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Assassinato no shopping

Homicida passional mata para evitar o colapso de seu ego.

No dia 1º de setembro último, a jovem Camila Palini de Cacela Duarte, de 22 anos, foi morta pelo ex-namorado, Higor Aparecido Catidi, de 23, no seu local de trabalho, a loja C&A do Shopping Center Norte, na capital paulista. O crime aconteceu por volta das 21 horas, quando havia muitos clientes fazendo compras no local e causou pânico nas pessoas, que se empurravam e gritavam, algumas se jogando no chão para se proteger dos tiros.

O rapaz, após disparar a arma quatro vezes contra a moça, alvejou a própria cabeça, e morreu pouco tempo depois, no hospital. Camila faleceu na hora. Perplexa diante do acontecimento, nossa sociedade, mais uma vez, se pergunta porque alguém comete um ato desses, destruindo seu objeto de desejo, a si próprio e as famílias de ambos.

Segundo informações de amigos e parentes dos envolvidos, Camila havia rompido o namoro tumultuado, estava se encontrando com outro rapaz e Higor não se conformava. A moça decidira separar-se dele devido ao seu temperamento explosivo e excessivamente ciumento, que, conforme suas próprias palavras, a "sufocava".

Infelizmente, esse tipo de conduta masculina não é incomum, sendo reiterados os crimes passionais cometidos por maridos, namorados, ou ex-maridos e ex-namorados. No mesmo dia em que os jornais noticiaram a morte de Camila, foi também divulgado o assassinato de Sandra Cristina Souza, de 24 anos, pelo ex-namorado Antônio Gissi Tomaz, de 41 anos, em Santa Bárbara d'Oeste, interior de São Paulo, por causa de ciúme. E, no caso de Antônio, parece ser a segunda vez que ele mata sua companheira, pois está sendo acusado de ter assassinado Valquíria Alves da Rocha, de 28 anos, com quem fora casado e tinha dois filhos!

Ele matou a ex-namorada às vésperas do julgamento, pelo Tribunal do Júri, do homicídio anterior e pelo qual ele aguardava em liberdade. Antônio se entregou, confessando que matou a primeira mulher porque ela queria a separação e Sandra por havê-lo rejeitado e estar, possivelmente, grávida de outro homem, conforme informações veiculadas pela imprensa.

Além desses casos recentes, muitos outros homicídios passionais ocorreram em nosso país, como os praticados por Pimenta Neves, Doca Street, Lindomar Castilho, Igor Ferreira da Silva, Eduardo Gallo. Mesmo diante de tantas repetições de crimes praticados por ciúme, possessividade, vaidade, dominação e vingança, ainda é difícil compreender porque certos homens se acham no direito de tirar a vida de suas companheiras. Será assim tão grande a incapacidade masculina de suportar a rejeição? A imagem social de "homem preterido", trocado por outro, seria também motivo do delito?

Ninguém mata por amor, evidentemente. Houve quem comparasse o caso do shopping ao romance Romeu e Julieta, de Shakspeare, porque o agressor se matou após eliminar sua vítima, mas trata-se de um equívoco. A morte de Camila nada tem a ver com uma história de amor; é mais parecida com a peça Otelo, do mesmo dramaturgo inglês. O fato de Higor ter cometido suicídio é apenas uma faceta da sua dificuldade de lidar com a frustração amorosa, não uma demonstração de amor.

Luiz Ângelo Dourado, especializado em psicologia criminal, entende que o homicida passional é, acima de tudo, um narcisista. Ele passa a vida enamorado de si mesmo; elege a si próprio, ao invés de aos outros, como objeto de "amor". Não possui autocrítica e exige ser admirado, exaltado por suas qualidades. Não acontecendo assim, sente-se desprezado, morto, destruído, liquidado. Contra isso, luta com todas as armas, podendo até matar para evitar o colapso de seu ego.

É perigoso pensar no criminoso passional como uma espécie de herói, ou uma vítima do destino. Na verdade, ele nunca teve interesse real, sincero, pela parceira. Não soube amar, no sentido correto do termo.

Em regra, os homicídios entre parceiros ou ex-parceiros sexuais é premeditado. O assassino planeja detalhadamente sua ação e, quando chega o momento de matar, age de surpresa e friamente.

No passado, a Escola Positiva exaltou o "delinqüente por amor" -como se isso existisse - e o matador da própria mulher era visto com complacência, compaixão, até certa simpatia. Alguns foram absolvidos ao serem julgados pelo Tribunal do Júri, com base nos direitos superiores do homem sobre a mulher. A verdade, porém, é que assassinatos desse tipo não podem ser perdoados.

Não é possível assistirmos, impassíveis, às sucessivas demonstrações de violência passional que ocorreram ao longo da história de nosso país sem procurar as causas sociais do problema.

No caso do shopping, todos nós sentimos por Higor, um rapaz que estava em grave crise emocional, mas e Camila, como é possível que lhe tenha sido tirado o direito de escolher outro namorado e continuar vivendo?

Revista Consultor Jurídico, 15 de setembro de 2003, 12h45

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