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22 agosto 2003

Legalmente por baixo

"Até mesmo os escritórios de advocacia estão quebrando."

Por Fabio de Castro Nogueira Santos

Texto traduzido da revista The Economist

Por anos, Altheimer and Gray foi um pilar no cenário jurídico de Chicago. Brobeck, Phleger & Harrison, por muito tempo, foi uma força na costa oeste. O que ambos tinham em comum nos últimos anos, além de um lugar bem estabelecido em suas respectivas comunidades legais, eram planos de expansão agressivos. Este ano eles compartilharam um destino comum: falência.

No ano passado, diversos escritórios venerandos de advocacia fecharam as portas. Outros não estão com boa saúde. Em julho, o Clifford Chance, um gigante global baseado em Londres, disse que atrasou sua distribuição de lucros para os sócios. Começou a haver conversas sobre aumentar seu endividamento, que já era grande.

Escritórios de advocacia têm tradicionalmente mantido seus assuntos longe do conhecimento público. Impedidos de serem empresas de capital aberto, eles não possuem qualquer incentivo para revelar seus resultados financeiros. Antigamente, eles também tratavam de lidar com suas operações de maneira conservadora, com o aluguel de propriedades constituindo uma rara obrigação e com a compensação variável saindo principalmente de lucros acumulados e não constituindo salários pré-determinados. Mas nos últimos anos, várias firmas de advocacia lançaram programas de expansão de alto custo, financiados. Quando o trabalho diminui, isso pode tornar-se uma "espiral da morte". Quando um escritório começa a fraquejar, sócios-chave os abandonam para não ficar presos a dívidas residuais. E as contas a receber evaporam, na medida em que os clientes atrasam o pagamento.

Altheimer & Gray oferece uma história que deve servir de advertência. O escritório, com 88 anos e cuja matriz fica em Chicago, além de filiais em duas outras cidades americanas e também em 10 países, está se dissolvendo. O colapso de um escritório que um dia possuiu 350 advogados atuando em todo o mundo é um dos maiores na história jurídica americana e ocorre após a busca infrutífera de um parceiro para fusão. O fato de seus principais advogados logo terem conseguido outros empregos, muitas vezes com salários maiores, sugere que o fechamento do Altheimer se deveu a algo mais do que uma economia deprimida.

O que houve de errado? Os relatórios financeiros internos eram péssimos. Os planos de expansão acrescentaram advogados caros e novos escritórios (São Francisco e Paris foram inaugurados recentemente). A prática do escritório no setor de private equity foi prejudicada pela queda nos investimentos. E o infortúnio de clientes como United Airlines e Montgomery Ward não ajudaram.

Os tempos difíceis aparentemente pegaram de surpresa muitos empregados. "Nós tínhamos uma visão distorcida dos negócios do escritório", diz um dos antigos sócios, que afirma que só dois meses antes da queda o comitê de gestão forneceu um relatório sobre o desastre financeiro que se delineava. Enquanto isso, no ano passado foi renovado o aluguel dos escritórios da firma em Chicago e as reformas continuavam.

Todavia, ao fim de 2002 a lista de advogados do Altheimer já estava diminuindo. Recebimentos de clientes, que tradicionalmente ficam menores no começo do ano, foram ainda mais difíceis neste ano. Propostas para estagiários foram canceladas no primeiro semestre e as oportunidades para associados temporários foram cortadas.

Os sócios do escritório (que, afinal de contas, podem ser responsabilizados pelas dívidas) esperam que haja dinheiro suficiente em contas a receber para cobrir as dívidas junto ao Banco LaSalle, que faz empréstimos ao escritório, bem como junto ao proprietário do imóvel ocupado pelo escritório e outros credores, tais como a empresa de reforma de interiores que registrou um pedido de penhora no valor de 1.1 milhão de dólares pelo trabalho realizado no escritório central.

Boa sorte para eles. Os encerramentos de firmas freqüentemente se tornam prolongados e complicados. O Brobeck foi processado pelos seus empregados de posições mais baixas e por seu senhorio. Hutchins, Wheeler & Dittmar, um dos mais antigos escritórios de advocacia de Boston, foi dissolvido em Dezembro, mas seu nome sobrevive nos tribunais em função de um litígio entre os ex-sócios sobre os termos da liquidação. É um final apropriado.

