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Crime organizado

PF relata reunião de filho de Vidigal com quadrilha de Arcanjo

O jornal Folha de S. Paulo desta segunda-feira (24/2) afirma que Erick José Travassos Vidigal, filho de Edson Vidigal, vice-presidente do STJ, negociou, em Cuiabá, um contrato milionário em 22 de janeiro deste ano. Repartiria com dois sócios R$ 2 milhões.

Segundo o jornalista Josias de Souza, entre os interlocutores de Erick estava um advogado cuja função é "negociar sentenças" judiciais em favor da quadrilha de João Arcanjo Ribeiro, de Mato Grosso. Arcanjo está foragido. É caçado em megaoperação que mobiliza a PF, a Interpol e até o FBI norte-americano. Pesam contra ele acusações variadas -da exploração de máquinas caça-níqueis à encomenda de assassinatos, do comércio ilegal de armas ao tráfico de diamantes, da sonegação de impostos à lavagem de dinheiro.

A qualificação do interlocutor do filho do ministro do STJ consta em um documento confidencial da Polícia Federal. A última página mostra os nomes de advogados e lobistas que dão suporte jurídico à quadrilha mato-grossense. Erick é mencionado, de acordo com a notícia do diretor da sucursal da Folha de S. Paulo, em Brasília.

Abaixo do nome de Erick, em letras menores, a PF anotou o de seu pai, Edson Vidigal. O filho do ministro é apontado pela PF como elo do grupo de Arcanjo Ribeiro com o STJ. Na viagem a Cuiabá discutiu o "assessoramento" à quadrilha nos tribunais. Em entrevista à Folha de S. Paulo, disse ter participado do encontro. Afirmou, porém, que não conhecia as pessoas com quem se reuniu.

A PF os conhece. Identifica-os em relatório de 14 de fevereiro. Uma das pessoas que se avistaram com Erick se chama Avelino Tavares Júnior. É retratado assim: "Advogado, militante em Cuiabá (MT). Foi preso nas dependências da delegacia de Polícia Federal em Ji-Paraná, após análises e cruzamentos de informações que comprovaram sua efetiva participação na lavagem de dinheiro e na aquisição de diamantes oriundos da extração clandestina na Reserva Indígena Roosevelt [...]".

Avelino Tavares integra, segundo a PF, a hierarquia da quadrilha de Arcanjo Ribeiro e tem uma função peculiar. "Sua atuação na estrutura criminosa", anota o texto da PF, "é negociar junto a pessoas com interesses em obter sentenças, fazendo uso de lobistas para, em contato com pessoas ligadas ao Judiciário, alcançar sentenças favoráveis."

Para Avelino, a principal credencial de Erick Vidigal era a paternidade do jovem advogado. Formado há um ano, Erick representava para a quadrilha a perspectiva de obtenção de "sentenças favoráveis."

A movimentação de Erick Vidigal levou a polícia a suspeitar de seu pai. Um outro relatório secreto da PF, datado de 28 de janeiro de 2003, traz inclusive a foto do ministro Edson Vidigal. Conforme revelou a Folha em sua edição de domingo, escuta telefônica da PF mostrou que Erick chegou a negociar com os bandidos uma decisão que seria tomada por seu pai.

Tratava-se de um habeas corpus impetrado no STJ para liberar da cadeia Luiz Alberto Dondo Gonçalves, contador da quadrilha do "comendador". A negociação começou em Brasília. Coube a Timóteo Nascimento da Silva a tarefa de estreitar relações com Erick Vidigal.

A documentação secreta da PF traça o perfil de Timóteo Nascimento: "lobista, advogado [...]. Sua função era permanecer em Brasília, para realizar contatos com os "consultores". Aparentemente, assumiu a função de liderança do grupo, é o principal negociador, visto que ao final passou a tratar a parte financeira, além dos temas técnicos [...]."

Timóteo Nascimento é, segundo a PF, "pessoa ligada à política na região de São Paulo". Em 1996, concorreu à cadeira de vereador em São José do Rio Preto (SP) pelo PMDB. Em 1998, "foi candidato a deputado federal". Obteve uma suplência.

À medida que os entendimentos brasilienses evoluíam, Timóteo repassava informes, pelo telefone, a um irmão dele, que repassava os dados para Avelino Tavares, em Cuiabá. O irmão de Timóteo se chama Samuel Nascimento da Silva, um "lobista", segundo a Polícia Federal.

