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Região do Araguaia

"A reestruturação agrária na terra de ninguém."

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Bispos, posseiros, empresários e escritores vivem por lá. A posse de terras no Araguaia está vinculada à qualidade da terra, ao poder político, à força de vontade de crescer e principalmente ao sacrifício pelo progresso individual e coletivo. Hidrovia, estradas e energia podem alavancar uma região polêmica e estratégica ao desenvolvimento nacional assim como acontece a privatização da reforma agrária.

Desde tempos remotos, navegantes estrangeiros subiam o rio Araguaia fascinados pelas areias brancas, pela fartura de peixes e a possibilidade de encontrar riquezas naturais. Os índios, moradores das margens do rio, viam com curiosidade a passagem destes homens vestidos, calçados e armados de intenções distintas, muitas vezes nocivas e maléficas, apesar das boas palavras.

Os carajás, mais pacíficos, ficaram. Os xavantes, tapirapés, ava-canoeiros e outras tribos mais violentas, em defesa de suas culturas e de seus espaços sagrados, sucumbiram ou pouco restaram. O plantio de mandioca, a pesca e a caça continuam. Acabaram as festas tradicionais e as ocas gigantescas.

Há décadas, missionários estrangeiros em busca de catequizar e de outras informações andavam entre os chamados incivilizados. Escreveram os nomes indígenas com y, k e w. A ocupação da região deu-se de forma esparsa e descontínua. Levas de retirantes do norte de Goiás, Maranhão e Piauí chegavam a pé e em lombo de burros. Atravessavam o rio Javaés e o Araguaia em busca do verde, das terras fartas e de águas cristalinas. A Ilha do Bananal por sua extensão, fartura de fauna e difícil acesso foi local de morada de criminosos e cangaceiros perseguidos pelas milícias legalistas. Viviam em paz com os índios e em guerra com os brancos.

Com a chegada da expedição Brasil-Central na década de 1950, dos irmãos Villas Boas e das intenções do presidente Juscelino Kubitschek de levar o progresso e o desenvolvimento ao centro-oeste muito se gastou e se programou para a Ilha. Uma estrada atravessando a maior ilha fluvial do mundo, a rodovia que integraria o Brasil de leste a oeste ligando Salvador a Porto Velho foi demarcada, e diga-se, pelo exército norte-americano. Um hotel e até um pequeno Palácio, o Alvoradinha foi construído nas margens do Araguaia.

Hoje a situação é um pouco diferente. A Ilha do Bananal abriga o Parque Nacional do Araguaia e a Reserva Indígena do Araguaia. Do palácio e do hotel, apenas o alicerce restou. Neste momento, uma equipe da Polícia Federal vai cumprir um mandato da Justiça para retirar os posseiros que ali chegaram há muitos anos. Vão deixar os 400 quilômetros de comprimento por quase 100 de largura da ilha para os 2.300 índios das etnias Carajás, Javaés e uns poucos Ava-canoeiros.

No lado do Estado de Mato Grosso, de dois anos para cá, uma grande procura por terras para o plantio de soja, algodão e mamona transforma os arquétipos de colonização até então utilizados tanto pelo Incra como pelos fazendeiros e posseiros. O preço por hectare dobrou algumas vezes. O poder da fé, da Justiça, da política e o econômico serram trincheiras em seus interesses reais, algumas vezes omitidos.

A Prelazia de São Félix do Araguaia abrange 16 municípios no lado

matogrossense e paraense, a Prelazia de Cristalândia abrange 21 municípios no lado de Goiás e Tocantins, estados banhados pelo grande rio. Uma possui um bispo americano e a outra a comanda um catalão, da Espanha. Ambos pregam a defesa dos pobres e uma Justiça social e econômica. Dom Pedro Casaldáliga, polêmico, poeta e bispo, questiona a chegada do progresso:

"Progresso para que, progresso a custa de quem e a custa de que, progresso em que medida, com que ritmo, respeitando quem, a serviço de quem? Eu sou o primeiro a querer o progresso. Quero saúde, educação, emprego, produção e proteção à ecologia, isso tudo se esse terceiro mundo dentro do qual está indo o Brasil, deixar de ser terceiro mundo", filosofa Casaldáliga. Nas suas andanças pela Prelazia já presenciou muitas cenas que chocariam qualquer estrangeiro culto ou brasileiro estudado. A sensação mais complexa de se viver neste lado do Araguaia para Dom Pedro é a distância. A distância cultural e a geográfica.

Quando chegou, a estrada de 700 quilômetros que separa Barra do Garças de São Félix do Araguaia estava sendo aberta. Hoje são ainda 400 quilômetros em terra. A promessa do "chão preto" já constou em três décadas de campanhas políticas. Do outro lado do Araguaia, o bispo Dom Heriberto Hermes, de Cristalândia, lembra que há 40 anos, quando chegou em Mineiros (GO), o então prefeito mencionou duas frases que não esqueceu e -- acredita -- servem até hoje: "O povo brasileiro nem espera nem exige honestidade dos políticos" e "para um pobre ficar rico é ganhar na loteria ou ganhar na política".

O norte-americano tomou posse em setembro de 1990 e defende a reforma agrária, mas de forma diferente. Acredita que a entrega da escritura ao posseiro no momento da desapropriação é a melhor forma para fixar o homem no campo. A noção de propriedade é das mais importantes no mundo capitalista. Em seus trabalhos, inclui além do apoio à agricultura familiar e à conscientização do povo com relação aos direitos sociais, a formação de agentes jurídicos populares, o preparo de jovens com intenções de seguir carreira política em cursos de gestão pública e dos direitos do consumidor.

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 é colaborador da revista Consultor Jurídico

Revista Consultor Jurídico, 1 de setembro de 2003, 15h40

Comentários de leitores

1 comentário

Prezado Guilherme Korte, primeiro, gostaria ...

Fabian Remy ()

Prezado Guilherme Korte, primeiro, gostaria de parabenizá-lo pelo completíssimo artigo sobre "a reestruturação agrária na terra de ninguém" (Araguaia). em segundo, gostaria muito de obter maiores informações sobre as suas fontes históricas; em particular no que diz respeiro às populações que se instalaram nas imediaçoes da Ilha do Bananal (como por exemplo Sâo Félix do Araguaia e Luciara...) venho desenvolvendo extensa pesquisa na região para um projeto audiovisual algumas fontes que já integram minha pesquisa (irmãos Villas Bôas, Hemano Ribeiro da Silva, Erotildes Milhomem, Darcy Riberio, Willy Aureli, Noel Nutels, Valdon Varjão, filhas de Lúcio da Luz, Pedro Casaldáliga, discursos presidenciais de G. Vargas e J.K., teses sobre o pioneirismo na região, Couto de Magalhães e descendentes...) - todas fontes e informações novas sobre o assunto me interessam muitíssimo!! (teses, livros, artigos, documentos políticos e jurídicos, filmes, testemunhas ainda vivas da época...) meu e-mail: faremy@ig.com.br / ou: kironfilmes@terra.com.br ficaria imensamente grato em obter pistas para pesquisar... agradecendo de antemão e atenciosamente, Fabian Remy

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