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Sob suspeita

Juiz determina busca e apreensão em escritórios do PSDB em MT

O juiz Julier Sebastião da Silva, da 1ª Vara Federal de Mato Grosso, determinou a busca e apreensão de qualquer material -- agendas, anotações, armas, equipamentos eletrônicos, computadores -- nos escritórios do PSDB no estado, capaz de comprovar que membros do comitê financeiro do partido efetuaram transações com a Vip Factoring durante o período de campanha eleitoral de 2002. A medida atende a pedido do Ministério Público Federal.

A Vip pertence ao empresário e ex-policial João Arcanjo Ribeiro, conhecido como "Comendador", condenado a 37 anos de reclusão por crimes contra o sistema financeiro e lavagem de dinheiro. Arcanjo está preso no Uruguai.

Consta do pedido de busca e apreensão que laudo pericial feito em computadores de Arcanjo mostraram que, entre os meses de agosto a outubro de 2002, foram movimentados R$ 240 mil entre o comitê financeiro do PSDB em Mato Grosso e a Vip Factoring.

Segundo o juiz, o laudo mostra que as transações foram feitas "utilizando-se de cheques de doadores para as campanhas do Senador Antero Paes de Barros ao Governo do Estado e de Dante Martins de Oliveira ao Senado Federal".

Para Julier, "as operações retratadas no laudo citado configuram, em tese, crimes contra o sistema financeiro, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha por parte dos membros do Comitê Financeiro do PSDB Estadual e de João Arcanjo Ribeiro, sem prejuízo das implicações delitivas eleitorais pertinentes".

A Polícia Federal está cumprindo o mandado de busca de apreensão nesta quinta-feira (16/9), no escritório político do ex-governador Dante de Oliveira, no edifício American Center, na Avenida do CPA; no Diretório Regional do PSDB e na residência de Dante de Oliveira.

O senador Antero Paes de Barros, também do PSDB de Mato Grosso, tentou desqualificar a decisão de Julier. Afirmou que o juiz quer criar um fato político para evitar a vitória no primeiro turno do candidato tucano à Prefeitura de Cuiabá, o deputado federal Wilson Santos.

Para o senador, o juiz não agiu com isenção. "Neste caso, prevaleceu a questão partidária. O juiz usa de suas prerrogativas, com a toga e a estrela do PT, para tentar alterar o resultado eleitoral e levar as eleições em Cuiabá para o segundo turno".

Leia a determinação:

PROCESSO: 2004.36.00.008251-1

BUSCA E APREENSÃO

REQUERENTE: MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL

DECISÃO

Trata-se de pedido de BUSCAS E APREENSÕES, formulado pelo MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL, a serem efetuadas em endereços referentes aos escritórios e residências dos dirigentes do PARTIDO DA SOCIAL DEMOCRACIA BRASILEIRA - PSDB.

Fundamenta o pleito no Laudo de Exame em mídia de armazenamento computacional efetuado no HD tipo SCI, marca Quantum modelo Atlas V, número de série 141109654500, apreendido na “VIP FACTORING”, por ocasião do cumprimento de mandado de busca e apreensão realizada naquele local na operação “Arca de Noé”, com vistas a apurar possível prática de delitos contra o sistema financeiro, lavagem de dinheiro e organização criminosa, por parte de João Arcanjo Ribeiro.

Do Laudo constou um arquivo contendo os nomes dos cedentes de títulos de crédito para a referida factoring, bem como as informações pertinentes às operações realizadas com aqueles, dentre os quais evidenciou-se o Comitê Financeiro Único Estadual do PARTIDO DA SOCIAL DEMOCRACIA BRASILEIRA - PSDB, sendo ainda discriminado na lista que a movimentação ocorreu nos meses de agosto a novembro de 2002, período que precedia ao pleito eleitoral para governador e senador. Prossegue ainda o MPF aduzindo que no Laudo Pericial consta o importe de R$240.000,00, a favor do referido Comitê. Esta situação estaria a denotar fortes indícios de prática de crimes contra o sistema financeiro e/ou de abuso do poder econômico durante as eleições.

Segundo o MPF, acrescem a estes fatos, situações já evidenciadas na sentença exarada no processo 2003.36.00.008505-4, na qual João Arcanjo Ribeiro foi condenado a trinta e sete (37) anos de reclusão.

DECIDO.

No processo 2003.36.00.008505-4, comprovou-se que João Arcanjo Ribeiro, conhecido pela alcunha de “Comendador”, operava factorings no Estado de Mato Grosso como se bancos fossem, sem que detivesse qualquer autorização do Banco Central para essas operações financeiras. Ainda, comprovou-se a materialidade de outros crimes capitulados na Lei dos Crimes contra o Sistema Financeiro, lavagem de dinheiro e formação de organização criminosa, resultando na condenação do referido Acusado à pena de 37 de anos de reclusão, bem como de outros participantes do esquema delitivo.

Dentre as várias constatações presentes no processo acima destacado, provou-se que a Assembléia Legislativa do Estado de Mato Grosso aportou quase oitenta e um milhões de reais nas factorings do Comendador, contando para essa transferência com a colaboração do Executivo Estadual, à época comandado por Dante Martins de Oliveira. Ainda, o Departamento de Viação e Obras Públicas do Estado, no mesmo período analisado pelo Banco Central do Brasil, depositou nas contas das factorings da organização criminosa cerca de nove milhões de reais. Mais, o ex-secretário de segurança pública, Hilário Mozer Neto, depositou quase um milhão e meio de reais nos cofres de Arcanjo, recebendo, por outro lado, cerca de duzentos e cinqüenta mil reais, além de figurar como presidente da empresa “off shore” uruguaia Gamza S/A, que tem capital social de aproximadamente dezesseis milhões de dólares e também pertence ao Comendador.

