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Confusão na América

'O Brasil e os EUA trocaram seus presidentes?'

É surpreendente que ninguém tenha notado, mas parece que houve uma terrível confusão envolvendo presidentes no continente americano.

Há algum tempo afirma-se que o presidente dos EUA, George W. Bush, não sabe o que faz. A explicação é simples: ele deveria ser o presidente do Brasil.

Luiz Inácio Lula da Silva, por sua vez, deveria ser o presidente dos EUA. A confusão é óbvia se considerarmos os fatos.

Oligarcas abastados, que alcançam altos postos por meio do nepotismo, promovem amigos da família no governo enquanto presidem o relaxamento corporativo e acumulam dívidas enormes com incentivos fiscais para seus simpatizantes ricos e direitistas - é esse o tipo de comportamento pelo qual os presidentes sul-americanos são famosos.

Enquanto isso, políticas de austera prudência fiscal, aplaudidas pelos mercados financeiros internacionais, e duras reformas na assistência social são o que se espera dos líderes dos EUA.

Porém, numa bizarra guinada geopolítica, esses estereótipos se inverteram.

Embora o presidente do país mais importante da América do Sul seja, como pessoa, totalmente diferente do presidente do país mais importante da América do Norte, é difícil não achar que o mundo seria melhor se os dois trocassem seus postos.

A ironia é que, durante a eleição presidencial americana de 2000, a diferença entre Bush e o candidato democrata Al Gore era tão ínfima que o par foi apelidado de "Gush e Bore".

Esperava-se que Bush, vindo de um contexto e um partido conservadores, se agarrasse ao status quo de orçamentos equilibrados e moeda forte herdado do governo Clinton. Poucos analistas - se algum - acharam que a vitória apertada de Bush faria alguma diferença na maneira como a economia dos EUA era conduzida.

A eleição de Lula foi bem menos auspiciosa, precedida por advertências sombrias sobre declínio econômico - embora ninguém tenha acusado o populista ex-líder sindical de ser idêntico a José Serra, seu oponente tecnocrata.

A eleição de Lula, antigo sindicalista radical da vasta classe trabalhadora do Brasil que concorrera à Presidência quatro vezes, foi tratada com horror.

Afirmou-se que ele era um esquerdista incendiário que iria destruir a estabilidade desfrutada pelo Brasil com as políticas pragmáticas do governo anterior, liderado por Fernando Henrique Cardoso.

No entanto, desde sua eleição, as políticas de Lula têm sido enaltecidas pelos banqueiros que comandam os mercados financeiros. O Brasil foi abalado pela implosão econômica da Argentina no ano passado, mas, desde a vitória de Lula, a moeda brasileira, o real, tem conseguido uma recuperação notável nos mercados mundiais. Ao mesmo tempo, a taxa de juros sobre a dívida do governo brasileiro caiu pela metade desde a eleição, em outubro, à medida que os banqueiros começaram a considerar menor o risco do país.

Enquanto Bush falava em "não deixar nenhuma criança para trás" como presidente, Lula transformou a reforma da Previdência Social em sua peça central, para ajudar a equilibrar o Orçamento de seu governo e baixar as taxas de juros.

Sob Bush, a política caminha na direção oposta. O dólar desceu aos níveis mais fracos desde sua eleição, enquanto a economia continua tropeçando - apesar de o banco central dos EUA despejar dinheiro barato em ritmo acelerado.

A resposta de Bush diante da fraqueza econômica tem sido retornar à desacreditada política "de cima para baixo" (segundo a qual benefícios aos grandes acabam chegando ao resto), concedendo grandes cortes de impostos para os ricos - exatamente o tipo de política que seu pai, George Bush, descreveu de maneira memorável como "política vodu".

Ao longo de sua campanha eleitoral de 2000, Bush prometeu insistentemente equilibrar o orçamento do governo. Em lugar disso, nas palavras do economista Paul Krugman, o governo dos EUA "está diante da perspectiva de grandes déficits até onde a vista alcança".

Bush está oferecendo cortes de impostos que custarão mais de US$ 600 bilhões, com mais da metade dos benefícios indo para os ricos, aqueles que ganham mais de US$ 200 mil por ano. Desta soma, US$ 150 bilhões irão para os muito ricos - aqueles que ganham mais de US$ 1 milhão por ano.

Mas o motivo mais óbvio pelo qual George W. Bush deveria trocar Washington por Brasília é que esta lhe cairia melhor. Bush gasta muito tempo tentando negar sua origem de sangue azul e educação de elite, posando como homem do povo - fugindo para trabalhar em seu rancho texano, usando chapéu de caubói, dirigindo uma picape.

Lula, por outro lado, cresceu na pobreza abjeta perto de São Paulo, vendendo amendoins e trabalhando de engraxate. Ele é um autêntico homem do povo - e, num mundo ideal, estaria na Casa Branca.

A troca significa, é claro, que o Brasil ficaria com George W. Bush. Mas então Jorge Arbusto, como ele seria chamado, poderia muito bem curtir a vida na rude Amazônia.

Se o povo do Brasil o quer é outro problema.

Fonte: The Guardian

Revista Consultor Jurídico, 30 de janeiro de 2003, 16h13

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