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Jornalismo científico

A ideologia do DNA na imprensa brasileira e estrangeira

Em abril deste ano completaram-se 50 anos que a revista Nature publicou o famoso paper em que James Watson e Francis Crick revolucionaram e biologia, postulando uma estrutura de dupla hélice para o DNA. Em sua edição penúltima (11/4/03), a prestigiosa e prestigiada revista The Economist dedica 10 páginas, em caderno especial, ao tema.

Uma análise feita por este repórter em jornais e revistas, abarcando um período de 15 anos, revela que cerca de 98% do material publicado no Brasil e no exterior vindica que a resposta final está nos genes. O estudo configurou-se numa tese de doutorado, defendida ano passado na ECA-USP, intitulada "Falácia genética: a ideologia do dna na imprensa", orientada pelo professor doutor Carlos Marcos Avighi, e que em junho próximo sairá publicada em livro homônimo, pela editora Escrituras.

De acordo com a auditoria norte-americana McKinsey, em 2010 a biotecnologia estará movimentando, por ano, US$ 280 bilhões, dos quais US$ 160 bilhões serão captados pelos trabalhos de pura tecnologia. Não é para menos que os laboratórios que vendem implementos biotecnológicos constituem o setor que mais tem contratado, por ano, assessorias de imprensa em todo o mundo. A bola da vez é vender a idéia de que o Santo Graal da existência humana é o gene. Por isso, na pressa das redações, constatamos que 98% do material publicado nestes quinze anos dá conta que o gene é a resposta final.

Vamos seguir o conselho do velho Sigmund Freud, que em O Mal-Estar na Civilização, datado de 1930, notou:

"O presente estado cultural dos Estados Unidos da América nos proporcionaria uma boa oportunidade para estudar o prejuízo à civilização, que assim é de se temer. Evitarei, porém, a tentação de ingressar numa crítica da civilização norte-americana; não desejo dar a impressão de que eu mesmo estou empregando métodos americanos".

Portanto, que não se enverede aqui pelo inefável processo gringo de satanizações específicas. Satanizar a satanização, tão cara entre americanos em geral e republicanos em particular, é fazer aquilo que psiquiatras chamam de processo iatrogênico: o do mal causado pela própria cura. Apenas lembremos que a eugenia, vulgo melhoramento da raça, é uma invenção americana, obviamente levada ao paroxismo e barbárie pelos nazistas.

Sistemas abertos

Mas é dos EUA a matriz dessas notícias alvissareiras de que os genes são o novo Graal da espécie. Quem primeiro levantou a voz contra isso foi um dos maiores biólogos dos mundo, justamente um americano, de Harvard, Richard Lewontin. No contato que tive com Lewontin para a feitura do livro, ele jamais concedeu mínima trégua sequer para essa novíssima ideologia: a do DNA. Como um messias, dispara a todo o momento que o preço da metáfora é a eterna vigilância. A saber: pagaremos um preço, refere ele, por acreditar nesse zeitgeist, nesse espírito de época, segundo o qual a feição mais insinuante do nosso tempo - e dos recentíssimos tempos finisseculares - é a transparência que dá conta de tudo.

A arquitetura dos últimos 50 anos tem privilegiado a transparência. O mesmo para os reality shows, para as câmeras escondidas empregadas pelos repórteres investigativos TV. O mesmo para as câmeras colocadas nos mísseis Maverick, que tanto pontuaram a cobertura da Segunda Guerra do Golfo. O mesmo para a noção de nações, que agora têm de se alinhar em blocos econômicos, já que a economia especulativa engoliu a acumulativa - e retirar dinheiro de um país para colocar em outro virou coisa de segundos, em que até a noção de territorialidade do mapa ganha contornos de transparência absoluta.

Já que a transparência é a bola da vez, o preço dessa metáfora está sendo perigosamente bem pago. Gene virou chip de computador e, pela leitura de nossos jornais e revistas, corpo virou um sistema fechado. É justamente este o ponto de Lewontin: somos sistemas abertos, como a meteorologia e economia, de resto imprevisíveis. Para ele, genes são, sim, alterados por condições de trabalho, psicológicas, emocionais.

