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Encontro mundial

Fórum Social na Índia pode reunir um milhão de pessoas

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Apenas dois países integram o seleto clube do bilhão: China, com 1, 28 bilhão de pessoas, e Índia, que, segundo dados das Nações Unidas, atingiu esse número em 1999 e até 2050 deverá ter uma população de 1, 5 bilhão de indianos (tornando-se o país mais populoso do mundo já em 2045. A cada ano, ainda segundo as Nações Unidas, uma Austrália – 18 milhões de pessoas – contribui para a explosão demográfica do país).

Imagine o tamanho de um Fórum Social na Índia? Ano passado, aconteceu na cidade indiana de Hyderabad o Fórum Social Regional Asiático. A expectativa de público, segundo os organizadores, era de 7 mil delegados. E 7 mil viraram 25 mil.

O engenheiro Prabir Purkyastha, membro da organização não-governamental Dheli Science Forum, foi secretário do Fórum Asiático e trabalha na organização do Fórum Social Mundial 2004. Se o assunto é o tamanho do evento, ele não arrisca. "Nós tivemos 25 mil. Sendo assim, não vou fazer qualquer suposição sobre o Fórum Social Mundial neste momento." Chico Whitaker, secretário-executivo da Comissão Brasileira de Justiça e Paz da CNBB e membro do Conselho Internacional do Fórum, imagina como será o futuro em um país com tanta gente.

“Fizeram um fórum de 20 mil (Fórum Social Asiático), para eles é uma brincadeira! Ah, um fórum deles deve dar 1 milhão.” Os que conseguirem atravessar o planeta para participar do Fórum Social Mundial 2004 na Ásia encontrarão o predomínio de outras cores, olhos mais puxados, pele escura, e baterão de frente com aquela mesma agenda do mundo novo, da globalização.

Privatizações, desestruturação de instituições públicas. Energia, telecomunicações... Vai tudo para o setor privado. “O que aconteceu no Brasil oito anos atrás começou a acontecer nos últimos três anos no meu país”, explica Prabir. E muito mais: há privatização da água, da saúde, de companhias de seguro, de maneira mais discreta de universidades, escolas... Muitos chegam à idade adulta sem aprender a ler. E todo ano um exército de 10 milhões tenta ingressar em um mercado de trabalho já saturado.

A agenda do novo mundo trouxe ainda mais diferenças à sociedade de castas, criando fraturas sociais, étnicas e religiosas. O engenheiro Prabir questiona: “Deveríamos nos perguntar por que a globalização está causando aumento da violência? Penso que a exploração promovida pela globalização provoca colisões sociais, mas tenho esperança na internacionalização dos movimentos”.

O Fórum Social Asiático é representativo. Faz imaginar um pouco do que será o Mundial. Diferentes porções da população da Índia compareceram, como as mulheres e mesmo os dalits, o segmento mais baixo da sociedade, chamados de intocáveis, gente que anda com vassoura amarrada no dorso para varrer as próprias pegadas, que muda de calçada para não sujar o caminho dos mais nobres, que luta contra a opressão.

Diz o otimista Prabir: “Pela primeira vez, esses grupos não estão falando somente de seus problemas, mas de problemas que envolvem à globalização. É um novo elemento em termos de política dalit. E o processo está se espalhando”. Globalização e superpopulação são ingredientes que chamam a atenção do comitê organizador para 2004. Por maior que seja o aumento na produtividade de uma agricultura cada vez mais voltada para a exportação, o crescimento rápido da população ameaça a segurança alimentar e as reservas de água.

Em 1960, a média de área plantada por habitante era de 0,21 hectare. Em 1999, 0,10 hectare. A previsão é de que esse número baixe para 0,07 em 2050. Em um país onde mais da metade das crianças sofre de desnutrição, redução no suprimento alimentar é risco de vida. A situação política atual também não ajuda. No poder, uma coalizão liderada por um partido de direita com um programa antiminoria e exclusivista.

“Tenta excluir muçulmanos para fazer da Índia um Estado essencialmente hindu”, afirma Prabir. Essa posição aquece ainda mais o conflito com o vizinho Paquistão, conflito que molda e moldou o orçamento. Apesar de pobre, o Estado sempre gastou muito no poderio bélico, em seu programa nuclear, investindo anualmente 2,5 por cento do PIB na área militar e apenas 0,7 por cento na saúde. Uma questão levantada pelo Comitê é a possível dificuldade de obtenção de visto de entrada no país para participar do Fórum. Prabir não acredita que seu governo tenha coragem de se posicionar publicamente contra o Fórum.

