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Juíza de motocicleta

Carreira da juíza Fabíola Bernardi foi marcada pela determinação

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Nos cinemas, mais uma bela obra dirigida por Walter Salles. Depois de espelhar a pobreza brasileira em "Central do Brasil", com "Diários de Motocicleta" ele reconstrói os nossos laços com a miséria latino-americana. E fala de generosidade e de amor, sentimentos que colocaram Ernesto (o imortal Che) e Alberto em cima de uma motocicleta, numa viagem ao mundo dos esquecidos, dos "invisíveis".

Ontem à noite, numa fria sexta-feira brasiliense, enquanto assistia ao filme, e chorava, ainda não sabia que hoje também seria dia de lágrimas. Na floresta amazônica, a juíza federal Fabíola Bernardi encerrava, num desastre aéreo, a sua viagem de motocicleta pela vida. Conheci Fabíola há alguns anos.

Ficamos mais próximos quando ela veio para o Juizado Especial Federal de Brasília, por mim coordenado. Fabíola era determinada, franca, alegre. Fazia questão de assinar todos os despachos, mesmo os que poderiam ser feitos "de ordem" pela Secretaria, pois dizia que queria conhecer todos os processos. Insistia em fazer audiências, porque achava essencial o contato com as partes, para daí extrair a melhor decisão. Não se importava se isso daria mais trabalho, pois amava o trabalho. Indignava-se em ver o Estado negando direitos aos cidadãos.

Um dia entrou na minha sala: "Flávio, vou pedir remoção para Tabatinga (fronteira com a Colômbia). Fabíola, você não está feliz aqui? Estou ótima, mas lá em Tabatinga tem mais pobres, lá me sentirei mais útil". Abracei-a, despedimo-nos, ela pegou sua motocicleta e foi. Ainda nos falamos mais uma vez por telefone.

Um amigo me ofereceu uma audiência com o ministro da Defesa, para discutir parcerias em Tabatinga. Liguei para ela e ouvi: "Flávio, gostaria de apoio do Exército para fazer Juizados Itinerantes nas cidades da Amazônia". E assim foi, espontânea e generosamente, ser juíza onde a pobreza brasileira faz fronteira com a latino-americana.

No filme de Walter Salles, numa das cenas mais emocionantes, Che Guevara atravessa a nado um rio profundo, um rio que ninguém havia atravessado daquele modo, o rio que mantinha segregados os portadores de hanseníase em uma cidade amazônica. Cinqüenta anos depois, a seu modo e com suas motivações, Fabíola se jogou ao rio e atravessou. Está feliz, na nova etapa de sua viagem.

No Juizado de Brasília, a sala que recebe as pessoas pobres, que não podem pagar advogados, será chamada de "Juíza Fabíola Bernardi", um exemplo para os demais juízes federais do Brasil.

 ex-juiz federal, ex-presidente da Ajufe e deputado federal eleito pelo PCdoB do Maranhão.

Revista Consultor Jurídico, 15 de maio de 2004, 18h31

Comentários de leitores

4 comentários

Realmente, em minha labuta diária, em Belém do ...

MARCOS EIRÓ (Advogado Sócio de Escritório)

Realmente, em minha labuta diária, em Belém do Pará, pude um dia conhecer a Dra. FABIOLA BERNARDI, que logo no primeiro impacto ao longo de uma audiência, notei nitidamente que já se destacava, quer pela sua Competência, quer pelo seu jeito humilde de ser. Em que pese não ter grande proximidade ou contatos diários, ao ler na internet a relação das vítimas fatais no acidente aéreo, notei que ali estava a Dra. FABIOLA, pois todas essas atitudes acima reportadas, fizeram com que gravasse tão nitidamente seu nome. Agora, não tenho dúvida de que ELA ficou marcada nos acervos da Justiça Brasileira, entrou para a história, pois na manhã de hoje (17.05.04), em Belém, no Teatro Maria Silvia Nunes, o Exmo. Presidente do Colendo TRIBUNAL SUPERIOR DE JUSTIÇA, Dr. EDSON VIDIGAL, ao ABRIR o VI SEMINÁRIO INTERNACIONAL DE DIREITO AMBIENTAL, prestou, em conjunto com todos os presentes, enorme homenagem à falecida Magistrada, dizendo que a mesma de forma espontânea foi quem se colocou à disposição para sair de BRASÍLIA para TABATINGA e que essa atitude fez com que ele, O Ministro EDSON VIDIGAL a conhecesse hoje, justamente porque a Magistrada estaria participando deste Seminário em Belém, se não fosse a tragédia em que ceifou sua vida prematuramente. Participaram desta cerimônia várias autoridades, dentre os quais o Exmo. Governador do Estado do Pará, Dr. SIMÃO JATENE, e fizemos UM MINUTO DE SILÊNCIO EM INTENÇÃO DE SUA ALMA. Que Deus a tenha ! MARCOS EIRÓ - ADVOGADO - BELÉM-PARÁ

Os despachos da Dra. Fabiola escritos a mão era...

Lino de Carvalho Cavalcante ()

Os despachos da Dra. Fabiola escritos a mão era sua característica pessoal; eles engrandeciam o processo, pois ali havia a manifestação intima do juiz. De inicio fiquei surpreso com aquele modo de agir, mas depois compreendi que ali residia o trabalho do verdadeiro juiz, pois oferecia, também, a oportunidade de contesta-los; não era posições vazias, mas despachos substanciais, consistentes e sólidos. Quantos vezes fui ao seu gabinete com novos argumentos e ela sensatamente justificava suas posições. Quando ela decidiu ir para o norte, nós, militantes do juizado de Brasília, ficamos surpresos! Como ela deixava a Capital Federal para se embrenhar nas matas amazônicas! Mas compreendi, pois ela seu modo de ser; ela não almejava a gloria e as honras, mas somente o triunfo da justiça e ali na selva ela entendeu que poderia aplicar a justiça.

Realmente nosso país sofre com perdas precoces ...

Silvio Bezerra da Silva ()

Realmente nosso país sofre com perdas precoces de brasileiros que desejam ver esta Nação mais humanizada e equilibrada social e economicamente. Grande perda esta!!

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