Consultor Jurídico

Artigos

Você leu 1 de 5 notícias liberadas no mês.
Faça seu CADASTRO GRATUITO e tenha acesso ilimitado.

Perda na Justiça

Sérgio Marcos de Moraes Pitombo dava dois recados numa frase só

Sérgio Marcos de Moraes Pitombo morreu na madrugada de 7 de março de 2003, dia do aniversário de seu antigo companheiro Rogério Lauria Tucci. Os dois andaram juntos durante anos e anos pelos corredores da velha Faculdade de Direito do Largo São Francisco, sempre ensinando e debatendo processo penal. Professor doutor sim, Sérgio Marcos (assim o chamei, isoladamente, desde que nos conhecemos), não prestou concurso a titular. Não quis.

Lembra-me outro assim, o grande José Frederico Marques. Não chegou à cátedra, embora fosse dos melhores - ainda é. Pitombo era assim. Processualista penal pleno de originalidade, embora seu comportamento, seus trajes e seu físico o apresentassem como um ortodoxo. Tinha uma franqueza agressiva, o Sérgio Marcos. Escondia a bondade em metáforas repletas de sutilezas. Dava dois recados numa frase só: um de advertência, outro de respeito pela autenticidade do interlocutor.

Era capaz de dizer a uma doutora, por exemplo, que ela aguardaria muito tempo até chegar a professora na Faculdade de Direito do Largo São Francisco. A explicação, muito sincera, vinha em seguida:"- A senhora não age como uma doutora, não se veste como uma doutora e não fala como uma doutora, mesmo sendo doutora pela própria universidade...precisa seguir o padrão"...

Nos bons tempos em que freqüentávamos a parte velha de São Paulo, apostando um almoço, às vezes, para ver quem chegava mais perto da data da construção de um ou outro prédio do Bom Retiro ou Casa Verde, aguçamos, os dois, o conhecimento dos pintores clássicos. No começo, Antonio Sérgio, o filho, hoje mestre em Direito pela vetusta Faculdade onde o pai lecionava, era levado pela mão. O menino cresceu e ficou entendido, também, em pintura, escultura e coisas antigas.

Fui ao enterro de Sérgio Marcos. É sempre dramático um enterro. Fica pior quando é de um amigo querido. Ali, o passado e o presente se encontram nas pessoas que se entrelaçam na vida, umas amadurecendo, outras caminhando para a velhice. O filho casado, Cleonice chorando, os dois Tucci olhando com tristeza, um único e discreto carro do Tribunal parado à beira da alameda enquanto chovia, lembrando aos incientes que o desembargador Sérgio Pitombo merecia as honras, o Pai-Nosso rezado por todos, o caixão descendo pelas cordas.

Antonio Sérgio, impecável dentro da dor, deu um leve tapa, quase um carinho, no ataúde e disse" - Vai, paizão. " E foi só. Lembro-me de outros enterros, poucos tão sofridos. Quando acontecia de manhã, era melhor. A família voltava para casa, trocava de roupa, enxugava as lágrimas e fingia ir ao trabalho. Os fins-de-tarde são piores. Aguarda-se uma nova luz do sol, aviso de que há, ainda, muitas tarefas a cumprir.

Revista Consultor Jurídico, 12 de março de 2003.

Revista Consultor Jurídico, 12 de março de 2003, 15h22

Comentários de leitores

0 comentários

Comentários encerrados em 20/03/2003.
A seção de comentários de cada texto é encerrada 7 dias após a data da sua publicação.