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Diploma volta a valer para o exercício do jornalismo

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O diploma voltou a valer para o exercício do jornalismo. A juíza federal, Alda Basto, do Tribunal Regional Federal da 3ª Região, suspendeu a sentença que dispensou a obrigatoriedade do curso superior. Para ela, a concessão de registro precário de jornalista "sem qualquer restrição" gera "titulares de ilusão".

O pedido foi feito pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), representada pelo advogado João Roberto Egydio Piza Fontes. Com a decisão, os registros precários obtidos por diversos profissionais liberais não valem mais. Ainda cabe recurso.

O advogado argumentou que a sentença da juíza Carla Rister, da 16ª Vara Cível de São Paulo -- que dispensou o diploma --, gerou "uma revolta generalizada na categoria dos jornalistas que regularmente freqüentaram universidades, dedicando anos na aprendizagem de técnicas, critérios, ética e conseqüências da produção e veiculação de informações de qualidade; e que de uma hora para outra, viram desvirtuada a necessidade do diploma, documento, segundo a lei, autorizador do exercício de sua profissão".

Alda Basto afirmou: "Preocupam-nos como ficarão os milhares de jovens que lograrem obter a Carteira de Jornalistas, em virtude da sentença de primeiro grau e conseguirem emprego, pois amanhã podem tudo perder". A juíza liberou a Fenaj da multa de R$ 10 mil pelas carteiras de jornalista que emitiu com tratamento diferenciado dos diplomados.

Piza disse que a decisão "apenas restabelece a ordem natural das coisas". O advogado afirmou que a sentença da juíza Carla Rister "não tem nenhum fundamento como demonstrou a nova decisão".

O procurador André de Carvalho Ramos, que entrou com a ação civil pública para a dispensa do diploma de jornalista, foi procurado pela revista Consultor Jurídico para comentar a decisão, mas está em férias.

Leia a decisão:

PROC: 2003.03.00.042570-8 AG 183911

ORIG: 200161000259463/SP

AGRTE: FEDERAÇÃO NACIONAL DOS JORNALISTAS FENAJ e outro

ADV: JOÃO ROBERTO EGYDIO PIZA FONTES

AGRDO: Ministério Público Federal

PROC: ANDRÉ DE CARVALHO RAMOS (Int. Pessoal)

AGRDO: SINDICATO DAS EMPRESAS DE RÁDIO E TELEVISÃO NO ESTADO DE SÃO PAULO SERTESP

ADV: RUBENS AUGUSTO CAMARGO DE MORAES

PARTE R: União Federal

ADV: ANTÔNIO LEVI MENDES

ORIGEM: JUÍZO FEDERAL DA 16ª VARA DE SÃO PAULO Sec Jud SP

RELATOR: JUIZ CONV. MANOEL ÁLVARES/ QUARTA TURMA

DECISÃO

Vistos, em Turma de Férias.

Agrava a Federação Nacional dos Jornalistas e Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo contra a decisão proferida em Ação Civil Pública, que recebeu a apelação da sentença, de parcial procedência, apenas no efeito devolutivo, confirmado e estendendo os efeitos da tutela, com caráter satisfativo, alegando descumprimento da sentença e imputando multa de R$ 10.000,00 ao agravante se emitir Carteira Nacional de Identidade de Jornalista com tratamento diferenciado daqueles feitos por jornalistas diplomados.

Explica o agravante que após proferir a sentença a magistrada houve por abrir vista ao Ministério Público para que este se manifestasse quanto à notícia de que a agravante FENAJ se recusara a emitir carteiras de identidade e teria publicado lista no jornal da entidade com os nomes dos beneficiários da decisão judicial. A FENAJ intimada alegou que não há comando na sentença para tal cumprimento. A magistrada preferiu, então, decisão, em se referindo ao art. 4º da Lei nº 7.084/1982 quanto à obrigação da FENAJ de expedir carteiras de identificação, aduzindo descumprimento da sentença porque a sentença na ação civil pública pode obrigar terceiros não-participes, vinculando o assistente simples.

Discorrendo sobre o perigo de grave lesão e de difícil reparação, na possibilidade de qualquer pessoa e sem qualquer formação exercer a atividade de jornalismo, em detrimento de todos os profissionais formados em curso superior, acarretar prejuízos irreparáveis a pessoas inocentes sem se assenhorar das conseqüências que as pessoas, requer suspensivo da decisão agravada, afastando-se a incidência da multa e que seja recebida sua apelação no duplo efeito.

Decido.

