Notícias
29 outubro 2003
Deportação imotivada
EUA deportam repórter brasileiro que viajou a convite da Warner
O jornalista brasileiro Luís Antônio Giron, da revista Época, é mencionado na ferramenta de busca Google ao menos 2.050 vezes. As tantas citações se devem à sua intensa produção jornalística, marcadamente no campo das artes e da cultura.
Foi por essa razão que Giron foi convidado por um dos maiores conglomerados norte-americanos da cinematografia para ir aos Estados Unidos e assistir à estréia de Matrix Revolution. Houve porém, uma brusca mudança no roteiro do jornalista. Ele foi detido no aeroporto de Dallas, revistado, submetido a humilhações e, em seguida, deportado de volta para o Brasil.
Os agentes americanos, ao que tudo indica, não acreditaram que ele fosse jornalista ou que estivesse lá com a finalidade informada. Ele chegou a sugerir que os policiais telefonassem obpara o consulado brasileiro, para a Globo ou para a própria Warner. Se tivessem a curiosidade de consultar o google constatariam que o nome de Giron aparece 465 vezes associado ao nome do filme Matrix.
No relato que fez sobre o episódio, o jornalista afirmou que seu sobrenome, apesar de ser italiano, pode ter levado os agentes a uma associação com o episódio de Playa Girón, quando houve a Invasão da Baía dos Porcos, em 1962. O raciocínio valeria se o jornalista tivesse usado outro nome para obter o visto de entrada nos Estados Unidos.
Leia o relato de Giron, publicado pela revista Época:
"Eu e outros jornalistas brasileiros embarcamos num vôo da American Airlines rumo a Los Angeles, convidados pela Warner a participar da primeira exibição mundial de Matrix Revolutions. Um dos slogans do filme, que trata da batalha entre a realidade e o controle, é "Bem-vindo ao deserto do real". Ao fazer a conexão em Dallas, às 6h30 do sábado 18, eu pensava em como Neo e amigos iam se livrar do domínio da automação supertecnológica. No entanto, no Texas, eu veria apenas o duro deserto do real, tal com o entende a polícia de imigração americana. Eu, assim como meu colega Alexandre Maron, da revista Monet, fui detido por não apresentar no passaporte visto de jornalista, chamado de B2 (o outro colega, que também só tinha visto de turista, conseguiu passar). Foi o início de uma curta aventura pela truculência da era Bush.
Permanecemos 14 horas sob custódia da imigração. Tiraram foto e escanearam a digital do meu indicador direito. Ao logo de seis longas horas, respondi a um interrogatório detalhado sobre minhas atividades no Brasil e em território americano. Perguntaram quando meu pai havia morrido, quem pagava a viagem. "Você tem familiares residentes nos Estados Unidos? Em caso positivo, qual é o status e imigração deles?" Também: Você já foi preso nos Estados Unidos ou em qualquer outro país?".
A pergunta mais reveladora veio antes do interrogatório, quando uma das jovens policiais, ironicamente, disparou: "Você acha que seria convidado para o Matrix se não fosse jornalista?" Depois o policial que me interrogou repetiu, com um sorriso frustrado: "Você acha que eu seria convidado o Matrix?" Respondi: "Se você estivesse em Hollywood, talvez, para revistar os participantes da cabine..." Ele não achou graça. A impressão é de que todos queriam ver o filme antes dos jornalistas estrangeiros. Pedi que telefonassem para a Warner, para consulado, para a Globo. Não me deram ouvidos. Fui interrogado e julgado sem direito a dar um pio. Sentença: deportação imediata, com retorno próximo vôo disponível.
Então me revistaram. Farejaram meu sapato recém-chegado do vôo (imaginem em que estado se encontrava). Arrancaram meu cinto, porque tinha fivela de metal. Conduziram-me a uma cela -- na porta, uma placa com o telefone da Embaixada do México. O carcereiro guardou meus dólares. Em troca, deu um recibo e um saco de papel da american Airlines com a ração do dia: sanduíche de peru, um cookie amolecido e um saquinho de minicenouras.
Dentro da cela, encontrei meu colega José, um bancário de El Salvador, casado e pai de dois filhos, que dizia ter vindo para tirar férias no Texas. Esperava o vôo de volta havia três dias. Contou que o algemaram e jogaram num cárcere com outros 18 "ilegais". Ficamos oito horas naquele recinto mobiliado apenas com um banco de cimento, estreito, para impedir que alguém se deitasse nele. Água, só da torneira do banheiro.
Ainda bem que havia lugar no vôo para São Paulo. Dois guardas nos escoltaram em marcha batida até o avião. Foi um upgrade às avessas. Os policiais anunciaram a chegada dos deportees, entregaram os passaportes ao comissário de bordo e se retiraram. Uma aeromoça observou que talvez tenhamos sido presos por causa dos sobrenomes: Maron é libanês; Giron, apesar de italiano, pode lembrar a Playa Girón, o episódio da Invasão da Baía dos Porcos em 1962. Increíble!
No Brasil, fomos escoltados até a Polícia Federal. Lá, informaram-nos que o número de deportados cresceu nas últimas semanas. São, em média, quatro por vôo, especialmente nos que vêm de Nova York e Dalas. Ficou a lição: todo brasileiro que entra legalmente nos Estados Unidos, mesmo com visto em ordem, corre o risco de ser mandado de volta. Os motivos podem ser os mais variados. "Os policiais americanos precisam agora mostrar serviço", comentou um policial federal brasileiro."
Revista Consultor Jurídico, 29 de outubro de 2003
Comentários
Comentários de leitores: 6 comentários
Episódios como esse deveriam servir para reforç...
No planeta existem mais de 200países e os eua s...
Os estadunidenses jamais terão a grandeza de Ro...
Ver todos comentários
A seção de comentários deste texto foi encerrada em 06/11/2003.