Num dos telefonemas captados pelo grampo da polícia, em 22 de janeiro, Timóteo informou a Samuel o preço supostamente cobrado por Erick Vidigal pela liberdade do contador Luiz Alberto Dondo Gonçalves. "É US$ 100 mil, viu?" Samuel quis saber: "Mas já tá acertado?" E Timóteo: "Tá acertado lá, o pai dele [ministro Edson Vidigal] pediu pra ele falar com o assessor lá, que tava responsável, já tinha até feito um serviço negativo, eu acho, né? [...]."

Para desespero da quadrilha, o ministro Edson Vidigal negou provimento ao pedido de habeas corpus. Em outro trecho do grampo, Timóteo conta ao irmão as razões que lhe foram expostas por Erick Vidigal. Recurso semelhante foi indeferido pelo TRF (Tribunal Regional Federal). Uma decisão diferente de seu pai feriria jurisprudência do STF. Soaria escandalosa. Daí a referência ao "serviço negativo" encaminhado pela assessoria de Edson Vidigal.

A despeito da negativa, os canais com o STJ mantinham-se "abertos", informou Timóteo a Samuel. Por isso, deu-se prosseguimento às negociações com Erick Vidigal. Agora não mais para a obtenção de uma decisão específica, mas para um assessoramento jurídico "mais amplo", ao custo de R$ 2 milhões.

Erick Vidigal foi conduzido a Cuiabá pelo próprio Timóteo. A reunião foi feita num horário em que a cidade dormia. Mas o filho do ministro deixou rastros em sua passagem pela capital mato-grossense. Vestígios devidamente registrados na papelada secreta da PF.

Erick embarcou em Brasília na noite de 22 de janeiro, no vôo RG 2048, da Varig. Desembarcou em Cuiabá às 21h30, horário local. Além de Timóteo, acompanhavam o filho do ministro dois sócios dele, os advogados Jaison Osvaldo Della Giustina, de Brasília, e Gustavo Furtado Silbernagel (pronuncia-se Silbernáguel), de Florianópolis (SC).

A comitiva foi recolhida no aeroporto pelo lobista Samuel. Foram conduzidos a uma casa onde eram aguardados por Avelino Tavares. Mais tarde, chegou ao local Eduardo de Vilhena Toledo, advogado oficial das causas do "comendador" Arcanjo Ribeiro. Chefia uma respeitada banca de Brasília.

Erick Vidigal e os dois sócios dele retornaram a Brasília na madrugada de 23 de janeiro. Deixaram Cuiabá antes do amanhecer, às 4h, no vôo VP 4250, da Vasp. Diálogos captados pelo grampo da polícia indicam que não houve acerto no preço. As negociações prosseguiram, sem sucesso, até a semana passada.

Advogado diz ter "dever" de analisar todas as causas

Erick Vidigal disse à Folha que, como advogado, tem "o dever" de analisar os casos que lhe chegam. Por isso, viajou a Cuiabá (MT), para negociar causas de integrantes da quadrilha do "comendador" João Arcanjo Ribeiro. "É óbvio que as pessoas envolvidas em grandes problemas acreditam nessa ficção de que parente de magistrado tem poder para resolver alguma coisa", afirmou o filho do ministro Edson Vidigal. "Sou advogado, inscrito na OAB. Se a pessoa acredita nisso, eu, em nenhum momento, fiz a pessoa acreditar", afirma.

Por que negociou uma causa envolvendo decisão que seria tomada por seu pai? "Meu pai não é presidente da corte. Quem responde nos recessos e finais de semana é o presidente. Eu não tenho impedimento em advogar perante o presidente da corte. Em determinada data, o meu pai assume [a presidência]. E o impedimento surge."

Os diálogos captados pelo grampo da polícia indicam que Erick negociou com representantes da quadrilha de Arcanjo Ribeiro no próprio dia em que o pai dele decidiu sobre o habeas corpus que interessava a membro da quadrilha (22 de janeiro último). Mas Erick sustenta que, constatado o impedimento, ele recusou a causa.

Em nota divulgada na sexta-feira, o ministro Edson Vidigal pediu a abertura de inquérito específico da PF para apurar o caso. Responsável pelas investigações em Mato Grosso, o procurador da República Pedro Taques disse: "Virou moda no Brasil pessoas investigadas pedirem a abertura de investigação."

Leia nota divulgada pelo ministro Edson Vidigal.

Revista Consultor Jurídico, 24 de fevereiro de 2003, 10h25

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