Na análise do expendido verifico serem dois os pedidos do agravante, quais sejam, atribuir-se o duplo efeito à apelação interposta e, suspender a decisão proferida após a sentença, que criou um "extensão" do dispositivo sentencial, "condenando-o" em obrigação de não fazer e de fazer, sob pena de multa de R$ 10.000,00 ao fundamento de que na ação civil pública a sentença opera efeitos a terceiros que não são réus.

Importante se sumariar os acontecimentos principais. A ação civil pública foi proposta exclusivamente contra a União Federal e, foi deferida tutela antecipada determinando à ré, em todo o país, não mais exigir diploma de curso superior em Jornalismo quando do registro no Ministério do Trabalho para exercício da atividade de jornalista, informando aos interessados a desnecessidade de apresentação de tal diploma, bem como não executar fiscalização ou aplicar autuações, sob pena de multa diária. Proferida a sentença o dispositivo final concluiu por julgar parcialmente procedente o pedido e na condenação manteve os mesmos ditames da tutela e, acresceu a declaração de nulidade de todos os autos de infração pendentes de execução e a expedição de ofício aos Tribunais de Justiça dos Estados, para trancamento de inquéritos ou ações penais por exercício ilegal do jornalismo. Fixou a multa contra a União em R$ 10.000,00 em eventual descumprimento.

Percebo que nem a exordial, nem a tutela nem a sentença fazem qualquer menção ao agravante.

Contudo, após sentenciar, a magistrada sem indicar o sustentáculo legal, abriu vista ao Ministério Público Federal para se manifestar sobre a conduta do agravante, intimando também esta última a se manifestar. Após, referindo-se ao art. 4º da Lei nº 7.084/1982, proferiu decisão condenando a FENAJ a emitir Carteira Nacional de Jornalista sem qualquer restrição aos beneficiados pela sentença, determinando ao Sindicato dos Jornalistas o mesmo procedimento.

Primeiramente é de se frisar que a "sentença" da ação civil pública não tem força de lei em relação a terceiros que não integraram o pólo passivo, porque o comando judicial não atinge pessoas que não são réus na lide coletiva, mesmo porque sequer lhes foi dado o direito de defesa ou do contraditório. Os "efeitos erga omnes ou "ultra partes" a que se refere o art. 16 da Lei 7.347/1985, significa estar inibida a repropositura de ação com o mesmo pedido nos limites da competência territorial do órgão prolator, bem como, que a condenação genérica beneficia todos os indivíduos na mesma situação jurídica, embora não tenham integrado a lide.

Como o agravante não é réu, não está sujeito ao comando da sentença, que sequer lhe faz menção. Neste aspecto, portanto, merece exclusão os comandos direcionados ao agravante.

Outrossim, cumpre registrar que proferida a sentença, publicada na mão do escrivão, o juiz cumpre e encerra o ofício jurisdicional, cessando sua competência para decidir qualquer questão relacionada com a coisa julgada. Neste sentido:

"Decisão em que o juiz acrescenta novo dispositivo a sentença já publicada. Tal decisão não é ato judicial, pois o magistrado já exaurira e acabara sua prestação jurisdição (C.P.C. art. 463)". STJ-RT 699/173.

Em assim sendo, a decisão agravada não tem existência jurídica, por inadmissível perante a lei processual civil, donde, também por este aspecto merecer reparo.

Ademais, a decisão agravada concede pedido não contido na exordial, caracterizando-se como "extra petita". O juiz não pode antecipar tutela que a sentença não outorgou e estranha ao pedido exordial formulado (RT 737/365).

Nestes aspectos, portanto, vislumbro razão ao agravante.

Por outro lado, a decisão agravada recebeu a apelação do agravante apenas no efeito devolutivo, com base no art. 520 inc. VII do Código de Processo Civil.

A regra geral na ação civil pública no tocante à apelação é o efeito devolutivo, para autorizar o resultado útil do processo, permitindo a execução provisória. Neste sentido o art. 273 parágrafo 3º do Código de Processo Civil prescreve que a efetivação da tutela antecipada observará, no que couber o conforme sua natureza, as normas previstas nos arts. 500, 461 parágrafos 4º e 5º, e 461-A.

Deste modo, corre por conta do exeqüente reparar prejuízos causados e necessária será a prestação de caução se a execução deter caráter irreversível e cause grave dano.

No caso em comento, a condenação prevê procedimentos satisfatórios, extintivos de direito de autuação fiscal e até penais, todos com caráter de definitividade, com o que determinar se expeçam Carteiras de Jornalista sem qualquer restrição, sem se apor caráter precário da concessão, conduta que não corresponde à realidade. Criam-se titulares de ilusão. A situação jurídica dos beneficiados é provisória e precária, posto que a matéria está "subjudice", podendo ser revertida a qualquer momento.

