e decidida, fazendo valer a lei, afastará por definitivo essa mentalidade conspurcada e com a qual não se pode ser leniente. Além de disposições constitucionais regrando a matéria temos lei específica, Lei 7.716, de 05/01/1989, que com a redação dada pela Lei 9.459/97, estabelece em seu artigo 20 que estão sujeitos à pena de reclusão de 1 a 3 anos e multa todo aquele que praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. É direito da ora vítima e dever da autoridade policial dar curso ao competente procedimento, ofertando ao Ministério Público o respectivo inquérito policial, apurado com o rigor que se espera em tais inadmissíveis ocorrências. À vitima, senhora Kathia, nossa solidariedade e a certeza de que somente o efetivo exercício da cidadania, sem temores de nenhuma espécie, trará nossa evolução enquanto sociedade.
24/09/2004 18:50 Kathia Natalie ()
Obrigada a todos pelas mensagens. Só gostaria d...
Obrigada a todos pelas mensagens. Só gostaria de lembrá-los que não é nada fácil me expor dessa forma. É lógico que tenho medo. Não sou corajosa, apenas não dá para engoli certas atitudes. Pensei muito (mesmo) antes de tomar essa atitude e só fiz o BO (ontem, dia 23) ao ver que até os funcionários tomaram a liberdade de zombar de mim. Minha versão é verdadeira, foi contada para os policiais e na frente do Sr. Eduardo. E tenho três amigas que, ao passarem comigo pela calçada em frente ao estacionamento no dia 23, testemunharam os berros e as gargalhadas dos funcionários em minha direção. Novamente, valeu pelas mensagens, sem exceções.
24/09/2004 18:17 Fred Ram ()
Bem Kathia, apenas posso deixar meus parabéns a...
Bem Kathia, apenas posso deixar meus parabéns a você, não somente pela decisão de levar a diante a manifestação preconceituosa desse cara, mas também pelo seu relato no começo, no qual você fala que nunca se sentiu diferente nem humilhada por ser negra, ou melhor, mulata...........é isso aí garota, você falou tudo, mostrou da forma mais clara que todos somos iguais, não somente pela constituição mas também pela vida, por tudo!!!!!!!!!! porém, sei que nada justifica à atitude desse homem, mas como diria meu saudoso avô, quem procura acha!!!!! e na minha opinião, a nobre colega, procurou encrenca, pois não deveria ter passado por dentro do estacionamento, que de fato é um lugar privado, e sendo assim tem mesmo que ser reservado aos seus clientes e funcionários, bem como não deveria ter ido tirar satisfação com o sujeito, ora, ninguém gosta de ser importunado no seu ambiente de trabalho, ainda mais por alguém que nem freguês do local é..................sei que mesmo assim nada justifica a estupidez deste camarada, mas podemos levar em consideração, o estresse do dia-dia, a "encheção de saco" que ele deve sofrer neste serviço, juntando tudo isso, o cara acaba por desferir comentários e grosseria como estas, apenas como uma forma de desabafo, ou seja, o indivíduo age meio que instintivamente. Não estou dizendo que foi isso que aconteceu, mas tal situação deve ser lavada em conta, pois estamos vendo apenas o lado de uma das partes, sem verificar o que realmente aconteceu, no mais gostaria de elucidar mais uma vez minha opinião, acho que todo e qualquer tipo de preconceito deve ser ostilizado e punido, mas não devemos fugir da realidade, temos realmente que sermos condizentes com a veracidade dos fatos, e caso realmente esta versão (dita pela kathia) seja a verdadeira, afirmo que ela está no caminho certo, deve mesmo tocar isso a diante.

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