Fabio de Castro Nogueira Santos é estudante de Direito e colaborador da revista Consultor Jurídico

Revista Consultor Jurídico, 22 de agosto de 2003

Comentários

Comentários de leitores: 3 comentários

8/10/2007 13:24 galileu (Contabilista)
este comentario veio de encontro com as convers...
este comentario veio de encontro com as conversas que tenho com meu filho que se formou no ano 2006 (Mackenzie),qualquer motivo ele argumenta para mim que quer abrir um escritorio de advocacia,eu rebato dizendo para ele não deixar o emprego dele porque pelo menos existe um porto seguro.espero que ele me ouça,tenho 57 anos sou aposentado havia 15 anos,não tenho independencia financeira totalmente,mas quebra o galho para no dia a dia poder comer arroz,feijão,ovo ou batata frita.Espero que ele lei este comentario que fiz.grato
22/10/2003 14:53 Eduardo Campelo (Advogado Sócio de Escritório - Empresarial)
FALANDO DE BRASIL... Acabo de deixar um gran...
FALANDO DE BRASIL... Acabo de deixar um grande escritório de Belo Horizonte, onde ocupava cargo de coordenação de departamento. A decisão de saída foi exclusivamente minha, baseada, apenas, numa aposta que faço de que o cenário dos escritórios de advocacia do Brasil, e mais especialmente de Minas Gerais, está em plena reviravolta. Não acredito que estamos "apenas" atravessando uma forte crise econômica, que gera empobrecimento para a classe empresarial. Isso não deixa de ser verdade, mas não explica 100% das nossas atuais dificuldades. Já passamos por tantas crises... Nunca vi o Brasil em boa situação econômica... Na verdade, tenho reparado que os nossos clientes passaram a adotar uma postura bastante diferente em relação ao passado. Hoje em dia, os empresários, de qualquer porte, tomaram como hábito a "cotação de preço" para a contratação de serviços jurídicos. Antigamente, isso não era comum na advocacia. Somente clientes públicos e grandes corporações adotavam essa prática. Empresas um pouco menores confiavam numa determinada pessoa e ponto final. Hoje não é mais assim. Para mim, essa mudança de comportamento da nossa clientela se explica, principalmente, em dois fatores: (i) com a crise, a verba das empresas para contratação de advogados está cada vez mais curta; e (ii) a competição na advocacia vem aumentando de forma assustadora, em razão do grande contingente de profissionais que adentram o mercado a cada ano. A partir dessa mudança do comportamento empresarial, e levando em conta as experiências que vivi num grande escritório de advocacia, de onde eu me relacionava com outras grandes bancas do Brasil e do mundo, concluo como inevitável essa "reviravolta" sobre a qual comentei. Isso porque os grandes contratos de honorários, indispensáveis à manutenção e crescimento de qualquer firma de maior porte, estão cada vez mais raros no nosso cotidiano, o que nos traz a seguinte realidade: "em água rasa, tubarão passa apertado".
22/08/2003 19:06 Daniel Fagundes ()
O caso dos Escritorios em falencia pode ser con...
O caso dos Escritorios em falencia pode ser considerado um aviso a classe? Bem, no entender deste Protagonista do Direito, pode-se entender que tudo que não é bem administrado cai em ruína, alem do mais, como já diz minha mãe: "Não se pode abraçar o munod com as pernas" e ainda: "Quem não pode com o pote, não pega na rodia". Neste sentido, podemos afirmar que devemos galgar nosso lugar ao sol com cuidado para não trocar os pés pelas mãos. Na minha experiencia, deixei por diversas vezes de abrir um escritorio real pelo fato de saber que hoje não tenho clientes suficientes para manter um escritorio, mesmo pequeno. E sendo assim, aviso aos colegas advogados, planejem com cuidado o que fazer quando adentrarem o mercado juridico do trabalho.

A seção de comentários deste texto foi encerrada em 30/08/2003.