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Caminho das pedras

Investimento em inteligência policial inibe crimes, aponta estudo.

O jornalista e pesquisador Bruno Paes Manso defendeu tese de mestrado em Ciência Política, na USP, que traz uma curiosa constatação: a melhor forma de acabar com a onda de homicídios, que volta e meia recrudesce no Brasil em geral, e em São Paulo, em particular, é investir na inteligência policial.

Bruno passou quase três anos entrevistando 17 matadores, da Grande São Paulo, que cometeram -- cada um -- uma média de 30 homicídios. Em 140 páginas, o trabalho de Bruno Paes Manso, intitulado Homicídios e Homicidas em São Paulo: marcados para morrer, mostra a curiosa e perversa ética dos maiores matadores em série.

Leia a entrevista concedida pelo jornalista:

Como começou o trabalho?

Em 1999, eu trabalhava como repórter na revista Veja e aquele era o segundo ano consecutivo em que explodia uma quantidade de chacinas na cidade. Eram cerca de 90 chacinas e eu tinha de fazer uma reportagem sobre o tema. Então fui pesquisar com especialistas, ver números, mas a matéria saiu muito fraca.

Aí surgiu a idéia dos editores, e a gente decidiu, juntos, perguntar para os próprios matadores porque que eles matavam e quais eram os motivos. Eu fiz a reportagem, saiu publicada na revista, mas só uma pequena parte, pelo limite do espaço.

E ficou um material muito rico nas minhas mãos. Eu continuei a trabalhar em redação, com jornalismo, e não teve um único dia da minha vida que eu não pensasse nas longas conversas que eu tive com esses matadores. Achei então que valia a pena aprofundar o tema. Era uma oportunidade rara que eu tinha tido e valia a pena ir mais a fundo. Então, em 2002, eu prestei um mestrado para Política, na USP, para aprofundar este assunto.

Você entrevistou pelo menos 15 grandes matadores. O que eles alegavam para cometer tantos crimes seriados?

Eles eram da zona sul, da zona leste de São Paulo e da região da Grande São Paulo também, de diferentes pontos da cidade. O que me surpreendeu nessas conversas é que apesar de serem grupos de matadores de lugares diferentes, quando eu perguntava "Por que vocês matam?", havia uma resposta em comum entre todos, e isso foi o que mais me surpreendeu. Eles todos falavam que (alguns deles tinham matado mais de 50 pessoas) todas as pessoas que morreram nenhuma delas era inocente, que todos teriam merecido morrer.

Então, esse é o ponto forte do meu trabalho: existem entre os matadores categorias de pessoas que merecem morrer, desde o alcaguete, do nóia (viciado). O matador diz em geral "Matei não poque sou mau, mas porque eles mereciam, então quando é assim a gente mata sem perdão mesmo, mas fico tranqüilo porque nenhum é inocente, tenho tranqüilidade porque ele merecia morrer mesmo".

Entender essa lógica, essa moral, essa justiça privada, foi nisso que tentei me aprofundar.

Isso demonstra um incrível descrédito na Justiça, não ?

Na verdade, por onde eu fui eu acho que é bem próximo daquilo que mostra que todas essas pessoas com quem conversei, todas essas que têm esse discurso mais moralista, mais rígido, são pessoas que exercem algum tipo de atividade criminal: ou traficante, ou ladrão de carro, ou ladrão de banco, seqüestrador. Se eu sou um ladrão de carro, eu preciso conhecer o atravessador, eu preciso conhecer o cara que faz o desmanche,etc. Há uma rede de pessoas que exercem atividades criminais aqui obviamente não pode ser intermediada pela

Justiça.

Existe aí um conflito de interesses, o cara que faz as "correrias" comigo, o cara que rouba comigo, se ele me traz problemas, não dá para entrar em contato com a Justiça. Não há intermediadores de conflito nesse meio. O homicídio então, com o passar do tempo, se transformou na forma de se resolver conflitos entre pessoas que exercem atividades criminais.

Então essa moral, essa violência, se instituiu como a forma normal de se resolver problemas nesse meio do universo criminal. Isso não é um problema de periferia. Se você for em bairros periféricos, pode ficar até tarde no bar ou na porta, na calçada de casa, sem problemas.

Eu tentei desmistificar que bairros periféricos são necessariamente violentos. O problema da periferia é o problema de pessoas que se relacionam no universo criminal que não tem intermediadores de conflitos e onde as pessoas matam para resolver problemas.

Que solução você aponta para brecar essa violência?

Eu tenho trabalhado no Instituto de Pesquisas Fernand Braudel, que tem desenvolvido trabalhos como por exemplo em Diadema. Uma coisa que me surpreendeu é que em Diadema uma série de medidas foram tomadas desde o ano 2000, quando aquela cidade chegou ao número um no índice de homicídios no Estado de São Paulo. E a partir de 2002 o índice de homicídios ali caiu em 75% principalmente porque investiram muito ali na polícia civil, na investigação, o setor da inteligência foi muito equipado.

O que me chama a atenção é que em dois anos, uma queda de 75%, revela que o homicídio é um problema que pode ser resolvido a curto prazo. Não precisa daquele papo de que se precisa investir em educação, claro que isso é importante, mas não se precisa esperar uma geração, não precisa esperar a pobreza no Brasil, não precisa esperar que todo mundo se torne bem educado para resolver esse problema: ele é resolvível em curto prazo.

Quem fala "primeiro precisamos acabar com o problema social no Brasil para resolver o problema dos homicídios" é porque está empurrando com a barriga e quer tirar a responsabilidade das costas, porque algumas prefeituras que têm investido têm conseguido reverter em curto prazo esse problema que é questão de boa vontade. É complicado, é delicado, mas os resultados são alcançados em prazo curto.

Revista Consultor Jurídico, 21 de julho de 2003, 11h21

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