Chico Whitaker acredita que o Fórum estará protegido sob o apoio de políticos importantes. “Um deles é o antigo primeiro-ministro V. P. Singh, que só não veio a Porto Alegre porque tem problema de fazer hemodiálise três vezes por semana. Se um sujeito como ele dá apoio, segura todas essas preocupações.” A ida do Fórum para a Índia representa para muitos o início de mudança ou pelo menos do fortalecimento dos que pedem por democracia econômica, social e religiosa na Ásia e África. Vai levar a estrutura básica, abrir o espaço de discussão para que movimentos passem a lutar juntos e construam o entendimento necessário para que idéias se afinem.

O Fórum pode acelerar o processo, mas não pode ser encarado como substituto dos movimentos sociais, tais como sindicatos, partidos políticos, ONGs... Para Pasya Padma, do Communist Party of India e membro do grupo Women Friend que luta pelos direitos da mulher indiana, vai ser a chance de mobilização. “Com o Fórum partindo para a Índia, se intensifica a luta contra o Banco Mundial, o FMI, a Organização Mundial do Comércio – essas organizações do imperialismo. Isso ajudará até mesmo a mulher rural em sua luta por direitos.”

Desde a realização do primeiro Fórum Social Mundial em Porto Alegre, em 2001, havia pressão para que esse espaço de discussões nunca saísse do Brasil. “O que é, na minha opinião, uma falta de compreensão do que é o processo. Ou enfrentamos o neoliberalismo em nível mundial ou ficamos jogando alfinetinhos em um gigante aqui do nosso lado brasileiro”, explica Chico Whitaker. Já naquela época, os organizadores decidiram pela mundialização, pela busca de maior internacionalização de um projeto que buscasse espalhar a discussão, primeiro fazendo fóruns concomitantemente em vários lugares do mundo.

Algum tempo depois, surgiu a idéia de levar o Fórum Mundial de Porto Alegre para outra cidade, de começar um revezamento. Houve uma reunião do Conselho Internacional em Dakar em 1 de novembro de 2001. Nessa reunião, o Conselho considerou fundamental a realização de fóruns mundiais em outros continentes. Enviou-se uma comitiva de três pessoas à Índia, entre elas Whitaker, o economista e educador Sérgio Haddad e o sociólogo argentino Gustavo Marin. Mas somente agora o martelo foi batido; 2004, na Índia. Levaram-se em conta a dimensão do país, o desenvolvimento dos movimentos sociais, a problemática social e econômica.

O governador eleito do Rio Grande do Sul, Germano Rigotto, foi um dos que protestaram. Em discurso, disse que o Fórum tinha de ficar, de qualquer maneira. Pela internacionalização, Chico faz um cálculo rápido: “Das 100 mil pessoas aqui (Fórum 2003), provavelmente 80.000 são brasileiros. Isso tem de ser vivido na Índia também. Se a gente não começa a fazer isso em todas as partes do mundo, ficamos um movimento provinciano que pode até morrer. Mais três anos, definha e cai na mesmice”.

Praticamente 99 por cento dos membros do Conselho Internacional votou com Chico. A verdade é que apenas um grupo estava contra, o grupo dos cubanos. Os cubanos se posicionaram contra porque acreditam que revolução se faz a partir da América Latina. Buscou-se o consenso, mas eles mantiveram o voto contra. Foram obrigados a aceitar a maioria quase absoluta. Para Whitaker, estão equivocados. “No fundo, pensam que o Fórum é um movimento, um movimento dos movimentos. Não é.

O Fórum é um espaço que tem de ser aberto ao mundo, para que essa dinâmica possa ser vivida, para que haja um intercâmbio de experiências e articulação.” Paquistão, Filipinas, Turquia, Sri Lanka, Nepal, Coréia estão entre alguns dos países-membros do comitê organizador do Fórum 2004. Mas eles querem muito mais nações e organizações envolvidas. “Gostaríamos que a responsabilidade do Fórum fosse tomada pelas principais organizações populares, que se comprometessem com este Ffórum”, explica Prabir.

O comitê imagina a possibilidade de estender ainda mais a proposta e fazer um fórum afro-asiático, quem sabe?, o tal fórum com 1 milhão de pessoas que não puderam conhecer Porto Alegre. “Quem não quer um Fórum Social no quintal de casa?”, encerra Chico. Não se preocupem, em 2005, o Fórum volta para o Brasil – decisão do Conselho Internacional.

 é jornalista

Revista Consultor Jurídico, 27 de fevereiro de 2003, 8h59

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