Num futuro é possível que aqueles que não têm diploma universitário possam ser jornalistas, se a presente ação for confirmada nos recursos à segunda instância do Judiciário, mas esta não é a realidade de hoje. Preocupam-nos como ficarão os milhares de jovens que lograrem obter a Carteira de Jornalistas, em virtude da sentença de primeiro grau e conseguirem emprego, pois, amanhã, podem tudo perder.

Os danos a advir do cumprimento imediato serão irreversíveis.

Ressalvo que não se cuida na hipótese de dano imediato, mas de discussão do exercício de atividade profissional, na qual se aponta ilegalidade de Decreto-lei que tem 34 anos de vida no ordenamento jurídico, sem qualquer admoestação, motivo pelo qual não contemplo qualquer dano ao aguardo da decisão transitada em julgado nos Tribunais.

Diante de todos estes argumentos, DEFIRO efeito suspensivo aos itens 1, 2 e 4 da decisão agravada e na forma do artigo 14 da Lei n.º 7.347/1885 recebo a apelação no duplo efeito.

Comunique-se ao juízo "a quo".

Cumpra-se o artigo 527 inciso V do C.P.C.

Publique-se

São Paulo, 23 de julho de 2003.

ALDA BASTO

Desembargadora Federal

Turma de Férias

 é editora da revista Consultor Jurídico e colunista da revista Exame PME.

Revista Consultor Jurídico, 24 de julho de 2003, 17h48

Comentários de leitores

12 comentários

Reserva de mercado agora mudou de nome. Não bas...

Guilherme G. Pícolo (Advogado Autônomo - Civil)

Reserva de mercado agora mudou de nome. Não bastasse o fato do Brasil ser o único país em que o jornalista tem a exigência do diploma de JORNALISMO para trabalhar, a ironia final é que, ao tomar em mãos o tal Decreto-Lei 972/69, lê-se, no caput: " OS MINISTROS DA MARINHA DE GUERRA, DO EXÉRCITO E DA AERONÁUTICA MILITAR , usando das atribuições que lhes confere o artigo 3º do Ato Institucional nº 16, de 14 de outubro de 1969, combinado com o § 1º do artigo 2º do Ato Institucional nº 5, de 13 de dezembro de 1968, DECRETAM: (...)" Haja bom humor!

Definitivamente o mundo precisa de pessoas como...

Nilson ()

Definitivamente o mundo precisa de pessoas como o advogado João Roberto Egydio. Parabéns! Percebo que minha frustação passou após o restabelecimento do exercício da função de jornalista a partir da obtenção do diploma. É uma obrigatoriedade que jamais deveria deixar de existir. Não acredito que alguém, mesmo com curso superior independente da área, consiga fazer um jornalismo com a mesma qualidade dos jornalistas diplomados. atenciosamente: Nilson Paes Pereira

Perdoe-me a colega Gislaine Vicente, mas nem to...

Nilton Luiz Severino ()

Perdoe-me a colega Gislaine Vicente, mas nem todo profissional diplomado em Curso de Jornalismo é "jornalista de verdade". Pelo menos a realidade do dia a dia tem demonstrado isso. Cumprimento o colega Jair Viana pelas suas colocações. Com a liberação pelo governo da criação de novas universidades e de novos cursos por todo o país, a quantidade de novos jornalistas que todo ano se coloca no mercado é infinitamente maior que o número de veículos de comunicação e a sua necessidade deste profissional, ou mesmo de vagas oferecidas como assessoria de imprensa, etc. De jornalista profissional desempregado o mercado está cheio. Com isto é que os sindicatos e a federação deveriam se preocupar. Há ainda que se questionar a qualidade de muitos destes cursos. Há que se questionar, também, a aptidão de muitos destes jornalistas que se formam. Não podemos nos esquecer que muitos "papas" da comunicação que já tivemos neste país foram, ou ainda são, jornalistas sem faculdade. E os formados os veneram. Não devemos nos esquecer que quem, na verdade, forma é a vida. É necessário que se estabeleçam critérios, sem dúvida, para a concessão do registro. Que um deles seja o nível superior, não especificamente o de jornalismo, se o profissional comprovar tempo e trabalhos realizados no efetivo exercício da função que demonstrem a sua competência. Nilton Luiz Severino, jornalista "precário" com nível superior. nseverino@alginet.com.br (quero debater o assunto)

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