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Quinta-feira, 5 de junho.

Primeira Leitura: depois de vaia, Lula faz discurso personalista.

O pesadelo virou realidade

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi vaiado no 8º Congresso Nacional da Central Única dos Trabalhadores (CUT). O acontecimento tornou realidade um pesadelo de sua assessoria política, que, no dia anterior, ficou apreensiva com o festival de vaias com que foram recebidos o ministro da Previdência, Ricardo Berzoini, o presidente do PT, José Genoino, e a prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, logo na abertura do evento.

A 1ª vaia a gente não esquece

Essa é a primeira vaia política que o presidente leva. Num discurso personalista e marcado pela despolitização, Lula bem que tentou fazer o que melhor sabe: encantar as massas, justamente para escapar da animosidade da esquerda cutista.

Mais metáforas

Lula comparou seu governo a um feto na barriga da mãe e fez outras graças. Lembrou do "companheiro" que chega em casa e não recebe da mulher um elogio pelas 12 horas em que trabalhou, mas apenas a censura pela "cervejinha" que tomou meia hora no boteco da esquina.

Viva eu!

O presidente também elogiou-se bastante: disse que provou que presidente não precisa falar inglês (!?) e que não foi pouco o que seu governo já fez na política externa. Sempre chamando a atenção para si mesmo, afirmou que vai negociar com países ricos questões de comércio, e não apenas reclamar. "Quem me conhece sabe que eu não sou de chorar em reunião. Eu sou de chorar de emoção no meio de vocês, mas não sou de chorar em mesa de negociação".

Coisa séria

Mas, depois de uma das únicas observações sérias feitas no discurso - sobre "as reformas que precisam ser feitas neste país" -, eclodiram as vaias, puxadas pela esquerda e por sindicalistas ligados ao funcionalismo público. Lula reagiu de pronto: lembrou que foi vaiado quando quis criar a CUT. E reverteu a situação: passou a ser aplaudido. Tratou, contudo, de encerrar logo seu discurso.

Tome mais!

Os ministros Jaques Wagner (Trabalho) e Luiz Dulci (secretaria-geral da Presidência) foram também vaiados ao ser anunciados no congresso da CUT. Wagner recebeu novas vaias quando citou o novo salário mínimo, de R$ 240, e o reajuste linear de 1% para o funcionalismo federal.

E mais!

O deputado Professor Luizinho (PT-SP), vice-líder do governo, foi vaiado por servidores durante a sessão da Comissão de Constituição e Justiça, em Brasília, ao defender a reforma da Previdência. Luizinho respondia à crítica feita pelo deputado Mendes Ribeiro (PMDB-RS), que disse que a proposta petista era "desumana" e "irresponsável".

Assim falou... João Felício

"Quero fazer um apelo ao plenário para receber Lula. É óbvio que a CUT ao longo de sua história tem suas divergências, mas temos que lembrar que é a primeira vez que um presidente da República vem a um evento como este. Recebê-lo com carinho é uma obrigação de todo revolucionário de esquerda."

Do presidente da CUT, temendo o que depois se confirmou: que Lula fosse vaiado no congresso da central.

Ironias da história

Poucas coisas são tão graves quanto a rendição dos intelectuais ao poder. Peguemos o caso da notável professora Marilena Chaui, estrela da Filosofia da USP. Quem não acompanha a produção, vamos dizer, jornalística da mestra deve proceder a uma rápida consulta na Internet. Ali veremos o que é um pensamento digno da locução adjetiva que se segue: "de resistência". La Chaui, como é tratada nos ambientes menos formais, nunca nem sequer flertou com todas as tentativas, por exemplo, de aproximar a universidade do mundo da produção.

A síntese: o pensamento não pode se subordinar às vontades do capital. Notável professora! Não se sabe por que Chauí considera gravíssimo que a produção intelectual esteja subordinada à evolução do capital, mas acha aceitável que ela seja sabuja da ideologia. Servir ao capital é necessariamente pior do que servir ao ideólogo de um partido? Na terça-feira, um grupo de intelectuais petistas foi a Lula perguntar quando o governo tomará medidas em favor do crescimento. Saíram de lá com duas metáforas de franciscana pobreza teórica. Ainda assim, La Chaui disse que, "quando Lula fala, o mundo se abre, se ilumina, se esclarece".

E ressaltou que o presidente, que falou por 40 minutos, deveria ter falado mais. Formidável! Umas duas horas de discurso e de metáforas da vida cotidiana a mais, estaríamos todos cegos de tanta luz! De resto, destaque-se, beira a indecência que figurões da universidade tenham ido ao presidente e de lá tenham saído sem uma miserável palavra - de pobre figuração que fosse - sobre o destino da instituição, que nunca esteve tão ameaçada no país como agora, em face da reforma da Previdência proposta pelo governo. A síntese do encontro é sabujice, deslumbramento, mitificação.

Revista Consultor Jurídico, 5 de junho de 2003, 12h19

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