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Mídia & Governo

O PT, José Rainha e o efeito Orloff no Brasil

Artigo transcrito do site Observatório da Imprensa

É pois de saber que os requebros da cobertura da mídia sobre a profundidade do fenômeno PT não satisfazem. Discrepam, antes de mais nada, quaisquer interpretações clássicas do que seja o Brasil. E levemos em conta aqui os arcanos tão benjaminianos de que uma época, em seus matizes mais sublunares (portanto, inapreensíveis de pronto), dá sinais daquilo que essa época pode estar prenhe. Ok, terão dito: toda a contracultura é pendular, nasce no off Broadway.

E depois vira objeto de consumo. Não foi Lula assim? Passou de blue collar (no termo fordista tão usado para designar o operário) para white collar 13 termo que hoje, infelizmente, dadas as patranhas pontuais da turma da fatiota, significa apenas um sinônimo de crime de colarinho branco.

No mundo das significações, estamos prenhes de um outro barbudo contracultural: que vive também no off broadway, anda em desalinho, em silhueta adelgaçada que lembra esmoleres, e atende pelo nome de João Pedro Stédile. Não capturou a nossa mídia ainda o efeito Orloff da coisa: no mundo da fenomenologia, Lula aparece para José Rainha e dispara: "Veja, eu sou você amanhã".

Na semana passada, laivos bem superficiais desse espírito de época desfilaram encolhidamente nas páginas dos jornais: um dos fundadores do PT, Chico de Oliveira, disse o que pensava a respeito do donaire petista. Eis a notinha do UOL mesclada com a da agência UNB, de 15 de julho:

O sociólogo Francisco de Oliveira, um dos fundadores do PT, disse hoje, durante palestra na 55ª Reunião Anual da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), que o ministro Ricardo Berzoini (Previdência) é um imbecil.

Chico Oliveira, como prefere ser chamado, classificou como "débil mental" quem analisa a realidade e pensa em políticas públicas para o país sem considerar que 40% da população vivem abaixo da linha da pobreza. "Para a lógica capitalista radical, parece que os indivíduos escolhem sua opção. Nessa linha de raciocínio, esse conceito de indivíduo nem existe", disse, exemplificando com a proposta de Reforma da Previdência:

"Estão tentando de novo no país ter uma escolha racional estratégica. Será que o Berzoini (ministro da Previdência) é tão sofisticado a esse ponto? Não. Ele é um imbecil. Não dá para pensar em uma medida com projeção daqui a 30 anos com essa sociedade abissal." Oliveira é professor titular aposentado da Universidade de São Paulo(USP).

Procedem das mesmas grifes que hoje analisam o PT diariamente, nos jornais, análises, até que bastante cadenciosas, que no alto de páginas gritavam ter o PMDB de 15 anos atrás o mesmo futuro do PRI mexicano: dominar o país em mandarinatos que se estenderiam por dilatadas décadas políticas. Erraram feio, que o diga FHC.

O pensamento de Chico Oliveira, cujos livros representavam, nos anos 1980, o à rive gauche fernandista no âmbito da Universidade de São Paulo, deveria ter sido levado mais a sério nas análises da mídia. Não foi.

Ainda se interpreta o PT de hoje como o PT dos anos 1980. E o que a mídia nos prodiga, diariamente, é que tudo vai nos conformes: Lulinha paz e amor fala mal do Bush e dos EUA no Reino Unido, em gritas nas quais se cifram as perpétuas águas que moviam o discurso contestatório e off broadway do PT de 15 anos atrás. O que faltou, então? Faltaram boxes críticos e explicativos de que quem manda no país ainda é o PFL. Como? Bastaria ter perguntado às autoridades judiciais que investigam a ablução monetária de 30 bilhões de dólares, a partir da agência do Banestado de Foz do Iguaçu, sobre os impedimentos e barragens anunciativas que os políticos pefelistas têm imposto, in illo tempore, às investigações que mesmo tangencialmente esbarram nos colarinhos que de fato comandam este país.

