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Lixo na TV

Programa polêmico de Gugu mostrou falta de limites das emissoras

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O programa Domingo Legal, do SBT, do último dia 7 de setembro, apresentando entrevista com supostos integrantes da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) foi uma das maiores barbaridades já exibidas pela televisão brasileira. Por mais que já tenhamos tido oportunidade de assistir a apelações grotescas de todos os tipos, nada se compara à execrável idéia de contratar atores que, encapuzados, proferiram declarações falsas em nome de criminosos extremamente perigosos, ameaçando de morte jornalistas e apresentadores de emissoras concorrentes, exibindo armas de fogo e fazendo apologia do crime.

A população já se encontra suficientemente enojada da baixaria televisiva, pensava-se que o fundo do poço havia sido alcançado, mas, surpreendentemente, o programa de Gugu Liberato conseguiu superar todas as iniciativas anteriores. Promoveu a astros os supostos membros de um grupo de criminosos responsável por numerosos assassinatos, assaltos, seqüestros, além do tráfico de drogas. Emprestou-lhes prestígio e respeito, acendeu-lhes os holofotes do horário nobre, fez-lhes reverências achincalhando a ordem pública e, implicitamente, reconheceu que o Brasil é terra de ninguém. Terra em que facínoras fazem ameaças de morte pela televisão e são prestigiados.

É claro, foi uma farsa, mas isso não afeta a idéia essencial do programa: angariar audiência dando voz ao crime organizado, incitando a violência, exibindo a pior faceta da nossa sofrida sociedade.

As pessoas ameaçadas falsamente, agora estão verdadeiramente ameaçadas. Algumas contrataram seguranças e estão processando os responsáveis pelo Domingo Legal por esse transtorno em suas vidas. Afinal, os meios de comunicação sugerem idéias (no caso, criminosas), mudam comportamentos, induzem à prática de atos de violência, criam novos valores. Como foi possível que tamanha irresponsabilidade fosse veiculada por uma emissora e por um apresentador experientes? A resposta é apenas uma: mandaram às favas os escrúpulos em nome do sensacionalismo gerador de audiência.

Quando percebeu a forte reação social ao abuso perpetrado, Gugu foi ao programa da Hebe Camargo e pediu desculpas. Não foi suficiente. A Justiça, instada pelo Ministério Público Federal, suspendeu o programa do domingo seguinte. O Ministério da Justiça recomendou a melhoria do conteúdo do Domingo Legal sob pena de mudar sua classificação, permitindo a exibição em horário noturno, apenas. Já a Promotoria de Justiça do Consumidor de São Paulo instaurou inquérito civil para apurar as responsabilidades. Além de tudo isso, está sendo investigada a ocorrência de delitos de incitação ou apologia ao crime e de ameaça, dentre outros.

O incidente deixou muito clara a falta de limites que se instalou nas emissoras de televisão, para as quais qualquer coisa vale, desde que chame a atenção e traga público. Quem sofre com isso são os telespectadores, submetidos a toda a sorte de especulações, doutrinações e mentiras.

O caso do Domingo Legal é muito grave porque não se limitou a mostrar cenas chocantes ou a explorar situações de violência, como fazem outros programas que acompanham atividades da Polícia e a prisão de criminosos, mas, simplesmente, criou um fato, falseou a verdade, deu informação mentirosa, enganou o público, promoveu o crime organizado.

Mesmo sabendo-se que a Constituição Federal proíbe a censura, algumas providências precisam ser tomadas para evitar que a irresponsabilidade prevaleça. A Justiça tem de atuar sempre que instada a decidir sobre abusos praticados nos meios de comunicação, punindo os transgressores e reparando, ainda que parcialmente, os danos causados às vítimas.

A televisão não tem de ser um lixo, que atinge os píncaros do horror nas tardes de domingo. Nossa população não merece tamanha desqualificação. Tratando-se de concessão do poder público, as emissoras têm de cumprir sua função social, que não se limita a informar e distrair, mas a formar, educar, instruir, levar nossa sociedade a uma condição melhor, mais saudável e pacificada.

Fazer lixo é fácil e pode trazer popularidade, além de ser barato, mas não vale a pena. Quanto ganharam os atores que fizeram o "papel" de membros do PCC? R$ 500,00 ou R$ 300,00? Uma TV milionária e um apresentador mais milionário ainda precisam fazer tanta economia?

Investir em programação de qualidade não pode ser apenas uma opção, tem de ser uma obrigação, imposta pelo mesmo governo que concedeu a licença para o funcionamento das emissoras. Caso contrário, vamos continuar sofrendo violações à nossa cidadania.

 é procuradora de Justiça do Ministério Público de São Paulo, autora de vários livros, dentre os quais “A paixão no banco dos réus” e “Matar ou morrer — o caso Euclides da Cunha”, ambos da editora Saraiva. Foi Secretária Nacional dos Direitos da Cidadania do Ministério da Justiça no governo FHC.

Revista Consultor Jurídico, 29 de setembro de 2003, 9h59

Comentários de leitores

8 comentários

A inquietante batalha das emissoras de TV pela ...

Diovani Machado Vieira ()

A inquietante batalha das emissoras de TV pela audiência em horários nobres, levam-nas a cometer ofensas grotescas a cidadões de bem comum, sem medir consequencias que as mesmas irão gerar, importanto-se apenas com o retorno financeiro que a denominada audiência vai proporcionar , em vez de prestar informações de educação e cultura para a população, exibem programas de baixo calão, onde o telespectador só quer " morte ","sexo" , " festa", concluindo é o que o povo quer ver...

Concordo plenamente com a ilustre Procuradora d...

M.R.M. (Advogado Sócio de Escritório)

Concordo plenamente com a ilustre Procuradora de Justiça. A sociedade espera que esta celeuma causada com a malsinada reportagem não termine como de costume em uma enorme "PIZZA".

Alguém já parou para pensar que a televisão só ...

Rodrigo Laranjo ()

Alguém já parou para pensar que a televisão só dá ao povo o que o povo quer? O problema então não é o que vem da TV, mas sim a ignorância popular que deseja assistir porcarias e dá audiência aos absurdos. Então a culpa é do "povo pobre" que quer ver besteira na TV? Também não. A culpa é minha e sua por não votarmos direito e não enxergarmos que "educação" é, pelo menos pra mim, a maior prioridade do Brasil. E não falo em ensinar a ler e fazer contas, falo da educação cultural. Se o povo não der mais audiência pro Gugu, Ratinho e João Kléber, eles perdem o emprego. Já pensou que bom seria? www.wibs.com.br

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