Consultor Jurídico

Notícias

Você leu 1 de 5 notícias liberadas no mês.
Faça seu CADASTRO GRATUITO e tenha acesso ilimitado.

Conclusão tardia

Wilson Simonal não delatou Gilberto Gil e Caetano durante ditadura

O cantor Wilson Simonal, que já morreu, é inocente da acusação de ter agido como alcagüete da polícia política, durante a ditadura militar no País. A conclusão é da Comissão Nacional de Direitos Humanos do Conselho Federal da OAB, depois de analisar um processo inédito aberto a pedido de amigos e familiares de Wilson Simonal.

Sucesso estrondoso, a carreira de Simonal entrou em rápido declínio no início da década de 70, ocasião em que o cantor foi acusado por alguns setores da imprensa de ter delatado colegas, dentre os quais Caetano Veloso e Gilberto Gil, aos órgãos de segurança.

Com a declaração de inocência, a Comissão da OAB considera desagravada a memória de Simonal, julgado sem que contra ele pesasse uma acusação formal e sem direito a defesa, conforme o devido processo legal. Pior, foi condenado pela opinião pública sem evidências que comprovassem as acusações. A última reunião sobre o assunto foi feita no dia 14 de setembro e contou com a presença do filho de Simonal, o compositor e também cantor Simoninha, e da advogada da família, Joice Ruiz.

O processo foi iniciado em janeiro de 2002. Amigos e familiares pediram providências para a reabilitação moral de Wilson Simonal, se depois de analisada a matéria se constatasse sua inocência. "A Comissão não é um tribunal para decidir sobre a questão formulada, mas proferiu sua conclusão baseada na força moral da OAB, entidade à qual se vincula", explicou o conselheiro federal Rogério Portanova (SC).

O relator da matéria no âmbito da Comissão Nacional de Direitos Humanos da OAB, o advogado Antônio Ribeiro Romanelli, explicou que a primeira preocupação foi obter o maior número possível de informações. Com base em farto material de vídeo e jornais enviados pela família, elaborou-se uma lista com dezenas de nomes de pessoas que teriam algo a falar sobre o caso.

Foram enviadas mais de cem cartas, mas inicialmente houve resposta apenas do jornalista Everaldo Lopes e de João Bastos Santana (o requerente inicial do processo). A Comisão entendeu que precisava de mais manifestações e mandou nova remessa de cartas. Responderam: Chico Anysio, Miele, Ronnie Von, o produtor musical Cláudio Manoel Mascarenhas Pimentel e Jair Rodrigues.

"Só podia acusar Wilson Simonal de ter sido delator do SNI quem não o conhecia", escreveu Chico Anysio. "Eu até admito que, por absoluta ignorância política, Simonal aceitasse vir a ser o diretor Geral do SNI, mas ser um dedo duro, quem o conheceu sabe que ele jamais aceitaria ser". Para o comediante, Simonal "incomodava a uns tantos, que não suportavam ver aquele negro com a fita na cabeça, um suíngue absoluto, um ar de modéstia e ainda cantando olhando nos olhos das moças que brigavam por um lugar nas primeiras filas exatamente para serem olhadas por ele".

O jornal O Pasquim, que teve muito prestígio na época, especialmente entre os jovens, dedicou um número inteiro às supostas delações de Simonal, "Muito me entristeceu que o Jaguar, um humorista por profissão, tenha sido capaz de dizer esta frase: Hoje eu sei que ele sempre foi inocente, mas não me arrependo do que fizemos," relatou Chico Anysio.

Notícias de jornais dos anos 90, quando Simonal tentou retomar sua carreira, dão conta de fatos importantes, segundo o relator Antonio Romanelli. O Jornal da Tarde, em sua edição de 7 de maio de 1992, informava: "Os compositores e cantores Gilberto Gil e Caetano Veloso convieram sem qualquer problema com Wilson Simonal na época áurea da TV Record e nunca levaram a sério o que Gil chama de "teia de fofocas" em torno de Simonal. Não me lembro de qualquer episódio complicado ou embaraçoso com ele, para mim é uma surpresa saber que ele foi acusado de nos ter delatado. Eu me lembro do Randal Juliano. Várias reportagens da época o apontavam como denunciador. O estranho, com relação a Simonal, é que nenhum 'dedodurado' veio a público dizer que o delator era ele".

Do processo consta, ainda, documento de caráter oficial, assinado em janeiro de 1999 pelo então secretário de Estado de Direitos Humanos, José Gregori, afirmando que, realizada pesquisa nos arquivos dos órgãos federais, especialmente do SNI e do Centro de Inteligência do Exército, não foi encontrado nenhum registro de evidências que apontem Wilson Simonal como colaborador, servidor ou prestador de serviços, mesmo como informante, dos referidos órgãos, durante o regime de exceção vivido no País. Consta, ainda, no mesmo teor, uma certidão emitida pelo gabinete do ministro do Exército e assinada, por ordem, pelo general Carlos Pereira Gil. Por se tratar de um caso excepcional, será levado à apreciação final do Conselho Pleno da OAB, em data a ser definida. (OAB)

Revista Consultor Jurídico, 24 de setembro de 2003, 17h13

Comentários de leitores

0 comentários

Comentários encerrados em 02/10/2003.
A seção de comentários de cada texto é encerrada 7 dias após a data da sua publicação.