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12 novembro 2003
HC ao Judiciário
Poder Judiciário tem o direito de se defender de massacre
O Judiciário tem bons antecedentes, conduta ilibada, residência em local certo e sabido e presta relevantes serviços à sociedade. Portanto, é de ser garantido ao Poder Judiciário o direito de se defender com liberdade. O massacre que está sendo imposto ao mais importante dos poderes da República deve ser rechaçado vigorosamente. Da forma como está sendo conduzida a opinião pública, em pouco tempo, não teremos a segurança de decisões judiciais para mediar os conflitos sociais e as querelas entre as pessoas.
É sabido que, nos processos revolucionários, a primeira medida das forças contrárias ao regime instalado é a destruição do Poder Judiciário. Incendeiam os prédios, os arquivos e processos em tramitação; nessa etapa, o direito e a justiça desaparecem, em seguida, fecham o Poder Legislativo; nesse momento, a democracia se vai. O Brasil não viveu essa experiência, e esperamos que nunca venha a viver.
A pesquisa divulgada pela Ordem dos Advogados do Brasil serve para demonstrar as incertezas que nos rondam e, não seria inconveniente, recordarmos os anos de repressão por que passamos em tempos não remotos. A divulgação da fala do ex-presidente Ernesto Geisel, no livro do jornalista Elio Gaspari A Ditadura Derrotada, mostra, na prática, como um poderoso governante pode agir. Ao concordar com a eliminação de adversários, inclusive com tortura, o general aquiesceu com a prática dos crimes, alegando não haver outro jeito de destruir a oposição.
A avaliação negativa da população, após a divulgação do caso da corrupção de fiscais no Rio, do envolvimento de juízes dos tribunais superiores na questão da venda de decisões judiciais e a crescente insegurança pública, parece levar o cidadão a considerar que denegrir a imagem do Judiciário é a melhor solução. Não é. A ação de um bando de marginais travestidos de magistrados, policiais e advogados, em conluio com empresários, bancários e um sem número de outros fora-da-lei, envolve o pensamento de todos que acabam por acusar, indistintamente, homens e mulheres de bem que dedicaram suas vidas ao sacerdócio de julgar imparcialmente. A quem servirá o rompimento da harmonia entre os poderes e a quebra do fiel da balança?
O Poder Judiciário serve para moderar as disputas e gerar a tranqüilidade da Nação. Mas como moderar se não julga? A verdade é que o Judiciário recebe milhares de ações diariamente e não possui meios para administrar a sua participação como poder constituído. Os tribunais estão abarrotados de processos, e a maior parte, cerca de 80%, são causas originárias de disputas entre o cidadão e o Estado. O governante da hora, com a participação do Legislativo, propõe leis inconstitucionais que levam anos para serem apreciadas, atulhando o Judiciário, que, muitas das vezes, aguarda o desenrolar dos acontecimentos para apreciar até mesmo questões de direitos adquiridos incontestáveis. Se as leis propostas pelo governo fossem apreciadas com celeridade, seria improvável o acúmulo de tantas pendências.
E a Ordem dos Advogados do Brasil, o que pode fazer para melhorar o Poder Judiciário? Pode muito. A primeira ação é repensar a indicação de advogados do quinto constitucional. A prática nos tem demonstrado que a disputa pelo cargo deixou de ser a escolha do advogado mais competente e passou a ser ação política. A OAB poderia ceder a indicação para fazer parte do Controle Externo do Judiciário. Afinal, os vocacionados ao sacerdócio devem ser promovidos dentre os que, concursados, vierem da carreira de magistrado. Não que não se possa forjar juízes como o que surgiu agora: foi policial, procurador e magistrado, sempre aprovado entre os melhores. Aprendeu de tudo, para nada.
Paulo Castelo Branco é advogado e ex-secretário de Segurança Pública do DF.
Revista Consultor Jurídico, 12 de novembro de 2003
Comentários
Comentários de leitores: 8 comentários
Muito bem colocadas as idéias do Dr. Paulo Cast...
É muito bom ler um texto como esse, ás vezes fi...
Muito bom o desenvolvimento intelectual do text...
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