Notícias
29 maio 2003
Questão inusitada
Concurso de juiz no RS exige conhecimento sobre Big Brother
Mais de quatro mil candidatos inscritos para o concurso de juiz no Rio Grande do Sul tiveram que responder 90 questões. Uma delas exigia conhecimento sobre o programa Big Brother, da Rede Globo.
De acordo com o texto Sotaques Desterrados, quem faz papel de nordestino na Rede Globo é quase sempre um carioca. O texto de 31 linhas gerou dez questões. A resposta correta a uma delas foi de que "o vencedor do primeiro Big Brother Brasil tinha um sotaque acentuadamente caipira". O primeiro vencedor do programa foi o dançarino Kleber Bambam, de Campinas, interior de São Paulo.
A outra questão que chamou atenção e também foi uma das mais comentadas, segundo o site Espaço Vital, foi a seguinte:
João cede seu apartamento para Luiz e Maria manterem relações sexuais. Sem que eles soubessem, João pretendia gravar em vídeo o relacionamento de ambos, como efetivamente o fez. No decorrer dos fatos, Luiz resolve, contra a vontade de Maria, constrangê-la à realização de cópula anal. Em face do crime de atentado violento ao pudor perpetrado por Luiz, a conduta de João poderia ser caracterizada como:
(A) atípica
(B) culposa
(C) criminosa por ter atuado como participe no cometimento do atentado
(D) criminosa por ter atuado como co-autor no cometimento do atentado
(E) criminosa por ter atuado como autor colateral no cometimento do atentado.
Acertou quem respondeu a letra A.
Cada candidato teve que acertar, no mínimo, 54 questões para prosseguir no concurso público que oferece 80 vagas. A abstenção foi de 9,5%, com ausência de 421 dos 4.438 candidatos inscritos.
Na sexta-feira (30/5), o edital com o resultado da prova objetiva será publicado no Diário da Justiça e também na Internet.
Conheça as questões da prova:
* As respostas corretas estão grafadas em negrito
PROVA OBJETIVA
Instrução: Para responder às questões de números 01 a 10, considere o texto abaixo.
(linha 01) Quem faz papel de nordestino na Rede Globo é quase sempre um carioca. É triste (linha 02) dizer isso desse modo, é triste dizer isso quando se sabe dos méritos dos autores e diretores que conseguiram, nas novelas, falar de regiões remotas (linha 03) desta nossa terra, falar dos "rincões" e dessa multiplicidade de tipos exóticos, caleidoscópicos e bem desenhadinhos (linha 04) que acabaram compondo a imagem de pluralidade dócil do Brasil integrado pela TV. É triste, vá lá, mas também é fato: (linha 05) o novelão das oito firmou-se como um pêndulo incansável entre a cidade (o eixo Rio-São Paulo ou o eixo São Paulo-Rio) (linha 06) e o campo (o interior da Bahia mítica ou então da Bahia mística); o regionalismo, quando chegou à TV, chegou (linha 07) ali como pastiche de si mesmo. Na TV, a prosódia nordestina nunca passou de um "nordestinês" artificial e higienizado. (linha 08) Exceções à parte, o Nordeste da TV está para os nordestes reais assim como o Zé Carioca do gibi está para Madame (linha 09) Satã. No horário nobre, o "nordestinês" falsificado, cheio de facilitações e de glamour, substitui os sotaques nordestinos (linha 10) autênticos e, no mesmo movimento, cassou aos nordestinos o direito de aparecer na TV.
(linha 11) Como cassou o direito à voz dos caipiras. Se há um som que é banido do entretenimento chique no nosso país, (linha 12) esse som é o "erre" dos caipiras. Aquele "erre" que deveria levar um til em cima para ter a sua sonoridade representada (linha 13) adequadamente. A TV ......... o caipira. A propósito, a única virtude daquele Kléberrr que ganhou o primeiro o primeiro "Big (linha 14) Brotherrr" era o seu "r" que parecia um "i" mais fibroso ("fais paite", ele vivia repetindo). Aquele Kléber ........... a fala (linha 15) caipira, anistiou-a, reabilitou-a. Depois sumiu nesse "mundão véio sem porterrra". A fala do interiorzão de São Paulo, (linha 16) de parte de Minas, do Paraná, essa fala é emudecida pela TV, é perseguida como se fosse a própria mula-sem-cabeça. (linha 17) Por todos. Os profissionais que recrutam jovens executivos barram os caipiras. As sogras de Ipanema não querem (linha 18) saber de genros que puxem aquele "erre" que, aos ouvidos delas, soa como um berrante expatriado. Falar com aquele (linha 19) "erre" repuxado é falar como um aleijão ............ . Correntemente, a TV quer eliminar o fatídico "erre" do rude e doloroso(linha 20) idioma. Quer mantê-lo apenas como curiosidade remota, como a moda de viola, o bicho-de-pé, o fumo-de-rolo, os (linha 21) bailes de Ituverava.
(linha 22) Você nunca viu um apresentador de telejornal do meio-dia que, em vez de emitir seu "boa tahrrhde" aspiradamente (linha 23) acariocado, espremesse dos lábios um "tarrrde" acaipirado. Dificilmente verá. Assim como dificilmente verá nordestinos (linha 24) curtidos e secos, genuínos, cerrando os olhos no papel de galã. Você os verá como os vê nos programas humorísticos, (linha 25) passando por bobalhões que não percebem a malícia dos inimigos que lhes cobiçam as mulheres, você os verá em (linha 26) funções subalternas, melancólicas, você os verá como vê os animais em extinção.
Revista Consultor Jurídico, 29 de maio de 2003
Comentários
Comentários de leitores: 3 comentários
Parabéns Cristiano pela crítica. Por coisas do...
Quem diria que um concurso tão almejado muitos ...
Interessante este texto, mas tenho que discorda...
A seção de comentários deste texto foi encerrada em 06/06/2003.