Notícias
9 novembro 2004
Outra na trave
Turma do STF nega Habeas Corpus para o juiz Rocha Mattos
A 2ª Turma do Supremo Tribunal Federal negou pedido de liminar em Habeas Corpus ajuizado pelo juiz João Carlos da Rocha Mattos. Ele é acusado de crimes de falsidade ideológica, peculato, prevaricação, corrupção passiva e formação de quadrilha.
O relator Joaquim Barbosa rejeitou todos os argumentos apresentados pela defesa de Rocha Mattos. Repeliu a alegação de que o Tribunal Regional Federal da 3ª Região é incompetente para julgar Rocha Mattos. Para os advogados, a suposta participação de um subprocurador-geral da República nos fatos investigados implica na competência originária do Superior Tribunal de Justiça.
Segundo o ministro, no entanto, a necessidade ou não de um único processo perante o STJ só deverá ser discutida se, eventualmente, for oferecida denúncia contra o subprocurador. Barbosa também rejeitou a alegação de que houve violação do devido processo legal em decorrência do desmembramento dos fatos apurados na Operação Anaconda, com o oferecimento de diversas denúncias e não uma única peça acusatória. Para ele, a reunião de feitos por força de conexão nem sempre é obrigatória.
Barbosa afirmou que o artigo 80 do Código de Processo Penal abranda o artigo 79, que determina como regra geral um único processo para fatos conexos. O artigo 80 dispõe que "será facultativa a separação dos processos quando tiverem sido praticadas em circunstâncias de tempo ou de lugar diferentes ou quando, pelo excessivo número de acusados, e para não prolongar a prisão preventiva, ou por outro motivo relevante, o juiz reputar conveniente a separação".
O ministro rejeitou, ainda, a tese do juiz federal de violação ao princípio da ampla defesa, por ele ter sido impedido de presenciar a sessão do TRF que recebeu sua denúncia. De acordo com Barbosa, não há nos autos qualquer peça de informação que comprove a veracidade dessa alegação. "A rigor, os únicos documentos referentes ao registro da sessão são a certidão de julgamento, o relatório e o voto da desembargadora-relatora", disse. Ele salientou que a sessão contou com a presença da defesa do réu, que inclusive fez sustentação oral.
A parcialidade da relatora da ação penal no TRF, que, segundo a defesa, teria prejulgado a denúncia, foi igualmente refutada por Barbosa, para quem o extenso voto da relatora é plenamente justificável tendo em vista a pluralidade de denunciados.
Barbosa entendeu, ainda, que a limitação do prazo para a realização das interceptações telefônicas, que de acordo com os advogados, excedeu o previsto no artigo 5ª da Lei 9.296, não constitui obstáculo à renovação do pedido de interceptação por mais de uma vez. Afirmou que há interpretação do STF sobre o assunto. De acordo com a lei, o limite de duração para a interceptação é de 15 dias, prorrogável uma única vez por igual período.
Segundo o ministro, a questão deve ser examinada sob o ângulo da razoabilidade. "Uma autorização judicial com o restrito prazo de 30 dias não teria qualquer efetividade em nosso país. Em primeiro lugar porque existe todo um trâmite a ser superado, a fim de que a decisão judicial seja cumprida a contento. Além disso, deve-se levar em consideração que as interceptações telefônicas foram autorizadas para investigação de organização criminosa extremamente complexa que envolve, entre outros, magistrados e policiais federais", afirmou.
A alegação ilegalidade da prisão preventiva de Rocha Mattos, que estaria baseada "apenas no clamor popular", sem que existam fatos concretos que autorizem sua custódia, também foi rejeitada pelo ministro. Com relação à necessidade de prisão, Barbosa destacou dois fatos. A apreensão, na residência da ex-mulher do juiz federal, de quantia superior a US$ 500 mil, "o que lhe possibilitaria, além de corromper autoridades e testemunhas, a tranqüila fuga do País" e o fato de que o juiz determinou a destruição de provas de fatos correlatos à sua atuação na qualidade de magistrado federal.
Por fim, o ministro negou o pedido de transferência do juiz para outro local, tendo em vista sua prerrogativa de ser recolhido apenas em prisão especial. De fato, disse Joaquim Barbosa, a Lei Orgânica da Magistratura (Loman) assim determina. No entanto, salientou, esse pedido não foi apreciado pelo STJ, de forma que o seu julgamento pelo STF implicaria em supressão de instância jurisdicional.
Rocha Mattos foi preso durante a Operação Anaconda, que aconteceu no ano passado. Ele foi denunciado pelo Ministério Público Federal. Em janeiro deste ano, o então presidente do STF, ministro Maurício Corrêa, indeferiu liminar na Ação Originária em que o juiz pediu a revogação da sua prisão preventiva.
