Notícias
14 novembro 2003
Sem mudança
Naves e Bastos discordam de redução da maioridade penal
O assassinato do casal de namorados Felipe Caffé e Liana Friedenbach, praticado por um adolescente, levou a sociedade a discutir mais uma vez a possibilidade de diminuir a maioridade penal. As opiniões dividem-se bastante. (Leia link de especialistas favoráveis à redução ao fim do texto.)
O ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, afirmou ser radicalmente contra a redução da maioridade por considerá-la ineficaz no combate à criminalidade. O presidente do Superior Tribunal de Justiça, ministro Nilson Naves, tem a mesma opinião. Segundo Naves, "o que precisamos é encontrar outros meios para evitar que fatos sejam praticados por pessoas entre 16 e 18 anos."
O coronel da Polícia Militar João Vicente, mestre em psicologia social pela USP, afirmou ser "a favor da responsabilização penal para adolescentes com menos de 18 anos que cometem crimes hediondos", mas é contrário à "redução da idade penal".
O presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-SP, Ariel de Castro Alves, afirmou que os adolescentes já são responsabilizados por seus atos, como determina o Estatuto da Criança e do Adolescente. Além disso, segundo ele, o Ministério Público tem conseguido, com a concessão de medidas de segurança, aumentar o tempo de permanência do jovem em regime de internação. Isso ocorre quando se comprova que os adolescentes podem colocar a sociedade em risco.
Ariel disse, ainda, que a lógica do Estatuto não é de contenção e sim de reeducação. "Uma pesquisa feita pela OIT demonstrou que há um grande número de crianças de 8 a 12 anos atuando no tráfico. É cada vez menor a idade de ingresso no mundo do delito. Para esses casos, o que a sociedade vai propor? Assim, um dia teremos berçários presídios. A sociedade precisa enfrentar isso ouvindo especialistas, elaborando políticas sociais preventivas, sem propostas demagógicas. Todos os dias morrem dezenas de adolescentes assassinados por meninos da mesma idade. Somente quando há casos envolvendo autoridades ou pessoas da classe média a questão é levantada", declarou.
Outro motivo que ensejou a retomada da discussão sobre a redução da idade penal é o medo pelo aumento do número de atos infracionais cometidos por adolescentes. Para Mário Volpi, do Unicef, não se pode enfrentar o problema aumentando a repressão. "A sociedade esquece-se de que há cada vez menos oportunidades para esses meninos. É preciso oferecer estrutura e oportunidades para os adolescentes brasileiros. Além disso, a reflexão sobre a criminalidade na adolescência deve estar inserida em todas as políticas públicas destinadas a essas pessoas. O adolescente incluído mais cedo no sistema carcerário tem cada vez menor chance de recuperar-se. Ninguém entra no sistema e fica sozinho. Existem grupos de controle interno e o adolescente certamente terá que se integrar em algum deles. Assim, ingressa definitivamente no universo do delito", afirmou.
Maioria dos adolescentes internados não cometeram homicídios
Crimes como roubos e furtos representam 43,6% dos delitos cometidos pelos adolescentes privados de liberdade. Homicídios e maus-tratos são 27,7%. O aliciamento pelo tráfico de drogas é motivo de internação para 8,7% dos adolescentes e um percentual significativo, de 15,6%, refere-se a delitos diversos, como porte de arma e descumprimento de medida sócio-educativa.
Os dados são do Mapeamento Nacional da Situação das Unidades de Execução de Medida de Privação de Liberdade ao Adolescente em Confilto com a Lei, feito em setembro e outubro de 2002 pelo Departamento da Criança e do Adolescente do Ministério da Justiça, pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. O mesmo estudo revela que 89,6% desses meninos não concluíram o ensino fundamental e 66% vêm de famílias com renda mensal de até dois salários mínimos.
Outro levantamento realizado pelo Instituto Latino Americano das Nações Unidas para Prevenção do Delito e Tratamento do Delinqüente (Ilanud) em São Paulo, entre junho de 2000 a abril de 2001, revelou que, num universo de 2.100 adolescentes privados de liberdade, apenas 1,4% haviam cometido crimes contra a vida.
Confira os mitos e verdades sobre a redução da idade penal, segundo o Ilanud:
1. Mito: O ECA não permite punição para adolescentes infratores.
Verdade: O ECA prevê seis tipos de medidas sócio-educativas para adolescentes infratores: advertência, obrigação de reparar o dano, prestação de serviço à comunidade, liberdade assistida, semi-liberdade e internação, que implica real privação de liberdade, podendo durar até três anos.
2. Mito: Os adolescente são responsáveis por grande parte da violência praticada no país.
Verdade: os crimes realizados por adolescentes não atingem 10% do total de crimes praticados no Brasil. O que de fato acontece é que qualquer delito praticado por adolescentes é amplamente divulgado, dando a impressão de que esta é uma prática comum. Se assim fosse, os crimes praticados por adolescentes já fariam parte dos noticiários policiais e não ocupariam as manchetes dos jornais.
3. Mito: Os adolescentes estão ficando cada vez mais perigosos, cometendo crimes mais graves.
Verdade: De todos os atos infracionais praticados pelos adolescentes, somente 8% equiparam-se a crimes contra a vida. A grande maioria dos atos infracionais - cerca de 75% - são contra o patrimônio, sendo que 50% são furtos.
4. Mito: Somente com a diminuição da idade penal e imposição de penas a adolescentes, em patamar elevado, haveria uma diminuição da violência nessa faixa etária.
Verdade: Está mais do que provado que a punição pura e simples, bem como a quantidade de pena prevista ou imposta, mesmo para adultos, não é um fator de diminuição da violência. Exemplo claro é aquele dado pela chamada Lei dos Crimes Hediondos, que através de um tratamento mais rigoroso com os criminosos pretendia diminuir sua incidência. Ocorre que nunca foram praticados tantos crimes hediondos como hoje, estando nossas cadeias abarrotadas a ponto de estudar-se a revogação da lei e sua substituição por uma menos severa.
5. Mito: Há tanta reincidência porque o Estatuto é liberal com os adolescentes infratores e as medidas são muito leves.
Verdade: A reincidência entre adolescentes não é culpa do ECA, mas sim do descaso da União, Estados e Municípios, que não investem em programas que realmente possibilitem a inclusão social do jovem. A inadequação dos programas em meio aberto e dos centros de internação expõem ainda mais o jovem à criminalidade e ao desrespeito de seus direitos.
Revista Consultor Jurídico, 14 de novembro de 2003
Comentários
Comentários de leitores: 11 comentários
Já que os menores infratores (assassinos, seque...
Fany Lewy- Advogada Civel- S.Paulo, 16/11/03 ...
quanto a opinião do ministro da justiça, nem vo...
Ver todos comentários
A seção de comentários deste texto foi encerrada em 22/11/2003.