Nessa visão, o crime-capital e ideológico de nossos jornais seria: sempre que publicam novidades biotecnológicas (isto é, sempre), vendem a máquina humana como um sistema fechado. Uma falácia que, aos poucos, vem sendo destruída até por neurocientistas como o português Antonio Damázio, autor de O Erro de Descartes (Cia. das Letras, 2001)

Sujeito da história

A ideologia do DNA na imprensa surgiu da idéia de tentar mapear, através das notícias de jornal, qual seria o zeitgeist, o espírito de época, na ciência, mais novidadeiro de nossos dias: o biologismo. O título escolhido foi este porque uma Falácia Genética é uma linha de "argumento" onde um defeito percebido na origem de uma reivindicação ou coisa é usado para ser evidência que desacredita a reivindicação ou coisa. Também é uma linha de argumento na qual a origem de uma reivindicação ou coisa é usada para ser evidência para a reivindicação ou coisa. Portanto: a resposta final não está nos genes, como tanto tem postulado a mídia - e nisso constitui a falácia a que nos referimos.

Tentamos mostrar como o espírito de época, carregado pela seta da ciência, veio caminhando nos três últimos séculos até chegar no que chamo de febre biologista. Enfim: por que o cânon da busca da "verdade do criador" deslocou-se agora para a biotecnologia? Por que falar em novo milênio subjaz a esperanças nos novos avanços da biotecnologia? Tento demonstrar que a demanda do biologismo é uma demanda, antes de qualquer coisa, do mercado de trabalho cada vez mais seletivo. Enfim: num mundo que se diz globalizado, nunca as causas foram tão particulares. Aumentam os sistemas de análise de produtividade individual. Os ISOs 9004 medem tudo de perto: como nossas ações particulares podem influenciar os resultados da empresa - mas raramente o contrário.

E a febre biologista segue o mesmo caminho: o problema das doenças está nos nossos genes, e não nas condições sociais e de trabalho que modificaram os nossos genes. Cria-se a idéia, sobretudo na mídia, de que mudando as peças dos genes teremos seres sãos e longevos. Seguimos a moda dos técnicos em computação: troca-se o chip, o computador fica bom. Ninguém comenta que somos sistemas abertos, como a meteorologia. Num mundo que cada vez mais necessita de um culpado, achamos um, com o estatuto da ciência chancelando tudo: o problema e a resposta estão em cada indivíduo, na sua carga genética. Condições sociais não entram em discussão. O discurso é clivado.

Analisando o espírito de época da Renascença, o russo Alexandre Koyré postula uma "época em que tudo era possível" - o que significa uma curiosidade sem fronteiras, num mapeamento: desde o descobrimento da América à circunavegação da África, passando pelo mapeamento do corpo que sai de De fabrica corporis humani, de Vesalio, às dissecações de Leonardo da Vinci.

A ciência da Idade Média via tudo na natureza como algo indissolúvel. Pedaços não explicavam a parte, porque destruir o corpo era destruir sua essência. Notava o poeta Alexander Pope, notório por ter feito discurso aos pés do caixão de Isaac Newton, "like following life through creatures you dissect / you lose it in the moment you detect". Nada mais social: a ciência, imersa na sociedade, ainda não é capaz de detectar o indivíduo.

Só mais à frente, em Darwin, e no capitalismo emergente, a sociedade passa a ser vista como conseqüência, e não causa, das propriedades individuais, nota Lewontin. Hoje a situação muda de figura: só enxergamos o indivíduo. Genes são vendidos como sistemas fechados, como peças de computador.

Postulo que, do mapeamento do mundo, passamos para a transformação dele como a undécima moda da seta do descobrimento. Nesse sentido Subirats aponta que a máquina desempenhou no início do século 20 o mesmo papel que a natureza no século 18 ou o gênio no período romântico: era o verdadeiro sujeito da história. Hoje, o gene é o sujeito da história. A imprensa coloca a resposta final dos geneticistas.