Sonho de inverno

Nos anos 1920 tínhamos aquela tão repassada visão de que éramos um país agrário, que vai de Oliveira Vianna, passa por Paulo Duarte, encastela-se nas balaustradas dos Mesquita do Estado de S.Paulo, e chega a Eugênio Gudin. Passamos, no dizer de Bresser Pereira, pela visão "nacional-burguesa", que se instalava nos Cadernos do Nosso Tempo, no Iseb, e no pensamento tardo-marxista de Nelson Werneck Sodré e os quejandos de Roland Corbisier, Cândido Mendes de Almeida etc. Ainda com espectros ideológicos bem definidos pela mídia, chegamos às interpretações do autoritarismo "entreguista" que se fazia de Golbery do Couto e Silva, Roberto Campos (Bob Fields). Passamos pelas críticas de Caio Prado Jr., João Cardoso de Mello. Batemos na teoria da "nova dependência" de FHC et caterva.

E agora? Nossa mídia não dá sinais do que se deva interpretar do PT. Pior: não investiga a ponto de mostrar como os caciques do PFL têm comandado o país (alguém se lembra do discurso de renúncia do ex-senador ACM, cujo ghost writer foi o atual ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos?)

Pensando bem, que se inverta o efeito Orloff: num candente e politonal sonho de inverno, Lula fala outra frase para José Rainha: "Caro José, eu fui você ontem".

Revista Consultor Jurídico, 23 de julho de 2003, 10h29

Comentários de leitores

2 comentários

Com certeza, o nosso presidente estimula a deso...

Roberto Ramos ()

Com certeza, o nosso presidente estimula a desordem, na medida em que tenta governar em cima do muro, ou seja, de um lado, agrada MST, de outro, negocia a ALCA (amplamente rechassada pelo PT). Lula deveria rever seus conceitos e aplicar o que realmente é benefico à sociedade, e não apenas criticar o judiciario e dar as mãos aos desordeiros do MST. PS: com certeza, até o final do mandato, Lula colocará um novo dedo em sua mão, a fim de esquecer que um dia foi proletário.

A esperança venceu o medo? É assustador aind...

Marcelo Mazzei ()

A esperança venceu o medo? É assustador ainda encontrar pessoas com ideais comunistas na sociedade em que vivemos. O pior da mentalidade comunista é exatamente quando se tenta igualar todos por baixo, onde se desestimula o progresso individual do ser humano, que é o princípio básico do progresso de um povo, e, consequentemente de uma nação. Mas tudo isso que estamos presenciando é muito bom, um dia tinha que acontecer. A ameaça da foice e do martelo, dos invasores da propriedade alheia, dos incompetentes com inveja daqueles que galgaram alguma posição na vida...O medo sempre existiu, por isso o PT nunca chegou à Presidência. Quando chegaram, afirmaram que a esperança venceu o medo. E o medo volta. E é bom, porque a ameaça não mais voltará, quando o medo se torna certeza. O espetáculo de demonização dos servidores públicos, mormente dos membros do Judiciário e do Ministério Público já era esperado , e o discurso da igualdade esconde ideais fascistas e totalitários, de um partido com sólidas bases comunistas, que querem levar nosso País ao patamar de Cuba ou Venezuela. Mas ainda confio nas nossas Instituições, confio naqueles que estudaram, mormente dos que estudaram Direito,que aliás, deveria ser exigido o diploma de bacharel a todos aqueles que quisessem ingressar num cargo público eletivo. Talvez assim não assistíssemos a tanta ignorância, que a tantos envergonha, de um semi-analfabeto, que, como é sabido, cortou o dedo de propósito ( como era muito comum antigamente entre os metalúrgicos), somente para se aposentar por invalidez. Sua Excelência, o Sr. Dr. Torneiro Mecânico é um estelionatário que deveria estar preso, e que, acredito, perderá seu cargo em breve, pois , além de trair toda uma legião de eleitores, está atentando ferozmente contra a Constituição Federal, e o livre exercício dos demais poderes, configurando crime de responsabilidade, conforme preceitua o art. 85 de nossa Lei Fundamental. Marcelo Mazzei-4º ano de Direito-São Paulo-SP

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