Em setembro deste ano, o Plenário do STF confirmou uma decisão do ministro Joaquim Barbosa que arquivou Habeas Corpus impetrado em defesa de Rocha Mattos. A defesa contestava a prisão preventiva do juiz, determinada pelo Tribunal de Regional Federal da 3ª Região.
Revista Consultor Jurídico, 9 de novembro de 2004
Arquivo
Leia também: Textos relacionados
- 25/10/2004 Acusados na Anaconda têm até quinta para apresentar defesa
- 22/10/2004 STJ considera legal grampo telefônico feito na Anaconda
- 21/10/2004 MPF pede condenação de juízes, advogados e delegados
- 30/09/2004 Supremo mantém prisão preventiva do juiz Rocha Mattos
- 30/09/2004 STF arquiva pedido de investigado pela Operação Anaconda
- 30/09/2004 MPF encerra esta semana primeira fase da Operação Anaconda
- 14/09/2004 Rocha Mattos pede para aguardar julgamento em liberdade
- 13/09/2004 Investigação brasileira repete a história do caso Dreyfus
- 27/07/2004 Juiz quer voltar para a Superintendência da PF em SP
- 20/06/2004 TRF decidiu afastar Rocha Mattos mais uma vez
- 15/06/2004 Condição de Rocha Mattos beira a morbidez, afirma advogada.
- 09/06/2004 Procuradores reagem à reportagem da IstoÉ sobre Anaconda
- 08/06/2004 Reportagem da IstoÉ aponta falha nas investigações
- 27/04/2004 STJ mantém prisão de Rocha Mattos em decisão unânime
- 22/04/2004 Juiz diz que está em condições subumanas de tratamento
- 17/03/2004 STJ nega transferência a Norma Regina Cunha
- 12/03/2004 STJ nega liminar para o juiz Rocha Mattos
- 23/02/2004 Leia explicações de Rocha Mattos sobre casos Anaconda e PT
- 05/02/2004 'Mídia julgou, condenou e aplicou pena na Anaconda.'
- 04/02/2004 Saiba como funcionava organização criminosa de juiz
- 02/02/2004 O uso banal de grampos telefônicos no Brasil e a Anaconda.
- 30/01/2004 Rocha Mattos lista nomes de delegados e agentes da PF
- 30/01/2004 Rocha Mattos promete apontar juízes, policiais e advogados.
- 29/01/2004 Norma Regina não consegue ser transferida para São Paulo
- 27/01/2004 Nilson Naves nega liminar para Rocha Mattos
- 22/01/2004 STJ recebe informações sobre prisão de Norma Cunha
- 20/01/2004 Nilson Naves nega liminar à ex-mulher do juiz Rocha Mattos
- 16/01/2004 Rocha Mattos não consegue revogar prisão preventiva
- 14/01/2004 Ex-mulher de Rocha Mattos pede novo habeas corpus ao STJ
- 13/01/2004 Juiz Rocha Mattos pede ao Supremo para sair da prisão
- 06/01/2004 Naves pede mais informações sobre ex-mulher de Rocha Mattos
- 05/01/2004 Decisões de investigados na Anaconda não foram questionadas
- 19/12/2003 TRF-3 recebe por unanimidade denúncia contra 12 investigados
- 19/12/2003 Rocha Mattos não consegue trancar procedimento criminal
- 10/12/2003 STJ nega outro HC à ex-mulher do juiz Rocha Mattos
- 05/12/2003 Defesa de Norma Regina pede arquivamento de HC ao STJ
- 04/12/2003 Operação agora quer pegar autoridades estaduais
- 03/12/2003 Delegados da Anaconda criticam MPF. Procuradoras respondem.
- 25/11/2003 Norma Cunha alega que denúncia não indica fatos concretos
- 20/11/2003 Operação Anaconda investiga chinês da rua 25 de Março
- 19/11/2003 Conheça os carros milionários de investigados na Anaconda
- 18/11/2003 Anaconda: Bellini ameaçou filho de Rocha Mattos.
- 18/11/2003 Leia trechos da denúncia feita na Operação Anaconda
- 16/11/2003 Conheça o relatório de 19 das gravações da Operação Anaconda
- 15/11/2003 Leia o Relatório que gerou as prisões na Operação Anaconda
- 11/11/2003 Parentes de juiz serão investigados pela Polícia Federal
- 11/11/2003 Em mãos de jornalistas, dossiês poderiam ser letais.
- 07/11/2003 Polícia Federal detém juiz João Carlos da Rocha Mattos
- 06/11/2003 Rocha Mattos envolve escritório de advocacia e leva o troco
- 04/11/2003 Operação Anaconda não faz bem algum à magistratura
- 03/11/2003 Operação Anaconda começou com denúncia anônima em Alagoas
- 01/11/2003 Delegados federais protestam contra Operação Anaconda em SP
- 30/10/2003 Advogados, ex-mulher de juiz e delegados são presos em SP.
Comentários
Comentários de leitores: 0 comentários
A seção de comentários deste texto foi encerrada em 17/11/2004.