Instituição integrada

Mas nem sempre foi assim. Porfiando por fazer da física a ciência mais íntima do absoluto, a mídia entre os anos 1910 e 1970 indicava os físicos com deuses. Quando a 14 de dezembro de 1900, portanto há mais de cem anos, o físico alemão Max Planck destrói os Principia, de Isaac Newton, formulando a teoria dos quanta, uma nova onda se abate na seta do saber.

Alentada pelo físico austríaco Erwin Schrodinger, cujas equações mostram diferentes graus de probabilidades para o mundo das partículas, a febre mostra agora que a seta da "verdade do criador" apontava para uma verdade incerta e variável. O mapeamento do microcosmo da matéria indicava uma criação incerta e variante. A cultura vai nesse caminho.

Carl Orff, em sua ópera Carmina Burana, decreta os novos tempos. Diz a primeira estrofe, na boca de uma soprano: "O Acaso impera sobre o mundo!!!!"

Mesmo tendo perdido a batalha, Albert Einstein reagia que "Deus não joga dados" (Gott wurfelt nicht). Einstein não aceitava o probabilismo quântico. Perdeu essa batalha: o novo mapeamento da ciência, na física, não dava respostas deterministas. Pére Ubu, o dadaísmo, a escrita irlandesa segundo a corrente da consciência, vindicam a incerteza, porque a física mostrava que o criador era incerto.

O fim do século 20 traz novidades. Do mapeamento do mundo e dos corpos de Da Vinci (Renascimento), da transformação do mundo (Revolução Industrial), da descoberta das micropartículas (Teoria Quântica), a seta da ciência se desloca para uma febre biologista que engloba as demais: o mapeamento das micropartículas do ser (Projeto Genoma Humano) e a transformação do próprio ser (biotecnologia).

Os foci imaginarii - horizontes que bloqueiam e abrem, cercam e distendem o espaço da modernidade - são aumentados para os segredos da vida e da criação. Eis que surge a bioética com a tarefa de regulação moral, ética e sistêmica dos limites que não podem ser ultrapassados pela seta da ciência.

Mas toda essa discussão é obviamente rara na mídia. O poder das assessorias agora visa o mercado, que é bilionário.

Por que o espaço do corpo surge agora como resposta a quase todas as verdades, no comportamento sobretudo? Basta lembrar que tudo ou quase tudo se espera dessa febre vitalista: na Califórnia, por exemplo, a seita Clonem Jesus espera que os biogeneticistas reencarnem o Cristo pela clonagem de supostos fragmentos de DNA encontrados no Santo Sudário.

Acreditam que a nova ciência veio para trazer de volta o Messias. Em dezembro de 2000, a revista mensal The Atlantic Monthly trouxe entrevistas com médicos discutindo a ética de se dar a pacientes a satisfação de suas novas vontades, como esta, por exemplo: virou moda nos EUA e na Europa sentir a dor fantasma de um membro amputado. Uma rara psicopatologia volta à moda: "apotemnophilia" e "acrotomophilia", atração à idéia de ser amputado e atração sexual a amputados, respectivamente. Daí a bioética se encontra com o chamado espírito Pós-Moderno.

A biotecnologia tem feito o papel que a física desempenhou outrora: o da seta mais ousada da humanidade, o que há de mais avançado. Não podemos ver a biotecnologia como algo acima do bem e do mal. Nota Lewontin que a ciência, como quaisquer outras atividades produtivas (como a família, esportes, Estado) é uma instituição social completamente integrada e influenciada pela estrutura de todas as outras instituições sociais. Nessa visão, toda a investigação científica deriva da sociedade em que vivemos. Segundo ele, a ciência, na medida de ser uma profissão, é fruto das forças sociais e econômicas dominantes.

"Embora se pretenda acima da sociedade, a ciência, como a Igreja antes dela, é uma instituição social suprema, refletindo e reforçando os valores dominantes e visões da sociedade de sua época histórica." O que vemos, portanto, é a mercantilização da ciência, via mídia, como nunca se viu antes.

*Texto transcrito do site Observatório da Imprensa

Revista Consultor Jurídico, 30 de abril de 2003, 13h17

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