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O que querem elas?

O que fazer para compreender os anseios da mulher

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As sociedades patriarcais nunca se preocuparam em entender as mulheres. Limitavam-se a trancá-las em casa, oprimindo-as de todas as formas possíveis e fazendo piada de seu comportamento. Quando surgia alguma reivindicação feminina, os senhores do poder, perplexos diante da insensatez do sexo frágil, formulavam a pergunta que se tornou um verdadeiro espelho do sistema de dominação: "Mas, afinal, o que querem as mulheres? "

Pois é, esses seres fúteis, emotivos, de inteligência inferior, dedicados a cuidar da casa -- o que não lhes dá trabalho nenhum --, sustentados por nós -- insubstituíveis provedores --, não satisfeitos com todas as regalias que lhes proporcionamos, ainda querem mais... Difíceis de entender, essas mulheres!

E, assim, muito tempo se passou até que a situação mudasse. Atualmente, podemos considerar que as vozes femininas são ouvidas, embora nem sempre atendidas nos seus elementares direitos, como a integridade física. Mulheres ainda são espancadas ou mortas por seus companheiros pela única razão de serem, ainda, compreendidas como seres inferiores. São discriminadas no trabalho, muitas vezes recebendo salário menor que o colega homem, para fazer o mesmo serviço. Outras vezes, são ridicularizadas por realizarem atividades corriqueiras, como ir ao cabeleireiro ou fazer compras. Enfrentam, ainda, tentativas constantes de desvalorização social e profissional.

Por que barbear-se é "nobre", enquanto fazer as unhas é "futilidade"? Por que trabalhar fora de casa é tarefa importante, enquanto fazer o serviço doméstico é apenas necessário e sem valor? A razão é simples: nossa sociedade ainda não atingiu a meta de igualdade de gênero e o desrespeito às atividades preponderantemente femininas permanece, mesmo que de forma velada.

Portanto, é muito importante que exista o dia internacional da mulher, oito de março. Ainda temos de refletir muito sobre a mudança de papéis que as mulheres vêm reivindicando e, em parte, conseguiram. Estamos caminhando, seguramente, para a igualdade plena de direitos, mas ainda resta um bom pedaço de estrada a percorrer. É isso que as mulheres querem: finalizar o percurso.

Evidentemente, todos reconhecemos as diferenças entre os sexos. As mulheres não querem ser "iguais" no sentido biológico do termo, como alguns, equivocada ou dolosamente, interpretam. Quando se fala em acabar com as discriminações e preconceitos, o que se pretende é recuperar o respeito pela parcela feminina da população, que a sociedade patriarcal fez por destruir.

Por essa razão, foram criadas as Delegacias de Defesa da Mulher, que tiveram bons resultados no combate à violência de gênero; os Conselhos de Defesa dos Direitos da Mulher, tanto na esfera federal quanto na estadual, cabendo observar que o atual governo da República transformou o Conselho Nacional em Secretaria; as cotas partidárias, a fim de incentivar a participação da mulher na política; as comissões de mulheres nas diversas áreas profissionais, inclusive nos sindicatos; os atendimentos específicos para a população feminina, tanto na área da saúde quanto na policial (para vítimas de violência sexual) e familiar; as organizações nacionais e internacionais não governamentais de defesa dos direitos das mulheres; os equipamentos sociais de amparo à maternidade, como as creches, entre outras medidas de impacto.

Sim, foi grande o progresso. Temos, inclusive, uma mulher dentre os Ministros do Supremo Tribunal Federal.

Agora, dando continuidade ao trabalho das feministas, essas mulheres de enorme valor que abriram caminho para o fim da opressão, será preciso enfrentar o ônus da emancipação, que é tanto pessoal quanto social.

Uma das grandes conquistas de nosso gênero refere-se à sexualidade. As mulheres alcançaram, finalmente, o direito ao prazer sem ter de perder a respeitabilidade. No entanto, esse avanço precisa estar acompanhado de medidas para a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e da gravidez precoce ou indesejada.

Na área financeira, é preciso abandonar o tradicional modelo de mulher dependente do homem. Arcar com as próprias despesas é um dos maiores ônus da emancipação, que as mulheres precisam assumir com dignidade.

A liberdade é o maior anseio do ser humano, mas, ao mesmo tempo, traz uma série de responsabilidades. É claro que homens e mulheres devem ser parceiros em tudo o que diz respeito aos filhos comuns e à família, mas achar que o varão tem de pagar todas contas não condiz com o novo status feminino.

Assim, é preciso preparar as mulheres para assumir carreiras profissionais remuneradas e preparar os homens para auxiliar nas tarefas domésticas. Com esse equilíbrio, o restante facilmente se resolverá.

Revista Consultor Jurídico, 11 de março de 2003.

 é procuradora de Justiça do Ministério Público de São Paulo, autora de vários livros, dentre os quais “A paixão no banco dos réus” e “Matar ou morrer — o caso Euclides da Cunha”, ambos da editora Saraiva. Foi Secretária Nacional dos Direitos da Cidadania do Ministério da Justiça no governo FHC.

Revista Consultor Jurídico, 11 de março de 2003, 1h20

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