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12 outubro 2003
Brasil ilegal
Nizan Guanaes recomenda não sair com o personal trainer à noite
O publicitário Nizan Guanaes tem um jeito peculiar de explicar porque as pessoas devem se preocupar mais com as aparências do que com a vida real. "Eu amo meu personal trainer", exemplifica. "Mas ele é gay", diz num tom mais baixo de voz. O publicitário acentua cada palavra para explicar que não tem preconceito algum. "Eu sou baiano", explica. E para provar que vê o homossexualismo com naturalidade, Nizan garante que tem muitos amigos que são gays: "Até meu irmão é", reforça. No grand finale de sua parábola, ele arremata: "Agora, o que eu não vou fazer nunca é sair à noite com o meu personal trainer, porque isso destruiria minha reputação".
Segundo o publicitário, depois que uma pessoa tem a imagem comprometida, o melhor que se pode fazer, para não ser contaminado, é afastar-se dela. A possibilidade de afrontar o senso comum e sair-se bem, diz, é nula. Como exemplo, Nizan cita o que considera uma cruzada pessoal sua: "Faz vinte anos que tento convencer as pessoas de que o baiano é um povo trabalhador e o máximo que consigo é parecer engraçado".
O código de conduta de Nizan é vencedor. E é perseguido todo dia pelos meios de comunicação. A hipocrisia e a demagogia -- todo profissional da área sabe -- são ingredientes fundamentais para a construção de imagens. O abismo entre a importância da aparência e a da ética tem mais ou menos a mesma distância que há entre os índices de audiência da TV Cultura e da TV Globo. Ou, ainda, entre uma peça de Bertolt Brecht e o programa do Ratinho.
No livro Sociedade do espetáculo, o francês Guy Debord já havia se referido à década de 60 como um "tempo que prefere a imagem à coisa, a cópia ao original". Ou seja, o importante é trabalhar com a emoção ou com a fé. Mesmo que seja na base da ilusão.
Esse pode não ser o caminho do aperfeiçoamento humano. Mas quem liga pra isso se for o caminho do dinheiro? Nos anos 60 de Debord apelidou-se de "marmelada" um sucesso da época conhecido como Telecatch Montila, em que um grupo de musculosos simulava luta livre fazendo acrobacias num ringue de boxe. Hoje, a marmelada evoluiu para as pegadinhas ensaiadas e outras encenações rebatizadas de dramatizações.
Essa realidade é tão sabida que as eleições se tornaram, reconhecidamente, um torneio onde vence quem tem promessas mais saborosas a oferecer e quem melhor souber cortejar a massa ignara. É por isso que o comando das campanhas fica nas mãos de publicitários e não de cientistas ou especialistas em saúde, educação ou agricultura.
O jogo da hipocrisia, é claro, tem lá sua complexidade. A intelligenzia jornalística faz de conta que a grande maioria da população é civilizada e se choca com as palhaçadas da televisão. Como se a massa ignorante, imbecilizada e desorientada quisesse outra coisa e a produção do Domingo Legal -- "esses farsantes" -- estivesse empurrando, goela abaixo da população, essas porcarias.
Os críticos, esses anônimos que escrevem para menos de 2% da população, decretam que a população não tolera mais essas marmeladas. O Ministério Público e a polícia abrem inquéritos e o ministro da Justiça dá entrevistas.
No caso da entrevista falsificada do PCC, no Domingo Legal de Gugu Liberato, a pantomima derivou até mesmo para uma proibição de o programa ir ao ar com uma decisão jurídica inconsistente e insustentável. Mas cumpriu-se a obrigação de dar uma satisfação à estreita fatia ilustrada da população que sabe distinguir valores de antivalores.
Lutar contra a realidade pode ser a luta mais vã. Entanto, contemporizar com a co-existência de dois universos tão distantes dentro de um mesmo país torna as coisas muito complicadas.
Aproximar esses dois universos seria útil. Se não para eleger presidentes que prometam na campanha o que vão fazer, de fato, nas suas administrações, ao menos para que o Nizan possa sair com o personal trainer, de quem tanto gosta, à noite.
Márcio Chaer é diretor da revista Consultor Jurídico
Revista Consultor Jurídico, 12 de outubro de 2003
Comentários
Comentários de leitores: 6 comentários
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Resta saber se o personal trainer tem vontade d...
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