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Poder dos médicos

'O poder dos médicos e o atendimento precário dos pacientes.'

Faz pouco tempo, um senhor de 93 anos teve um problema no aparelho digestivo e precisou de atendimento médico. Sua mulher, de 74 anos, estava muito preocupada e levou-o para uma consulta com um gastroenterologista do convênio. Após aguardarem bastante na sala de espera, entraram para falar com o médico, um homem que não levantou os olhos para receber o casal e, sem dizer bom dia nem qualquer outra palavra de cordialidade, foi logo perguntando ao paciente: "qual é o problema?" O senhor idoso disse ao médico que preferiria que sua mulher explicasse o caso.

Com certa impaciência, o doutor olhou para a mulher e aguardou que ela começasse a falar. Antes que a senhora pudesse terminar a primeira frase, ele mandou: "fale para fora!" Tomada de surpresa, ela supôs que o médico tivesse algum problema auditivo e aumentou o tom de voz. Estava ansiosa para ouvir a opinião dele sobre o estado de saúde de seu marido, ao mesmo tempo em que se sentia intimidada com a descortesia com que haviam sido recebidos.

Começou a falar novamente, em tom pausado e firme, mas, antes que conseguisse concluir a próxima frase, o médico esbravejou: "fale mais baixo!". Não é preciso dizer que a consulta foi um fracasso. O casal terminou a conversa rapidamente e saiu da sala pior do que entrou: além de não ter recebido nenhuma orientação adicional sobre o estado de saúde do senhor de 93 anos, ainda sentia-se humilhado e revoltado com a grosseria e a incompetência do profissional que os atendeu.

Outra história desagradável, mas absolutamente verídica, como a anterior, é a da moça de 24 anos que, repentinamente, viu-se acometida de um tumor maligno. Recorreu ao Sistema Único de Saúde (SUS), pois não tinha convênio, e entrou para a consulta já em desespero devido à gravidade da sua doença. Irritado com o estado de espírito da paciente que, além de nervosa, tinha medo dos efeitos colaterais da quimioterapia, o médico acabou dizendo: "desse jeito você vai morrer". Esta infeliz frase levou a paciente à depressão por várias semanas e quase, realmente, matou-a.

Foi-se o tempo em que a medicina era considerada um "sacerdócio". Hoje, ela é simplesmente mercantil, como todo o resto de nossa sociedade. Nos convênios médicos e no SUS, dificilmente alguém recebe atendimento digno deste nome. As pessoas são tratadas com o máximo de impessoalidade e rapidez, porque o que conta é o dinheiro, ou a falta dele. Há pacientes que não chegam a sentar na sala do médico e já são convidados a se retirar.

A situação está tão grave que ser apenas mal atendido no consultório é considerado normal, já que há filas intermináveis no sistema público e, com relação aos convênios, o pagamento pelas consultas é pequeno e os profissionais têm de ganhar na quantidade de atendimentos. Há médicos que marcam consultas a cada 15 minutos. Ninguém pode ser bem atendido com tamanha brevidade.

É preciso ter muita consideração com as pessoas doentes. Elas chegam fragilizadas ao consultório e, evidentemente, estão pedindo socorro. Além de buscar o remédio certo para seu mal, o enfermo precisa de amparo moral e emocional. Uma grosseria gratuita do profissional de saúde pode causar danos que irão agravar a doença do paciente, já que o sistema imunológico está intimamente ligado ao sistema nervoso.

O poder do médico é enorme. Ele pode curar demonstrando atenção e solidariedade, apenas. Pode matar se fizer o contrário, menosprezando o doente. O paciente fica inteiramente nas mãos do médico: permite que lhe sejam aplicados medicamentos que desconhece, segue o tratamento indicado, confia que está sendo corretamente tratado. Submete-se a situações em que não tem o menor controle do que lhe pode acontecer, como no caso da sedação e da anestesia.

Aproveitando-se disso, alguns profissionais chegam ao extremo de cometer crimes em seus locais de trabalho. O pediatra Eugênio Chipkevitch está preso sob acusação de sedar seus pacientes e submetê-los a atos libidinosos e violações sexuais. O cirurgião Farah Jorge Farah, também preso, está sendo investigado por ter matado e esquartejado sua amante, que era também sua paciente, dentro do próprio consultório.

Outras mulheres denunciaram Farah por abusos sexuais quando estavam sedadas por ele. Tais fatos demonstram que a vulnerabilidade dos pacientes é total. Nem poderia ser de outra forma, pois o tratamento depende da confiança no profissional. Daí a importância da ética e do senso de responsabilidade para quem se dedica à medicina.

O Brasil teve e tem grandes médicos, homens e mulheres que assumiram o "sacerdócio" verdadeiramente, com vocação e competência. São exemplos de dedicação à causa da saúde, como Oswaldo Cruz ou, mais recentemente, Euclides Zerbini e Daher Cutait. Entre os vivos, Adib Jatene, Raul Cutait, Patrícia Sawaia, Azarias de Andrade Carvalho, Luiz Carlos Sanvitto e Rubens Belhaus, além de muitos outros. Esses médicos souberam usar seu ilimitado poder sobre os pacientes, com a exata noção do alcance da sua missão - esse é o verdadeiro segredo da medicina.

Revista Consultor Jurídico, 6 de fevereiro de 2003, 11h28

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