Continuando as coincidências, a empresa AMPER - Construções Elétricas Ltda, de propriedade de Armando Martins, irmão de Dante de Oliveira, movimentou a quantia superior a seis milhões de reais, entre créditos e débitos, na factoring do Comendador, além de ter sido beneficiária de empréstimos aparentemente fraudulentos obtidos no Uruguai, para os quais contou com a participação como avalista e agente da operação de João Arcanjo Ribeiro e de sua empresa off shore uruguaia Aveyron S/A, utilizada no esquema de lavagem de dinheiro patrocinado pela quadrilha. Por fim, inúmeros outros ex-secretários estaduais realizaram operações também marcadas pela suspeição. Por óbvio, determinou este Juízo a instauração dos inquéritos policiais competentes.

Eis que, recentemente, noticia a Polícia Federal, através de laudo pertinente a computador apreendido na sede da Vip Factoring, de propriedade João Arcanjo Ribeiro, que o Comitê Financeiro Único Estadual do Partido da Social Democracia Brasileira - PSDB realizou uma quantidade razoável de operações financeiras com a referida factoring durante o período de agosto a outubro de 2002, utilizando-se de cheques de doadores para as campanhas do Senador Antero Paes de Barros ao Governo do Estado e de Dante Martins de Oliveira ao Senado Federal. A movimentação totaliza o valor de R$ 240.000,00 (duzentos e quarenta mil reais), distribuído em mais de oitenta cheques.

As operações retratadas no laudo citado configuram, em tese, crimes contra o sistema financeiro, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha por parte dos membros do Comitê Financeiro do PSDB Estadual e de João Arcanjo Ribeiro, sem prejuízo das implicações delitivas eleitorais pertinentes. Demonstram ainda uma relação profunda e recheada de dinheiro entre membros do PSDB e a organização criminosa capitaneada pelo Comendador.

O artigo 240, parágrafo 1º, “e”, do Código de Processo Penal, autoriza, por sua vez, a busca e apreensão de objetos necessários à prova de infração, sendo certo que o caso em comento esteja compreendido pela hipótese legal citada, autorizando, assim, o acolhimento do pleito inicial.

DISPOSITIVO

Com efeito, AUTORIZO a busca e apreensão requerida, que deverá ser cumprida por agentes da Polícia Federal deste Estado nos endereços contidos na inicial, no intuito de se apreender documentos, materiais, agendas, anotações, equipamentos eletrônicos, computadores, armas e outros bens capazes de comprovar a prática ilegal, observando-se em sua execução o dispositivo acima mencionado e ainda as cautelas contidas nos artigos 245 do CPP e 5º, XI, da Constituição Federal.

Expeça-se o competente mandado.

Determino ainda a competente instauração de inquérito policial para investigar o presente fato. Oficie-se à Superintendência da Polícia Federal neste Estado.

Oficie-se ao Procurador Regional Eleitoral para a apuração dos eventuais crimes eleitorais existentes.

Intime-se.

Cuiabá, 15 de setembro de 2004.

JULIER SEBASTIÃO DA SILVA

Juiz Federal da 1ª Vara/MT

Revista Consultor Jurídico, 16 de setembro de 2004, 16h43

Comentários de leitores

2 comentários

CONCORDO COM A DECISÃO DO MAGISTRADO , DEVE ...

Manoel Peres Esteves ()

CONCORDO COM A DECISÃO DO MAGISTRADO , DEVE TER RIGOR E CORAGEM PARA SE COMBATER O CRIME ORGANIZADO , ALÉM DO QUE O MAGISTRADO , PRESUMO , DEVE TER RECEBIDO INDÍCIOS FORTES , ASSIM DEVE AGIR COM A SUA LIVRE CONVICÇÃO NA BUSCA DA VERDADE REAL . CASO SE CONFIRMEM VERDADEIRAS AS ACUSAÇÕES , É LAMENTÁVEL O CONLUIO DE AUTORIDADES COM O CRIME ORGANIZADO QUE MATA UM JORNALISTA QUE DESVENDA COM O USO DO JORNALISMO INVESTIGATIVO TODA A VERDADE DESTA PODRIDÃO . RESSALTO E LEMBRO , QUE OS MAGISTRADOS SÃO IMPEDIDOS DE TERM FILIAÇÃO PARTIDÁRIA , INCLUSIVE PESSOALMENTE DEFENDO QUE APÓS A INATIVIDADE DOS MESMOS , POR APOSENTADORIA , DEVERIAM SER IMPEDIDOS DE FILIAÇÃO PARTIDÁRIA E O EXERCÍCIO DA ADVOCACIA EM QUALQUER ESFERA E , QUE DEVMOS CONFIAR NA MAGISTRATURA NACIONAL . MANOEL PERES ESTEVES advmpe@aasp.org.br ADVOGADO TRABALHISTA CANANÉIA - LITORAL SUL PAULISTA - VALE DO RIBEIRA

Estamos diante de mais um dos muitos casos clás...

Jose Wagner de Oliveira Braga (Advogado Autônomo - Civil)

Estamos diante de mais um dos muitos casos clássicos de Narcose narcisica combinada com o iluminismo cinico, ou seja, vazaram uma informação da CPI do Banestado, evidentemente a fonte é anonima, o promotor querendo promover-se peticiona ao juiz fundamentado nessa fonte e o juiz acata. Lamentavel o ponto que o judiciario consegue descer. E o pior é que pode ficar pior.

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