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Guerra e economia

'Mídia deve uma explicação sobre boom dos mercados com a guerra.'

Por puro complexo de culpa, erratas costumam constar do pé dos artigos subseqüentes aos deslizes. Inverta-se o processo, a título de crítica de mídia: na semana passada, este redator escreveu neste site que na Guerra do Golfo morreram, no bombardeio a Bagdá, cerca de 150 mil civis. Erro disléxico: o número correto é entre 1,5 mil e 3,5 mil vítimas.

E, por falar em mídia de guerra, vai aqui o maior laxismo da mídia nessa semana de dogfights campais: como no jornalismo o agora é o ápice do tempo, pouco ou nada sobrou para análises estruturais da guerra no campo profundo da geopolítica econômica. Ou seja: quando se fala no passado, ou nas previsões de médio prazo (vulgo futuro imediato), a mídia em geral lida apenas com o produto notícia. Análises de certos fenômenos obviamente não recaem no processo de resgate das estruturas, mas no resgate da informação. Nem os sites, que podem dispor do recurso do hipertexto, foram capazes de avaliar a economia de guerra em sua dimensão mais profunda.

Na sexta-feira (20/3), dia dos maiores ataques da semana contra Bagdá, pipocaram na mídia as notícias do bom andamento da economia. A agência Reuters, de Nova York, anunciava, por exemplo, que as bolsas dos Estados Unidos tiveram alta...

"...impulsionadas pelos fortes ataques norte-americanos no Iraque e por rumores de que Saddam Hussein estaria morto. Em Wall Street, o mercado registrou a maior alta semanal desde outubro de 1982, após oito semanas consecutivas de ganhos".

Dizia a agência que o índice Dow Jones, que representa as ações mais líquidas de Wall Street...

"...avançou 8,36%, o melhor ganho semanal desde outubro de 1982. O indicador subiu pela oitava sessão consecutiva, a mais longa série de ganhos desde dezembro de 1998. O índice já subiu 13% desde que o rali começou na semana passada. Neste pregão, o Dow Jones avançou 2,84%, para 8.522 pontos, enquanto o termômetro do setor de tecnologia Nasdaq subiu 1,32%, para 1.421 pontos".

A mesma Reuters informava, ainda na sexta, que a...

"...Bolsa de Valores de São Paulo voltou a fechar em alta nesta sexta-feira, impulsionada pelos pesados ataques a Bagdá, que sugerem uma solução rápida para o impasse no Oriente Médio. No mês, os ganhos já superam 10% e, no ano, a bolsa paulista entrou no azul".

Pela Reuters, o Ibovespa avançou 1,96%, para 11.377 pontos, maior patamar em dois meses, quando atingiu 11.434 pontos e o volume financeiro negociado foi de 617,5 milhões de reais - e, como nas últimas quatro sessões, ultrapassou as médias diárias de janeiro e fevereiro.

E assim prossegue:

"O dólar também refletiu o otimismo do mercado em relação ao avanço das tropas norte-americanas e britânicas no Iraque. Fechou em queda de 2%, vendido a 3,405 reais, seu menor nível desde 17 de janeiro. O C-Bond, principal papel da dívida brasileira no exterior, operava em alta de 1,78%, para 78,625% do valor de face. As bolsas internacionais também tiveram forte alta. O Dow Jones disparou 2,84% - seu oitavo pregão consecutivo de alta - e o índice tecnológico Nasdaq subiu 1,31%".

O repórter Eduardo Cucolo, da Folha Online, também informava que...

"...as exportações brasileiras para o Oriente Médio foram favorecidas pela estocagem de produtos para a guerra. Segundo dados da balança comercial brasileira, as vendas do Brasil para a região cresceram cerca de 60% nos dois primeiros meses deste ano, para US$ 480 milhões. Entre os principais produtos exportados estão frango, açúcar, carne bovina, aço e até mesmo petróleo bruto para ser refinado".

Mas esse boom mereceria uma análise mais aprofundada.

Quando do desembarque aliado no Norte da África, em 1942, e quando da derrota nazista em Stalingrado, em 1943, os EUA tiveram a produção industrial a crescer em 60%. O PIB do país cresceu também em 90%. O desemprego caiu para 500 mil pessoas. Em 1946, pós-détente, a produção industrial dos EUA caiu em 30%. O desemprego subiu para 2,7 milhões e apontava para 8 milhões com o desmanche das forças armadas. Quem diz é Gabriel Kolko ( The Politics of Ward, Random House, Nova York, 1976).

Mas a análise vai além disso. Vejamos a obra Le bonheur economique, de Francois-Xavier Chevallier (Albin Michel, 1998, Paris). Ele nos conta coisas nada animadoras, com base nas teorias dos " Ciclos" do economista russo Kondratieff. Para o economista, avanço tecnológico e redução de tempo de produção resultam em guerras para lastrear a produção encalhada pela redução de seu tempo de produção. A Revolução Industrial teria gerado, a partir de 1783, e seguindo o economista, o crack na Bolsa de Londres e a Revolução de 1830. A introdução da química do ferro, a partir de 1837, gerou, nessa teoria, a Revolução de 1848, a Guerra de Secessão nos EUA, o crack de Viena, a Independência do Brasil. A química pesada, no início do século, teria gerado a Primeira Guerra Mundial, o crack de 1929 em Nova York e a Revolução de 1930, no Brasil. O fordismo e taylorismo, a Segunda Guerra Mundial. A crise do petróleo, em 1973, teria potencializado a Guerra do Vietnã.

Ainda nessa ótica, a tecnologia informática e a bioquímica teriam gerado o fim da URSS, as guerras localizadas, como o Kosovo, e o crack das economias do Terceiro Mundo. E sobretudo: a guerra que vemos hoje.

Mudança de comportamento

Se crermos nesses ciclos Kondratieff (curtos, a cada 30 anos, longos, a cada 50 ou 70 anos), uma razão insuspeitada e não declarada, tanto pelos líderes como pela mídia, estaria por detrás da guerra contra o terror: o desencalhe da produção.

O jornalista Renato Pompeu tem até uma teoria bem interessante para isso. Lembremos do conceito de Wilhelm Reich sobre a couraça pélvica, ou panzerung. Para Reich, antes da Revolução Industrial não estávamos acostumados a trabalhar, eretos e de ventre duro, tantas horas nas linhas de montagem do fordismo e taylorismo. Tivemos de blindar o ventre. O que teria gerado uma primeira geração de neuróticos travados. Depois da Segunda Guerra, quando os PIBs de muitas nações foram à estratosfera, já havia riqueza acumulada o suficiente.

A libertação da linha de trabalho, diz Pompeu, foi também a libertação do ventre. Casar e ter filhos foi o sonho da geração nascida nos anos 1940, os baby boomers. E tudo ao som do rock and roll. Vale lembrar: o primeiro ícone do rock dessa geração, Elvis Presley (Elvis the Pelvis) chocava porque tinha o ventre solto (ou, como se escrevia a época, "dançava como negro"). Justamente ele, Elvis, um motorista de caminhão que guiava 12 horas por dia, com o ventre inamovível...

A que Pompeu acrescenta: os negros, de resto excluídos do processo produtivo, não tiveram de endurecer a pélvis. "Por isso os técnicos de futebol preferiam o jogador negro: porque tinha cintura mole", avalia o jornalista.

De uma ou de outra forma, está para ser noticiado o que essa guerra vai gerar em termos de comportamento. Mas, no quesito economia, a mídia ainda ficou devendo uma explicação sobre o Carnaval de bombas sobre Bagdá e o conseqüente boom dos mercados e índices.

Texto publicado, originalmente, no site Observatório da Imprensa.

Revista Consultor Jurídico, 25 de março de 2003.

Revista Consultor Jurídico, 25 de março de 2003, 11h38

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